Edição 20.000 Ao longo de sua trajetória, jornal foi palco para denunciar desigualdades e dar visibilidade às dificuldades enfrentadas por pessoas vulneráveis
Após matéria do ''Diário'', Queirós volta para sua cidade FOTO: Celso Luiz 29/12/2020

Como propagador de fatos, um veículo de comunicação tem o poder (e o dever) de mostrar de todos os pontos de vista. Ainda mais quando determinada parte da população se torna “invisível” no olhar do poder público ou até mesmo pela sociedade.
Nessas quase sete décadas de história, o Diário lutou pela visibilidade de pessoas oprimidas e caladas pelo preconceito, falta de oportunidades e repreensão de órgãos.
Casos bem marcantes são as inúmeras matérias sobre a realidade do PMRR (Projeto Meninos e Meninas de Rua), de São Bernardo.
Criada em 1983, a entidade luta pelos direitos de crianças e adolescentes da cidade. Direitos esses que são básicos, mas que muitas vezes o poder público não executa de maneira abrangente, como acesso à educação, cultura e perspectiva de vida.
Em 2023, por exemplo, a luta do PMRR ficou marcada pelos embates com o ex-prefeito são-bernardense e atual secretário municipal de Segurança Urbana de São Paulo, Orlando Morando (à época PSDB e hoje sem partido)
Foi em 2018 que a administração do Paço retirou a permissão do uso de imóvel na Rua Jurubatuba, 1610, local utilizado há mais de 30 anos pela instituição. Cinco anos se passaram, o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) concedeu liminar favorável ao despejo.
Neste contexto, o Diário mostrou os acontecimentos e gerou visibilidade ao projeto, que atua pela inclusão de jovens em vulnerabilidade. Com muita resistência o PMRR continou no mesmo endereço.
“Foi uma decisão unilateral do Orlando. Uma perseguição política e de especulação imobiliária para com viés de preconceito,” disse o coordenador do PMRR, Marco Antônio da Silva, o Markinhos.
De acordo com ele, o Diário é um marco na história do projeto. “Acompanha desde as primeiras manifestações de rua, sempre deu a cobertura e fez papel do jornalismo de amplificar as atividades. Cumpre com a identidade do Grande ABC, trazendo a ampliação das vozes de grupos mais vulneráveis”, disse.
Ainda segundo Markinhos, o veículo de comunicação tem a função de humanizar e tirar a invisibilidade de pessoas, que nestes casos são jovens. “As redes sociais têm um papel muito duro de reforçar o preconceito e a discriminação. O Diário faz esse contraponto na região. uma humanização”, completou.
Além dessa história, o Diário fez uma extensa reportagem em 2020 sobre a vida de pessoas em situação de rua.
Ao mostrar toda a realidade vivida, a reportagem encontrou um homem chamado Adaumirton Maravilha de Queirós, na época com 26 anos. Nascido na Paraíba, o morador do entorno da Igreja Santa Filomena, no Centro, desembarcou em São Bernardo na busca de uma condição de vida melhor, após ser traído pela ex-companheira.
Entre as páginas do jornal, Queirós contou sua luta para arrumar um emprego, passando por trabalhos temporários, intitulados bicos.
Contudo, o morador ainda cultivava a esperança de retornar a sua terra natal e conviver com seus dois filhos, frutos do seu antigo casamento. Foi por meio da reportagem, que residentes dos bairros próximos a Igreja Santa Filomena conheceram a história do paraibano.
Após a exposição, um morador ajudou com o custo de R$ 591 para a passagem. Desse modo, Queirós partiu para sua cidade natal Bonito de Santa Fé, no dia 5 de janeiro de 2021.
O professor de jornalismo da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Luciano Cruz, reforçou que o veículo de comunicação deve prestar serviços à comunidade e exaltou a resistência do Diário em continuar com a credibilidade das folhas vivas. “Trata-se de um papel fundamental. Em um momento em que a área vem passando por tantas transformações, reportagens como essa que o jornalismo deve dar voz aos menos favorecidos, colocar lupa nos problemas e desafios de nosso tempo para encontrar soluções”, ressaltou o docente.
De muitos acontecimentos, o Diário sempre lutou por mostrar assuntos marginalizados na sociedade. Com muitos empecilhos pelo caminho, a série de reportagens ‘Vício Regional’ de 2023 foi para as páginas trazendo visibilidade a um problema sério de segurança, saúde e assistência pública: pontos de consumos de drogas, mais conhecidos como minicracolândias do Grande ABC.
Na primeira reportagem, de 9 de julho de 2023, foi mostrada a dura realidade de pessoas que faziam de tudo para adquirir uma pedra de crack. Passando dias sem comer, tomar banho e até mesmo dormir, os dependentes químicos recolhiam materiais recicláveis e até mesmo faziam o transporte de drogas para outras pessoas com o objetivo de alimentar o vício.
Além de mostrar o triste lado dos usuários, a matéria teve como objetivo dar vozes aos moradores nos arredores dos locais que sofriam com a falta de sensação de segurança.
O Diário mapeou alguns pontos de aglomeração de consumo de drogas pela região, sem as mesmas proporções da cracolândia da Capital, mas com problemas semelhantes.
Um deles localizado na estação Utinga, entre Santo André e São Caetano, na linha 10-Turquesa da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Em imagens compiladas pela equipe, o consumo de entorpecentes era possível ser visto em plena luz do dia.
Em 67 anos de história e 20.000 edições, o Diário percorreu as sete cidades para iluminar questões problemáticas e caminhou pela ampliação de vozes caladas.
“É um claro exemplo dessa atuação: não dá ‘views’; não rende ‘publi’, não gera aquela imagem bem acabada para a ‘thumb’. Cabe ao jornalismo profissional chamar atenção para essa situação degradante, buscando transformar a realidade social. Não é fácil, não é cômodo; não é glamoroso. É Jornalismo!”, completou o professor Luciano Cruz.
Além de histórias de personagens, o Diário tem o papel de esclarecer determinadas situações, a fim de proteger e orientar a população do Grande ABC.
O caso mais recente foi da crise do metanol, no qual a região ganhou destaque em nível nacional. Um exemplo noticiado foi a morte da moradora do Grande ABC, Bruna Araújo de Souza, 30 anos, vítima de intoxicação por metanol.
Diante desse cenário que deixou os moradores incertos, o Diário expôs o caminho e ciclo do metanol envolvendo a região.
Em setembro e outubro de 2025, três bares de São Bernardo foram interditados, com suspeita de bebidas adulteradas. Foram Boteco da Villa, Villa Jardim e Adega do Braga.
Com intuito de desvendar todos os desfechos da condição sanitária, a Câmara Municipal são-bernardense instarou uma comissão, liderada pelo vereador Julinho Fuzari (Cidadania), para apuração
No decorrer, o Diário também mostrou que as bebidas com metanol saíram de um fábrica clandestina do município. Segundo a Polícia Civil, a responsável pelo local, Vanessa Maria da Silva, foi presa em flagrante durante as operações.
Os postos de gasolinas da região foram fiscalizados. Um deles na Avenida João Firmino, no bairro Assunção, em São Bernardo foi lacrado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Umas das justificativas era de comercializar etanol hidratado fora de especificação quanto ao teor de metanol. A suspeita era que o local vendia o produto para a fábrica clandestina.
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