Edição 20.000 Cárcere privado que parou o País em outubro de 2008 foi registrado do primeiro ao último momento pelos profissionais do ‘Diário’
FOTO: Tiago Silva/Arquivo DGABC

O sequestro que parou o Brasil em outubro de 2008 iníciou como uma ocorrência ainda vaga para a redação do Diário. A informação inicial, recebida na noite do dia 13, era de que “um rapaz não deixava a ex-namorada sair do apartamento” no Jardim Santo André. Nada indicava, naquele momento, que o episódio se tornaria o mais longo cárcere privado já registrado no Estado até então, com 100 horas de tensão, disparos, negociações suspensas e um desfecho trágico que marcaria a história da segurança pública brasileira.
O auxiliar de produção Lindemberg Fernandes Alves, 22 anos, na época, invadiu o apartamento da ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, por volta das 13h de uma segunda-feira. Ele encontrou a jovem acompanhada de três amigos da escola, entre eles, Nayara Vieira, também de 15 anos. Os adolescentes foram rendidos e levados para o quarto. Durante toda a tarde, vizinhos estranharam a demora dos jovens em retornar para casa, e a Polícia Militar só foi acionada no início da noite. Àquela altura, já havia disparos dentro do imóvel.
Às 21h daquela segunda-feira, os dois garotos foram libertados sem lesões. As adolescentes, segundo o Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais), permaneciam sob ameaça constante e haviam sido agredidas. Assim começava o cerco que, nos dias seguintes, seria acompanhado passo a passo pelo Diário.
No primeiro dia, quando ainda não se falava publicamente em sequestro, o fotógrafo André Henriques, 53, então plantonista da madrugada, chegou ao conjunto habitacional praticamente junto com o Gate. A equipe, formada por André, o repórter Evandro de Marco e motoristas do jornal, foi a primeira da imprensa a alcançar o local.
Ao perceber que a polícia começava a isolar a área, o fotógrafo decidiu agir. “Fui para o prédio lateral, que tinha visão direta da janela da Eloá. Subi dois andares e fiquei lá escondido. Se eles me vissem, iriam me tirar. O Gate estava no comando”, relembra. Naquela época, ele cobria essencialmente a área policial e conhecia a maioria dos agentes que atuavam na cidade.
Daquela posição improvisada, ele registrou cenas que, horas depois, seriam usadas para confirmar que havia adolescentes dentro do apartamento e que os meninos tinham sido libertados. “A gente fica de olho em tudo no perímetro. Qualquer aparição na janela, nos corredores, nos movimentos dos snipers”, explica. O fotógrafo permaneceu ali até as 8h da manhã do dia seguinte, quando foi substituído pelo colega Claudinei Plaza, 50. A partir daquele momento, os fotógrafos do Diário passaram a se revezar dia e noite no ponto estratégico.
Na manhã de terça-feira, 14 de outubro, a dimensão do episódio já era outra. O local estava tomado por equipes de TV e jornais do País inteiro. As negociações avançavam lentamente, Lindemberg não fazia exigências claras, recusava comida e alternava momentos de agressividade com aparente arrependimento.
Naquela mesma terça-feira, Nayara foi libertada às 23h, após a polícia restabelecer a energia elétrica do apartamento. A polícia afirmou que o sequestro já ultrapassava 57 horas, se tornando o mais longo do Estado.
O jornal acompanhou as aparições de Eloá na janela, a retirada de sacos de lixo, a corda improvisada com lençóis usada para buscar alimentos e o momento em que, na tarde daquele dia, Lindemberg concedeu entrevista ao vivo a um programa de televisão.
Nayara volta e jovens são baleadas depois de invasão da polícia; Lindemberg sai ileso
Na manhã de quinta-feira, em 16 de outubro, veio um dos momentos mais surpreendentes e controversos do caso. Nayara voltou ao apartamento. Segundo a polícia, o retorno teria sido uma exigência de Lindemberg Alves para libertar Eloá. Extraoficialmente, agentes afirmavam que a adolescente não era tratada como refém naquele momento. A jovem, no entanto, não apareceu mais na janela depois de entrar no imóvel.
Aquela quinta-feira marcou também a consolidação do episódio como o caso de cárcere privado mais longo do Estado, que já ultrapassava 80 horas.
FIM E MORTE
Por volta das 18h de sexta-feira, 17 de outubro, após 100 horas de cárcere, o Gate decidiu invadir o apartamento. A operação foi rápida, e desastrosa. Nayara saiu com ferimento na boca. Eloá, baleada na virilha e na cabeça, com exposição de massa encefálica. Ambas foram levadas ao Centro Hospitalar Municipal de Santo André. Eloá não resistiu mais tarde.
A morte da jovem abriu uma discussão nacional sobre violência contra mulheres e protocolos policiais. Lindemberg foi retirado do local ileso.
Na época, o seccional de Santo André, Sérgio Luditza, decidiu transferir o assassino imediatamente para evitar tumulto na delegacia. Em coletiva, promotores e comandantes do Choque disseram que todas as tentativas de negociação haviam sido esgotadas e defenderam a operação.
Na visão do fotográfo do Diário, André Henriques, 53, o desfecho deixou marcas profundas. “Quando uma vítima morre, deu tudo errado”, diz.
O profissional lembra que a expectativa geral era de rendição pelo cansaço, estratégia comum do Gate, de acordo com Henriques. Ele resume as tentativas de libertar Eloá como “uma sequência de escolhas que não funcionaram”.
Lindemberg foi condenado a 98 anos e 10 meses, quatro anos após o crime. Em 2013 conseguiu diminuir a pena para 39 anos.
Mãe revive caso e mostra processo de luto após assassinato em Santo André
Anos depois do crime, o Diário acompanhou o processo de luto da mãe de Eloá, Ana Cristina Pimentel, atualmente 59 anos.
Em 2013, a equipe mostrou que a mãe fazia parte da luta pela doação de órgãos no Grande ABC, visto que após a confirmação por morte cerebral da jovem, os profissionais do CHM (Centro Hospitalar Municipal) de Santo André conseguiu o transplante de sete orgãos.
Também no mesmo ano, o jornal acompanhou uma das inúmeras visitas ao túmulo da jovem. Na época, Ana Cristina comparecia sempre a cada dois meses ou em datas especiais, como aniversário ou dia da morte.
“Você nunca conta por data ou dia, só sabe que perdeu a pessoa e ela não vai voltar mais. Tento conviver com essa perda. Já faz um tempo, mas, para mim, todos os dias são iguais, sempre a mesma coisa. A saudade não vai desaparecer nunca. Em tudo que faço lembro dela”, disse a mãe ao Diário.
Já em 2020, 12 anos após o caso, a equipe voltou a conversar com Ana Cristina. Dessa vez, o assunto era sobre a solicitação de progressão ao regime aberto para Lindemberg Fernandes Alves.
“Fiquei sabendo, não fiquei surpresa, pois já esperava. Tenho certeza de que ele não é pessoa sã. Ele é ruim. Mas, infelizmente, a Justiça é falha. Com ele solto, não vai resolver os meus problemas e toda minha dor”, lamentou a mãe de Elóa na época.
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