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Meio ambiente, mobilidade e saúde: as campanhas do ‘Diário’

Em quase sete décadas, jornal assumiu papel ativo na cobrança de políticas públicas, mobilizou a região e acompanhou transformações decisivas

Gabriel Gadelha
Especial para o Diário
28/11/2025 | 09:35
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FOTO: Celso Luiz/DGABC
FOTO: Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Ao longo de 20.000 edições, o Diário consolidou um papel que vai além da cobertura factual. Em diferentes momentos da história da região, o jornal assumiu campanhas públicas que ajudaram a pautar políticas, mobilizar moradores e pressionar autoridades. Meio ambiente, mobilidade, infraestrutura urbana e saúde foram temas que, mais do que manchetes, se tornaram compromissos editoriais.

Entre dezenas de iniciativas, cinco campanhas marcaram profundamente a trajetória do Diário, a saúde mental, a chegada do Metrô, os problemas e desafios da Avenida dos Estados, o resgate da Represa Billings e a doação de sangue sem preconceitos.

A campanha de saúde Nossa Saúde Mental, mais atual dos projetos, foi iniciada em 13 de abril de 2024, e surgiu de um diagnóstico claro que a região vivia um colapso silencioso. A reportagem que deu início à mobilização, ‘Sem saúde mental: moradores sofrem com falta de tratamento’, revelou a realidade dura de quem enfrentava meses, às vezes anos, de espera para conseguir atendimento adequado. 

No dia seguinte, o Diário fez o que sempre marcou suas campanhas e não se limitou à denúncia. Levou o debate às ruas, ouviu moradores e apresentou uma proposta concreta, a criação de um hospital público de saúde mental no Grande ABC. 

A partir dali, o tema permeou todas as editorias. Da vida escolar à economia, do esporte à política, o jornal mostrou que a saúde mental é um eixo transversal da sociedade. A campanha também ajudou a traduzir questões nacionais para o cenário local. Em outubro de 2025, o jornal revelou que, segundo relatório global da Ipsos Health Service Report 2025 (Relatório sobre os Serviços de Saúde 2025), a saúde mental já superava o câncer como maior preocupação dos brasileiros.

A última matéria sobre o tema, de 22 de novembro deste ano, reforçou a dimensão do desafio ao mostrar que, nas redes municipais das sete cidades, há em média apenas um professor especializado para cada 16 alunos autistas, uma estrutura considerada insuficiente por educadores e famílias.

MOBILIDADE

Se existe um tema que sintetiza a persistência histórica do Diário, é o Metrô. Em 27 de setembro de 1975, a manchete ‘Dentro de 3 anos Grande ABC ganha a linha do Metrô’ inaugurou uma promessa que atravessaria gerações sem se concretizar. À época, o então governador Paulo Egydio Martins (1928-2021) anunciava a expansão da Linha 1-Azul e afirmava que os trilhos chegariam à região até 1978, seja pela Estação Jabaquara, seja pela adaptação do leito ferroviário Santos–Jundiaí. Nada aconteceu.

Porém, durante mais de quatro décadas, o jornal acompanhou cada anúncio, cada estudo, cada recuo e cada promessa renovada. Em 2018, o jornal voltou a escancarar o esvaziamento do projeto ao revelar que o governo estadual havia reservado apenas R$ 40 no Orçamento de 2019 para a Linha 18-Bronze, projeto concebido para ligar a Capital a São Bernardo, passando por Santo André e São Caetano. Parlamentares da região admitiam que o sonho do Metrô nunca esteve tão distante.

Foi diante desse cenário que, em março de 2019 foi lançada uma campanha pública em defesa da Linha 18. A mobilização gerou algo raríssimo no Grande ABC: a união de setores que nem sempre dialogam entre si. Lideranças religiosas, sindicatos, indústrias, comércio, especialistas em mobilidade, entidades como OAB (Ordem dos Advogados) e associações de engenharia, além de prefeitos e presidentes de câmaras municipais, aderiram à campanha. Todos destacavam o impacto estratégico que o Metrô teria para 2,7 milhões de moradores da região.

A pressão foi intensa, mas o desfecho, conhecido. Em julho de 2020, o governo do Estado extinguiu oficialmente a PPP(Parceria Público-Privada) da Linha 18-Bronze ao classificá-la como risco fiscal na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias). Era o fim da principal chance concreta de integração do Grande ABC ao sistema metroviário por trilhos, e a confirmação de uma frustração que o Diário registra, cobra e acompanha desde 1975.

AVENIDA DOS ESTADOS

A relação do Diário com a Avenida dos Estados é uma das mais longas da história do jornal. Desde os anos 1990, a redação denunciou buracos, enchentes, erosão, pavimentação precária e obras atrasadas na principal ligação entre Santo André, São Caetano, Mauá e Capital.

O movimento ganhou força em 1999, quando reportagens mostraram que três cruzamentos da via concentravam quase 20% dos acidentes registrados dois anos antes. Nos anos seguintes, o jornal percorreu a avenida em sucessivas séries de denúncias. 

Essa persistência atravessou décadas. Dos anos 2000 a 2017, o Diário registrou remendos malfeitos, falta de sinalização, vegetação alta, erosão e abandono generalizado. A capa histórica ‘Ninguém aguenta mais a Av. dos Estados’, de 1996, tornou-se símbolo de um problema crônico.

O ciclo começou a mudar quando o poder público decidiu agir. Em 18 de maio de 2023, o prefeito Paulo Serra (PSDB) e governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) entregaram a revitalização completa dos 17 quilômetros do trecho andreense, com recapeamento, drenagem, paisagismo e nova iluminação. 

