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Do Cruzeiro ao Plano Real: a economia em nossas páginas

‘Diário’ repercutiu décadas de reformas monetárias que tentaram conter a inflação e reconstruir a confiança no cenário financeiro do País

28/11/2025 | 06:00
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Fernando Henriqeu liderou a equipe de economistas que elaborou o Plano Real (FOTO: Reprodução/Facebook)
Fernando Henriqeu liderou a equipe de economistas que elaborou o Plano Real (FOTO: Reprodução/Facebook) Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Em fevereiro de 1986, o Diário estampou a manchete: ‘O dinheiro terá novo nome: Cruzado’, acompanhada da linha fina ‘Presidente anuncia hoje congelamento de preços e medidas para tentar baixar a inflação a zero’. Essa chamada de capa marcou, para os leitores, o início de mais uma profunda transformação na história econômica brasileira, uma trajetória que, desde os anos 1960, vinha sendo marcada por sucessivas reformas monetárias na tentativa de controlar a inflação e recuperar a confiança na moeda.

Antes da chegada do Cruzado, o País já havia enfrentado outra grande mudança: a transição do Cruzeiro para o Cruzeiro Novo, implementada durante a ditadura militar, entre 1967 e 1970. Introduzido em 13 de fevereiro de 1967, o Cruzeiro Novo (NCr$) surgiu como um padrão monetário transitório para substituir o cruzeiro criado em 1942, cuja desvalorização dificultava as transações do dia a dia. 

A conversão estabelecida foi de 1.000 cruzeiros antigos (Cr$) para um cruzeiro novo (NCr$). O corte de zeros teve como objetivo simplificar cálculos e tentar restaurar a confiabilidade na moeda em um período de instabilidade política e deterioração fiscal. Em 14 de maio de 1970, o termo “Novo” foi suprimido e a moeda voltou a se chamar apenas Cruzeiro (Cr$), encerrando essa fase de transição.

Duas décadas depois, já sob um cenário de hipe-rinflação, o Brasil viu uma nova tentativa de estabilização com o Plano Cruzado, implementado em 28 de fevereiro de 1986. A reforma trouxe outra grande conversão: 1.000 cruzeiros (Cr$) passaram a valer um cruzado (Cz$), acompanhada do retorno dos centavos, que haviam sido abolidos em 1984 devido à perda extrema de valor do dinheiro da época. Novas moedas de 1, 5, 10, 20 e 50 centavos, além de 1, 5 e 10 cruzados, voltaram a circular.

O Plano Cruzado também instituiu um amplo congelamento de preços e salários, medida ousada que buscava interromper imediatamente a escalada inflacionária e levar a inflação a zero. Embora inicialmente tenha gerado forte impacto e expectativa, seus efeitos não se sustentaram a longo prazo, contribuindo para que os anos 1980 ficassem conhecidos como a Década Perdida. 

Pouco depois da im-plementação do Cruzado, o Diário trouxe em sua manchete o presidente José Sarney pedindo apoio dos brasileiros para o plano sob o título ‘Sarney pede coragem à população’. Além disso, o presidente conclamou o povo para que ajudasse a vigiar os preços. 

Inicialmente, o plano gerou um clima de euforia, com a inflação caindo e a popularidade do presidente aumentando. A população chegou a ser chamada de “fiscais do Sarney” para denunciar o aumento abusivo de preços.

A mobilização também chegou ao Grande ABC e o jornal trouxe a matéria ‘Região recebe com simpatia o novo plano’. Entretanto, o sucesso foi passageiro. Após as eleições de 1986, o congelamento foi flexibilizado e a inflação voltou a subir. O plano acabou não conseguindo controlar a crise econômica.

A troca do Cruzeiro para o Cruzeiro Novo, seguida pela mudança para o Cruzado e por outras reformas que viriam ainda, como Cruzado Novo, Cruzeiro Real, o Plano Collor e o Plano Real, em 1994, compõem uma sequência de tentativas do Brasil de recuperar a estabilidade econômica.

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Em 90, Collor promete libertar o País da miséria e da injustiça 

Em 14 de março de 1990 o Diário publicou o discurso do então presidente Fernando Collor de Mello na Câmara Federal, um dia antes da implementação do plano econômico que levou seu nome, no qual prometeu libertar o Brasil da miséria e da injustiça. 

A partir dessa data, o jornal estampou em suas páginas as várias ações de presidente: ‘Collor faz reforma radical na economia e corta gasto público’; ‘Governo Collor anuncia pacote e provoca perplexidade geral’; ‘Bancos aderem ao plano sob ameaças’; ‘Plano se baseia em três pontos e é o mais duro já aplicado no País’. 

O Plano Collor, lançado em 15 de março de 1990, foi um dos mais drásticos pacotes econômicos da história do Brasil, criado para tentar deter a hiperinflação que já ultrapassava níveis críticos. 

A medida ficou marcada sobretudo pelo confisco de ativos financeiros, quando cerca de 80% dos depósitos bancários, incluindo poupança, contas correntes e fundos de investimento, foram bloqueados e retidos pelo Banco Central por até 18 meses, causando profundo trauma econômico na população.

O plano, dividido entre Collor I e Collor II, também promoveu uma nova reforma monetária, substituindo o Cruzado Novo pelo Cruzeiro (Cr$), além de implementar congelamento de preços e salários, políticas de abertura comercial, privatizações e a extinção de diversos órgãos públicos como parte do ajuste fiscal.

Apesar das ações radicais, o impacto desejado não foi alcançado: a inflação voltou a subir poucos meses depois, evidenciando o fracasso no combate à hiperinflação. O confisco gerou milhares de ações judiciais, queda de confiança no sistema financeiro e forte instabilidade econômica. Somadas às denúncias de corrupção, esses fatores contribuíram para o clima político que levaria ao impeachment de Collor em 1992, encerrando um dos períodos mais turbulentos da economia brasileira.

Em 1994, Brasil vê fim de anos  de hiperinflação com Plano Real

Quatro anos após o fracasso do Plano Collor, o então presidente Itamar Franco (1930- 2011), que tinha a seu lado como ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, lançou o Plano Real. FHC, como ficou conhecido, veio a ser eleito, ainda em 1994, presidente, aproveitando a popularidade do plano. Fernando Henrique liderou a equipe de economistas que elaborou o Plano Real. Foi o idealizador do projeto, fundamental para a estabilização da economia brasileira e ao fim da hiperinflação. 

A capa de 1º de julho de 1994 trouxe para os leitores do Grande ABC detalhes do novo plano econômico. A manchete ‘Itamar lança o real e descarta a possibilidade de recessão no País’ foi um prenúncio do que viriam a ser as medidas implementadas pelo governo.

O Plano Real foi um divisor de águas na história econômica do Brasil, marcando o fim de décadas de hiperinflação. tinha como objetivo principal conter a inflação galopante, que havia chegado a quase 5.000% ao ano. Diferentemente dos planos anteriores que se baseavam em congelamentos artificiais de preços, o Real foi estruturado em um processo gradual e técnico. 

O sucesso do plano foi resultado de sua implementação em três fases: ajuste fiscal emergencial, criação da URV (Unidade Real de Valor) e lançamento da nova moeda. Como consequência, a inflação caiu drasticamente, saindo de 4.922% acumulados em 12 meses (junho de 1994) para cerca de 22% em 1995, e se estabilizando em patamares muito menores desde então. A estabilidade permitiu a redução da miséria e da desigualdade social e, três décadas depois, o Real permanece como a moeda brasileira. 




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