Edição 20.000 Em 2019, Grande ABC observou a saída da empresa norte-americana Ford, que afetou funcionários, comerciantes e moradores locais
Assembleia mostra magnitude de 2.800 funcionários FOTO: André Henriques 26/02/2019

Foi em 30 de outubro de 2019 quando o Diário soltou uma de suas capas mais emblemáticas da sua história, noticiando o encerramento da empresa automobilística Ford após 52 anos de exercício em São Bernardo. A edição 17.779 trouxe como destaque o logo da empresa com a palavra “Fim” e uma foto que representava de fato aquele momento: um dos funcionários demitidos em melancolia (veja a capa ao lado).
Esse é um dos exemplos da ampla cobertura do jornal sobre a situação econômica da região, trazendo luz desde os tempos áureos até o caminho inverso das fábricas.
Em 19 de fevereiro de 2019, a Ford anunciou a saída da empresa em São Bernardo, afetando cerca de 2.800 funcionários. O motivo seria o encerramento da linha de produção de caminhões na América Latina.
Até chegar o dia final em outubro, especulava-se que o Grupo Caoa iria assumir a planta. Diante de tantas incertezas, o Diário teve um papel fundamental para informar a população. Na edição do dia 20 de fevereiro de 2019, por exemplo, comerciantes ao redor da antiga fábrica falaram que ficaram sabendo da situação pela equipe do Diário.
A jornalista Yara Ferraz cobriu a época e relatou que os funcionários utilizavam as páginas do jornal como forma de desabafo. “ Foi bastante desafiador. Eu lembro que ouvi bastante deles, foi um desabafo mesmo, porque eles também não sabiam o que fazer naquele momento de ruptura para frente. Foi um fim de uma era para funcionários, comerciantes do entorno, moradores e para toda a região”, comentou a jornalista.
Ainda de acordo com Yara, o Diário foi o primeiro a chegar à porta da fábrica, logo após o anúncio. “A cobertura foi muito completa, com toda a equipe sempre fazendo o melhor para os leitores”, disse.
Meses após o fechamento da indústria, o jornal mostrou o lado dos funcionários, que tiveram que recorrer ao mercado informal para se sustentar.
“O lado dos personagens é algo que o Diário sempre nos encorajou a mostrar nas reportagens. Afinal, a história da região é contada por pessoas. O contato que eu fiz lá no começo, fez toda a diferença para acompanhar e contar a história desses trabalhadores. As matérias conseguiram mostrar a situação deixada pela saída da empresa”, completou Yara.
Entretanto, os desdobramentos não pararam por aí. A gigante planta de mais de um milhão de metros quadrados, no bairro Pauliceia ainda estava sem uso, mesmo após quatro anos de fechamento.
Imagens aéreas feitas pela equipe mostraram o destino cruel deixado por um dos símbolos da indústria automotiva do Grande ABC. Os icônicos caminhões e carros produzidos pela montadora foram substituídos por pilhas de entulho.
Recentemente, o uso do local voltou a ganhar destaque após o Governo do Estado de São Paulo desapropriar o terreno que irá abrir as futuras construções da Linha 20-Rosa do Metrô.
Para o professor de economia da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) e coordenador do Observatório de políticas públicas, Jefferson José da Conceição, o jornal trabalhou como uma das forças sociais durante o caminho das indústrias. “O Diário tem um papel muito importante. Simbolizou uma etapa gloriosa da nossa industrialização e promoveu toda discussão de desafios colocados. Essa graxa automotiva que o Diário traz com muito conhecimento e agilidade contribuiu para a reação da região”, comentou o professor.
Apesar da situação, Conceição ainda acredita na força da região como polo industrial. “O processo de desconstrução industrial é relativamente normal. Em outras regiões há o processo de industrialização igual tivemos na década de 1960 e 1970. Vejo que o Grande ABC vem buscando discutir a nova motorização de veículos. Sou otimista que há um novo cenário”, disse.
Em 5 de abril de 2022, mais uma grande montadora anunciava a saída de São Bernardo, após seis décadas na região. Dessa vez, a gigante japonesa Toyota, que moveu sua fabricação do bairro Planalto para o interior de São Paulo, nas cidade de Indaiatuba, Sorocaba e Porto Feliz.
Sendo considerado o berço do ramo de automóveis, o Grande ABC observou dois de seus símbolos irem embora em três anos. E neste sentido, o Diário estava lá, sendo um dos olhos da população.
O editorial do dia seguinte ao anúncio da saída trouxe duras críticas à administração municipal vigente à época, do ex-prefeito e atual Secretário Municipal de Segurança Urbana de São Paulo, Orlando Morando (à época PSDB e hoje sem partido).
“Não basta ao chefe do Executivo lamentar cada uma das indústrias que divulga o encerramento de suas atividades em São Bernardo. É preciso trabalhar. Não com ações histriônicas, mas com a apresentação de ideias práticas. De que adianta o prefeito dizer que vai agora procurar o presidente da Toyota para tentar reverter a decisão? Deveria ter dialogado antes. Qual a dificuldade para conversar com Rafael Chang? O Diário falou com ele ontem, infelizmente para repercutir a saída de outra empresa do Grande ABC”, criticou o Diário.
A decisão da montadora afetou 550 funcionários. Como foi a primeira fábrica da empresa fora do Brasil em 1962, a saída da Toyota foi outro baque para os moradores.
Como forma de protestar contra a saída, os movimentos de paralisação da fábrica tiveram o apoio até mesmo dos familiares dos colaboradores.
Na época, os trabalhadores tiveram a opção de mudarem para as fábricas de Indaiatuba, Sorocaba e Porto Feliz. Cerca de 120 aceitaram a mudança, já o restante foi desligado.
Antes do encerramento por completo, a empresa japonesa deixou seu último legado. Um investimento de R$ 5,5 milhões foi deixado para a Santa Casa de Misericórdia da cidade são-bernardenese.
Após um ano e sete meses, no dia 17 de novembro a Toyota encerrou de vez suas atividades em São Bernardo.
A Mangels especializada em montagem de rodas para automóveies, tinha saído três anos antes neste caso para o interior de Minas Gerais.
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