Na ocasião, Paulo Serra reconheceu publicamente o papel decisivo do Diário na pressão por melhorias.

Do idealismo à lei assinada para proteção da Billings

A campanha Salve a Billings! nasceu no Diário em 4 de março de 2007, impulsionada pela constatação de que o maior reservatório da região chegava aos 82 anos em processo avançado de degradação. Naquele dia, o jornal publicou a primeira reportagem da série, intitulada ‘Aos 82 anos, Billings pede socorro’. 

O texto lembrava que a represa, inaugurada em 1927, já havia sido limpa e abundante, mas se tornara vítima de décadas de omissão do poder público, com investimentos mínimos para sua recuperação. O Diário propunha, então, uma campanha permanente de despoluição e recuperação ambiental, acompanhada de um abaixo-assinado da população a ser entregue ao governo do Estado no dia do aniversário da represa, em 27 de março.

Para aproximar os leitores da causa, o jornal apresentou o mascote Billy, personagem criado para simbolizar a luta contra a poluição. Segundo a descrição da época: “O Billy é o mascote do Diário na campanha contra a poluição da represa Billings. Desde pequeno, ele nada entre pneus, garrafas e muito esgoto, despejados diariamente nas águas da represa.” A campanha convidava moradores de todo o Grande ABC a recortar o formulário publicado até 26 de março, colher assinaturas em escolas, comércios e bairros e, e entregá-lo na sede do jornal, na rua Catequese, em Santo André. O documento também estava disponível para impressão no site do Diário. Todo o material seria encaminhado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente no dia 27.

Nos dias seguintes, o jornal intensificou a cobertura, e em 9 de março de 2007, uma das reportagens trouxe à luz a grande quantidade de ocupações irregulares no entorno da represa. O Diário mostrou que havia cerca de 9.500 ligações clandestinas de energia elétrica e ausência quase total de saneamento básico e coleta de esgoto nas áreas ocupadas. Essas matérias ampliaram o debate público e pressionaram autoridades municipais e estaduais sobre a urgência de políticas efetivas para frear a degradação ambiental.

Ao longo de 2007, 2008 e 2009, o jornal manteve uma cobertura contínua do tema, denunciando despejo irregular de resíduos, falhas de fiscalização, expansão desordenada do território e riscos diretos ao manancial mais importante da região. A campanha também ganhou espaço político ao cobrar prefeitos das sete cidades para apoiar uma legislação específica que regulamentasse a ocupação e a proteção da Billings.

Dois anos depois do lançamento da campanha, o tema finalmente avançou na esfera estadual. Em 4 de junho de 2009, a Alesp (Assembleia Legislativado Estado de São Paulo) aprovou por unanimidade o texto da Lei Específica da Billings, que estabelecia diretrizes para preservação, patrulhamento aquático, fiscalização ambiental e ordenamento territorial na área da represa. O projeto exigia que cidades como Santo André, São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra adaptassem seus planos diretores às novas regras e regulamentassem o uso do solo, incluindo processos de regularização fundiária.

A legislação foi sancionada em 13 de julho de 2009 pelo governador José Serra (PSDB), sob o número 13.579, e criou oficialmente a Área de Proteção e Recuperação dos Mananciais da Bacia Hidrográfica do Reservatório Billings. O artigo terceiro da lei detalha os objetivos de preservação do manancial, com foco no tratamento de esgoto, no controle da ocupação das margens e na promoção do desenvolvimento sustentável.

A luta pela doação de sangue sem discriminação

Desde maio de 2020, pessoas homossexuais e bissexuais podem doar sangue no Brasil sem restrições baseadas em orientação sexual. Mas esse avanço, hoje encarado como óbvio e alinhado à ciência, não foi simples. O Diário teve papel ativo nessa transformação, ao denunciar, investigar e pressionar por mudanças em práticas discriminatórias que persistiram por anos nos hemocentros do País.

A campanha do jornal começou em 2011, quando uma equipe de seis jornalistas percorreu postos de coleta da Colsan em Santo André, São Bernardo e São Caetano. Três deles se apresentaram como homossexuais e três como heterossexuais. Apenas os que disseram ser gays foram barrados, alguns na recepção, outros na entrevista inicial. À época, normas do Ministério da Saúde e da Anvisa impediam homens que fazem sexo com homens de doar sangue por 12 meses após qualquer relação sexual, mesmo com parceiro fixo e uso de preservativo.

As reportagens flagraram constrangimentos, risos, falta de orientação técnica e falas discriminatórias, como a de um médico que comparou ser gay a usar maconha.

Especialistas, ativistas e representantes da OAB (Ordem dos advogados do Brasil) ouvidos pelo jornal classificaram as regras como preconceituosas, sem base científica atual e violadoras de direitos fundamentais.

Cinco anos depois, em 2016, o Diário voltou aos mesmos postos e registrou uma pequena flexibilização, alguns hemocentros passaram a permitir a doação após entrevistas mais detalhadas, mesmo que o doador fosse gay. A mudança ainda era limitada, mas indicava que o debate, impulsionado por anos de cobertura, começava a ganhar força.

A virada ocorreu em 2020, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) derrubou definitivamente as restrições. O entendimento é que critérios de triagem devem se basear em comportamentos individuais de risco, e não em orientação sexual. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) revogou as normas discriminatórias e unificou as diretrizes.

Em 2021, o jornal registrou o resultado da conquista ao acompanhar a doação de de um jovem bissexual da região, que descreveu o momento como “quebra de um tabu.”




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