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‘Diário’ denuncia violência policial em caso de Diadema

Em 1997, jornal foi o primeiro a ouvir sobreviventes dos crimes contra moradores da Favela Naval, que resultaram na queda do comando da PM

Ryan Leme
Especial para o Diário
28/11/2025 | 06:10
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Moradores se reuniram na frente do 2º DP para realizar protestos contra policiais (FOTO: Roberto Mourão 2/4/97)
Moradores se reuniram na frente do 2º DP para realizar protestos contra policiais (FOTO: Roberto Mourão 2/4/97) Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A madrugada de 7 de março de 1997 marcou a história da segurança pública paulista. Nas primeiras horas após o assassinato do metalúrgico Mário José Josino, 30 anos, durante uma abordagem policial na Favela Naval, em Diadema, o Diário foi o primeiro veículo a ouvir os dois sobreviventes que estavam com ele no carro naquela noite, que não tiveram os nomes revelados. Os relatos publicados pelo jornal em 8 de março contrariaram a versão inicial da Polícia Militar e anteciparam elementos que mais tarde seriam confirmados pela perícia e por imagens que chocariam o País.

Os dois amigos contaram que a equipe da 2ª Companhia do 24º Batalhão Policial de Diadema ordenou que parassem o carro, realizou revista, devolveu os documentos e, em seguida, iniciou agressões. Minutos depois, após serem liberados, ouviram disparos. “Andamos dez metros com o carro e escutamos os tiros”, afirmou um dos sobreviventes ao Diário. O atestado do IML (Instituto Médico Legal) confirmou que o tiro atingiu Josino pelas costas, em posição incompatível com a alegação da polícia, de que o veículo havia “furado o bloqueio”.

Até então, o caso estava restrito à região. No entanto, nas semanas seguintes, em 31 de março, o episódio mudou de escala quando veio a público um vídeo gravado por um morador da Favela Naval. As imagens, divulgadas nacionalmente no Jornal Nacional, mostraram uma série de agressões, extorsões e tiros disparados por policiais, entre eles os soldados Otávio Lourenço Gambra (apelidado de “Rambo”), Valdir Dias Bonfim, Maurício Louzada, Nelson Soares da Silva Júnior, Demontier Figueiredo, Marcelo de Araújo, João Alves e outros integrantes do 24º Batalhão.

Com a repercussão, o Diário começou a publicar informações que apontavam falhas no comando da Polícia Militar. Apurou, por exemplo, que oficiais responsáveis pelo policiamento no Grande ABC haviam obtido acesso à fita pelo menos uma semana antes de sua divulgação na TV. A informação desencadeou conse-quências administrativas imediatas: o coronel Luís Antônio Rodrigues, comandante da área, foi afastado; o coronel Paulo Miranda de Castro, da Corregedoria, também deixou o cargo; e, dias depois, o tenente-coronel Pedro Pereira Matheus, então comandante do 24º Batalhão, foi detido administrativamente após prestar depoimento à CPI do Crime Organizado.

Enquanto as imagens repercutiam nacionalmente, o jornal acompanhava a reação da população e o avanço das investigações. No dia 2 de abril, cerca de 500 moradores se concentraram em frente ao 2º Distrito Policial de Diadema durante a oitiva de policiais envolvidos, em um protesto que terminou com intervenção do Batalhão de Choque e com o micro-ônibus da corporação parcialmente danificado. Em matéria publicada na data, comerciantes locais relataram que reduziram horário de funcionamento de seus negócios e famílias decidiram deixar suas casas.

A investigação interna da PM avançou rapidamente. O número de policiais envolvidos passou de dez para mais de 30, segundo reportagens do Diário. Havia suspeitas de que parte das extorsões e bloqueios ilegais na região eram realizadas até mesmo em dias de folga, utilizando viaturas cedidas pela Prefeitura. Um dos policiais citados, o cabo Ricardo Buzeto, chegou a fugir e foi considerado desertor pela Justiça Militar. O jornal relatou que sua saída precipitou novas medidas disciplinares, levando ao afastamento de mais integrantes do comando.

