Edição 20.000 Hoje vista como essencial para o fluxo de veículos na região, avenida nasceu sob críticas quanto aos custos e forte questionamento da população
FOTO: Reprodução/Banco de Dados

Uma obra à frente de seu tempo, a Avenida Perimetral nasceu em meio a controvérsias e debates políticos acalorados, tudo acompanhado de perto pelas páginas do Diário, na década de 1970. A sua proposta seria abrir caminho para o trânsito caótico ao Centro de Santo André, também atendendo a veículos de cidades vizinhas. Os trabalhos para tirar do papel essa importante via ocorreram no governo do prefeito Newton da Costa Brandão, entre 1969 e 1973, prosseguindo nos anos seguintes.
A pista teve o seu pontapé em 1959, quanto a Prefeitura de Santo André, sob comando de Pedro Dell’Antonia, contratou, junto ao CPEU (Centro de Pesquisas e Estudos Urbanísticos), da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, a elaboração do Plano Diretor Preliminar. Quem teria a incumbência de desenvolver estudos do sistema viário seria o professor Anhaia Mello. Mesmo sem o avanço daquele Plano Diretor, o projeto viário seguiu em desenvolvimento. Em 1963, realizou-se o primeiro detalhadamente da Avenida Perimetral.
De página em página com o passar dos anos, o Diário acompanhou o desenvolvimento das obras da Perimetral, sempre dando voz a todos os lados, de quem defendia tal projeto de tamanha magnitude, como os mais críticos. Em 21 de janeiro de 1973, o jornal colocou para circular para as bancas e ruas do Grande ABC, na edição 2.053, três páginas da reportagem especial “Av. Perimetral - O retrato de uma obra em debate”, na qual tratava da origem da proposta, os elevados custos e as justificativas técnicas.
Anos depois, a futura avenida encontrou no seu caminho um apaixonado pelo planejamento, Rodolpho Monsueto Dini, diretor de Planejamento da Prefeitura de Santo André. “O projeto, a ideia, de uma avenida do tipo a Avenida Perimetral, dentro de um contexto urbanístico, surge em determinado momento em razão das necessidades. É desenvolvida e levada à execução da obra. A obra que vemos sofreu modificações para melhor e, sem dúvida, é uma das obras de maior vulto e melhor apuro técnico que está sendo realizada no Estado de São Paulo”, disse ao Diário.
Entretanto, naquela mesma edição, houve fortes críticas, como do então deputado estadual Lincoln dos Santos Grillo - que viria a ser prefeito entre 1977 e 1983. O parlamentar afirmou, na ocasião, entender a finalidade da proposta voltada à melhoria do trânsito, mas criticou a execução e os custos. “Cometeram um crime, em termos de construção de uma obra cara, aliás, supercara, caríssima, pois aplicaram mais de Cr$ 21 milhões. E pior de tudo é que as transversais ficaram sem cruzamento. Isto é um absurdo. Dividiram a cidade em duas partes”, declarou.
Além da oposição, comerciantes da Rua Coronel Alfredo Flaquer também engrossaram críticas, devido aos impactados com a chegada da Perimetral. Para eles, a abertura da nova via significou uma queda de 70% nos índices de vendas. A maioria dos proprietários ficavam parados à porta, olhando para o vazio da rua.
Naquela mesma edição, o Diário também questionou: “Quanto, afinal, vai custar?”. De acordo com a Secretaria de Obras da Prefeitura, o valor total naquele momento era de Cr$ 18 milhões. Por outro lado, fontes na época da própria Pasta admitiam que haveria aditivos. “Isso significa que antes mesmo da pavimentação ser iniciada, os valores do contrato serão alterados, totalizando um montante maior do que o previsto”, alertou a reportagem.
Por sua vez, Brandão defendeu a construção da via. “A Avenida Perimetral tem um significado muito importante para a nossa cidade. Primeiramente, porque é uma solução de trânsito. Sabemos que no ritmo de desenvolvimento que enfrentemos, se não abrirmos avenidas capazes de suportar o volume de tráfego, logo a cidade estará intransitável, e o País já possui o número recorde de acidentes no mundo”, apontou, entre as justificativas.
Depois de uma pausa, o prefeito prosseguiu ao Diário: “É uma solução muito urgente para a nossa cidade, porque estamos diante da implantação de indústrias, não somente em Santo André, mas também em Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra etc., e todas estas indústrias escoarão sua produção pelo centro de nossa cidade”, afirmou Brandão.
