Edição 20.000 Grupo adotava discurso nacionalista extremo e foi responsável por casos de violência coletiva que mobilizaram autoridades do Estado
FOTO: JB Ferreira 7/4/93

Dissidentes dos Carecas do Subúrbio, os Carecas do ABC surgiram na região nos anos 1990, à época denominados como uma gangue, que circulava principalmente em Santo André, e rapidamente se espalharam por outras cidades do Grande ABC. Com estética própria: cabeça raspada, coturnos e roupas escuras, e discurso que mesclava nacionalismo extremo e intolerância, o grupo ganhou notoriedade nas páginas do Diário por episódios de agressões, perseguições e assassinatos motivados por preconceito racial, xenofobia e LGBTfobia.
As investigações e julgamentos ao longo dos anos 1990 e 2000 mostraram que muitos de seus integrantes atuavam de forma articulada, andando em bandos e escolhendo alvos considerados inimigos por sua ideologia.
Os primeiros registros de violência associada ao grupo datam da segunda metade dos anos 1990. Em 1997, o adolescente Fábio Henrique Oliveira dos Santos, 15 anos, morreu após ser espancado na área central de Santo André. O jovem foi atacado por um grupo de 30 jovens com cabeça raspada, segundo testemunhas. O caso motivou ações de monitoramento da Polícia Civil e Militar em pontos onde esses grupos costumavam circular, incluindo praças, bares e regiões próximas às estações de trem.
Outras ocorrências na região seguiram padrão semelhante: deslocamentos coletivos, escolha prévia de alvos e ataques rápidos. Inquéritos registraram agressões contra punks, moradores de rua, jovens negros e casais LGBTQIA+. A Polícia Civil passou a incluir o nome dos Carecas do ABC em levantamentos sobre grupos organizados com atuação de motivação ideológica.
As ações do grupo foram para além da cobertura regional e ganhou proporção nacional em 2000, com o assassinato de Edson Néris da Silva, 35, na Praça da República, no centro da Capital. Edson caminhava com seu companheiro, Dario Pereira Netto, quando ambos foram cercados por cerca de 30 jovens. Dario conseguiu fugir, mas Edson foi espancado e morreu no local. A ligação com integrantes do Grande ABC surgiu nos dias após a ocorrência, e as investigações mapearam a presença de suspeitos de Santo André, São Bernardo, Diadema e Ribeirão Pires entre os detidos.
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Ao todo, 18 acusados foram presos e denunciados. Na época, o Ministério Público apontou formação de quadrilha, além de homicídio qualificado. A polícia também concluiu que grupos organizados deixavam o Grande ABC rumo à Capital especialmente aos fins de semana, prática que explicava a reincidência de ataques semelhantes em ambos os territórios.
Os julgamentos, também acompanhados pelo Diário, ocorreram entre 2001 e 2003. Parte dos réus foi condenada após reconhecimentos feitos por testemunhas. Já outros foram absolvidos por falta de provas. Depoimentos prestados ao longo do processo revelaram divergências entre os próprios acusados, com relatos de rivalidade com outras facções skinheads e tentativas de alguns envolvidos de se desvincular do grupo.
Após a conclusão do julgamento, o periódico continuou a acompanhar a rotina de ex-integrantes dos Carecas do ABC, e em 2002, em entrevista com Regina Saran, absolvida após ser acusada de participação na morte de Edson Néris, ela mostrou arrependimento em fazer parte do grupo, e relatou injustiça no tribunal.
“Fiquei presa porque ninguém assumiu participação no espancamento. Meu marido, que também não bateu em ninguém, pensou em assumir o caso só para que eu fosse solta, mas não deixei”, disse a ex-integrante à reportagem.
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