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AUDIÊNCIAS

No Judiciário, os repórteres estiveram presentes em cada uma das audiências do processo. Em seu depoimento, o policial Otávio Gambra negou ter efetuado o disparo que matou Josino e disse que os tiros vistos no vídeo eram “para cima”, alegando serem advertências. “O carro saiu ileso do local”, afirmou no depoimento, contrariando laudos e registros fotográficos que mostravam o vidro traseiro quebrado e sangue no interior do veículo. Em outro momento, declarou: “Tínhamos de abordar não como na Avenida Paulista, mas com energia.” Já o soldado Maurício Louzada admitiu agressões contra um motorista abordado: “Eu dei o tapa porque fui ofendido.”

Outros policiais, como Nelson Júnior e Demontier Figueiredo, alegaram abalo emocional e optaram por permanecer em silêncio. Houve ainda depoimentos em que agentes afirmaram não se lembrar dos fatos ou negaram reconhecer colegas vistos nas imagens. O Diário registrou todas as falas, assim como análises de promotores, defensores e advogados envolvidos. Cada contradição entre depoimentos e o conteúdo do vídeo foi detalhada ao longo das semanas.

A cobertura também acompanhou a repercussão política e institucional. Líderes comunitários, especialistas em segurança pública, representantes de movimentos sociais e autoridades estaduais foram ouvidos pelo jornal. O prefeito de Diadema à época, Gilson Menezes, visitou a família de Josino e demonstrou forte emoção ao comentar o impacto do episódio na vida da população local. 

O caso prosseguiu na Justiça nos anos seguintes, com condenações por homicídio, tentativa de homicídio, lesão corporal, tortura e extorsão. Gambra, apontado como um dos principais envolvidos, recebeu uma das penas mais altas. Após julgamentos e recursos da defesa, teve sua pena consolidada em 15 anos e 4 meses de reclusão por homicídio e tentativa de homicídio.

Outros agentes foram absolvidos ou tiveram penas reduzidas, enquanto alguns retornaram à corporação após decisões judiciais. O Diário continuou acompanhando os trâmites e os recursos apresentados pela defesa dos policiais, e o conjunto das reportagens produzidas naquele período permanece como documentação importante sobre um dos casos mais emblemáticos da região e da segurança pública brasileira.

Personagens do episódio voltam às páginas anos depois

Anos depois da blitz que transformou a Favela Naval em símbolo da violência policial nos anos 1990, personagens centrais daquele episódio voltaram a aparecer nos noticiários, cada um por caminhos distintos e quase sempre marcados por novos conflitos, que foram acompanhados pelo Diário.

Em julho 2004, o jornal noticiou o assassinato do ex-policial militar Rogério Neri Bonfim, então com 34 anos, um dos PMs filmados agredindo moradores na Naval. Bonfim foi morto com um tiro no peito, em uma rua do Rudge Ramos, em São Bernardo. 

O crime ocorreu a poucos metros da Avenida Senador Vergueiro, área movimentada do bairro. Testemunhas relataram ter ouvido três disparos; uma delas contou ao Diário que encontrou Bonfim caído no chão pedindo socorro. Mesmo ferido, ele tentou reagir e chegou a disparar duas vezes. A polícia encontrou ao seu lado uma pistola calibre 380, registrada em seu nome, além de munições no carro. 

As investigações apontaram para hipóteses que iam de vingança a conflitos profissionais. Bonfim mantinha uma empresa de segurança particular, porém, não havia registro do empreendimento no sindicato da categoria, e a possibilidade de atividade clandestina também entrou no radar da polícia.

Outra figura ligada diretamente ao caso voltou ao noticiário em 2007. Francisco Romeu Vanni, responsável pelas imagens que revelaram ao País as agressões e extorsões cometidas pelos policiais na Naval, foi preso na Zona Leste da Capital. Era procurado pela Justiça e cumpria condenação por receptação de veículos. 

Em 2020, quem voltou à cena pública foi o próprio Otávio Gambra, o ex-PM condenado pelo homicídio de Josino. Aos 62 anos, tentou ingressar na política como candidato a vereador pelo PRTB em Diadema. O Diário o entrevistou durante a campanha, quando pediu que o jornal evitasse associá-lo ao apelido “Rambo”, embora admitisse carregar a marca do episódio “para o resto da vida”. 

Na entrevista, Gambra afirmava ser “um homem que pagou a dívida com a Justiça”, relatando os anos de prisão em regimes fechado, semiaberto e aberto, além da expulsão da corporação e de conflitos familiares decorrentes do caso. Ao ser questionado sobre o tiro que matou Josino, voltou a afirmar que agiu em “advertência”, sustentando que apenas cumpria determinações superiores na operação realizada na comunidade.




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