Passadas mais de cinco décadas, a Avenida Perimetral é a rotina de vida para andreenses e moradores de cidades da região, como uma rota obrigatória, da casa para o trabalho, do trabalho para a casa, ao lazer, estudos e outros compromissos. Hoje, a via é um dos trajetos mais utilizados na região e, para muitos que a trafegam, não seria possível imaginar como seria Santo André e o Grande ABC sem a sua existência, apesar de um nascimento conturbado.
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Avenida Kennedy: antes local de acidentes, hoje lugar de lazer
A Avenida Presidente Kennedy, em São Caetano, transformou-se no epicentro de uma das maiores empreitadas de drenagem da cidade, destinada a sanar as históricas inundações no Córrego do Moinho, mas sua trajetória foi marcada por uma complexa sequência de eventos, do investimento maciço em infraestrutura a urgentes problemas de segurança, segundo acompanhamento do Diário.
Com as obras de tamponamento e ampliação da calha do Córrego do Moinho entregue em 1996, na Avenida Kennedy, importante via de ligação de São Caetano para Santo André, já era alvo de estudos em 1975. A pista era palco de muitos acidentes de veículos que se projetavam frequentemente no canal, obrigando a Prefeitura a planejar estruturas de proteção no percurso.
De acordo com reportagem do Diário em 21 de janeiro de 1976, dos 90 acidentes automobilísticos registrados no ano anterior pela 2º Companhia do 24º Batalhão da Polícia Militar, na Kennedy, a maioria teve como resultado queda no Córrego do Moinho, o qual dividia as pistas dos dois sentidos. Em outra publicação de julho do mesmo ano, o cenário relatado era de abandono e ameaça à segurança. Havia buracos, falta de sinalização e abuso de velocidade por parte de motoristas.
Em paralelo à crise de segurança, o projeto lidava com o desafio de sua expansão futura. A administração municipal planejava o prolongamento da Presidente Kennedy até a Avenida dos Estados, um plano complexo que exigia a travessia por debaixo dos trilhos de trem, mas essa etapa foi deixada de lado, devido ao longo trâmite burocrático.
Dessa forma, a história da Nova Kennedy evoluiu de um ambicioso projeto de engenharia urbana para um complexo quebra-cabeça de infraestrutura, segurança viária e burocracia, onde a luta para conter as enchentes se sobrepôs, momentaneamente, à necessidade de garantir a segurança de quem trafegava sobre a obra.
O que antes era um córrego aberto, agora está coberto, e dá vida a àrea de lazer, esporte e segurança à população.
A novela do Piscinão do Paço: crises, atrasos e entrega
O Piscinão do Paço de São Bernardo foi inaugurado em 2019 como a maior obra de drenagem urbana do País, mas sua história foi marcada por uma trajetória conturbada, repleta de demissões, abandono, impasses políticos e estouro de orçamento, conforme acompanhado pelo Diário.
Iniciado em dezembro de 2013, o reservatório de detenção no estacionamento do Paço Municipal era a principal plataforma do programa Drenar, da gestão do então prefeito Luiz Marinho (PT), com o objetivo ambicioso de pôr fim aos históricos problemas de enchentes na região central da cidade. O custo inicial projetado era de cerca de R$ 295,8 milhões, com grande parte dos recursos vindos do governo federal, via PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
A promessa de solução rápida para as enchentes logo se transformou em uma crise no canteiro de obras. Em janeiro de 2015, o Diário noticiou que a obra beirava o abandono. A construtora OAS - hoje conhecida como Grupo Metha -, que formava o Consórcio Centro Seco responsável pela execução, demitiu aproximadamente 200 funcionários.
A lentidão era notória, com máquinas paradas e poucos operários, em meio à falta de repasse de recursos da Prefeitura e aos problemas financeiros da empreiteira, que era investigada na Operação Lava Jato.
Em julho de 2016, Luiz Marinho admitiu que encerraria seu segundo mandato sem concluir a obra. O então prefeito culpou o governo paulista, então sob gestão de Geraldo Alckmin, ao não liberar um prometido repasse de R$ 50 milhões. Já o Estado rebateu, alegando “impedimentos legais do Paço junto ao Cadin” (Cadastro Informativo dos Créditos não Quitados de Órgãos e Entidades Estaduais).
Com previsão de conclusão ao fim de 2016, somente em agosto de 2019, o Piscinão do Paço foi entregue, no aniversário de 466 anos da cidade, pelo prefeito Orlando Morando. A estrutura tem capacidade para captar 220 milhões de litros de água. O investimento total alcançou R$ 353 milhões, superando em mais de R$ 57 milhões a estimativa inicial.
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