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Jornal revisita Favela Naval duas décadas após denúncias

Reportagem encontrou uma comunidade com menor número de habitantes e ouviu relatos de moradores, que citaram evolução na segurança

Ryan Leme
Especial para o Diário
28/11/2025 | 06:15
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Em 2017, Efigênia Guilhermina Josino, mãe de José Josino, ainda esperava indenização do caso, avaliada em R$ 3 milhões (FOTO: André Henriques 23/3/17)
Em 2017, Efigênia Guilhermina Josino, mãe de José Josino, ainda esperava indenização do caso, avaliada em R$ 3 milhões (FOTO: André Henriques 23/3/17) Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Vinte anos após a execução de Mário José Josino e a exposição da violência policial que colocou a Favela Naval no noticiário nacional, o Diário retornou ao local, em 2017, para entender como a comunidade havia se transformado desde então. A região onde aconteceram os crimes, entre as ruas Idealopolis e José Francisco Brás (antigas ruas Naval e Afonso Braz, parcialmente urbanizadas e com número menor de moradores, já não apresentava o cenário de tensão permanente dos anos 1990, mas seguia carregando marcas daquele período. 

Incêndios (1991 e 1999), remoções e transferências da população para conjuntos habitacionais contribuíram para a diminuição no número de habitantes e à mudança no perfil da população, que, segundo antigos moradores, vive em ambiente mais estável, embora ainda marcado pela lembrança do caso.

O fluxo de crianças nas ruas, o movimento de pequenos comércios e o silêncio que domina algumas áreas, antes tomadas por carros e patrulhas, foram observações frequentes durante a visita da reportagem.

O jornal reencontrou pessoas que viveram o episódio de perto. Vera Lúcia Pereira de Lima, uma das moradoras mais antigas, recordou o medo que dominou o bairro após a divulgação das imagens. “Depois que aconteceu o caso ficamos três meses sitiados, com tudo fechado. Tínhamos medo de sair”, contou. 

A moradora também observou mudanças na sensação de segurança. “Tem dias que até durmo com a porta sem trancar. Sabemos que tem violência, mas nem compara com antes. Hoje é uma paz.” Vera relatou ainda que a circulação policial, que antes era constante e motivo de temor, acabou se tornando pontual.

Já o relato de Neusa Matias de Souza, moradora há 30 anos, reforçou a violência da época. A munícipe relembrou ter sido abordada pelo policial Otávio Gambra horas após a morte de Josino, enquanto saía de casa com a família. “Ele olhou dentro do meu carro e apontou a arma na nossa cara. Escutei quando ele falou para os companheiros que iam nos deixar passar”, disse. 

A moradora afirmou que, mesmo duas décadas depois, a lembrança do episódio ainda provoca tensão quando transita pela área onde o caso aconteceu.

Entre os depoimentos mais marcantes, o Diário ouviu novamente Efigênia Guilhermina Josino, mãe de Mário. Aos 78 anos, relatou que a dor da perda permanecia presente no cotidiano e revelava uma segunda ferida aberta: a indenização que venceu na Justiça nunca havia sido paga. 

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O valor, fixado inicialmente em R$ 150 mil, já ultrapassava R$ 3 milhões em 2017, mas seguia na fila dos precatórios como processo número 2.703, atrás de mais de 2.000 pessoas que tinham valores a receber. 

A demora obrigava Efigênia a complementar a renda vendendo rifas, enquanto dividia a casa com o neto Kleiton Josino, que tinha apenas 9 anos quando o pai foi morto. O jovem contou à reportagem que tenta ajudar a avó como pode e que a ausência do pai ainda pesa, mesmo após tantos anos.

INICIATIVAS SOCIAIS

O retorno do Diário também registrou mudanças na dinâmica comunitária. Moradores relataram que a Naval deixou de ser vista como “território de medo” e passou a conviver com iniciativas sociais e melhorias estruturais, ainda que em ritmo lento. Trechos antes tomados por esgoto a céu aberto foram canalizados, novas famílias chegaram, outras partiram, e o local ganhou aparência menos marcada pelos casos que ocorreram em 1997. Ao mesmo tempo, as marcas da violência continuavam presentes nos relatos.




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