Edição 20.000 Ataques deixaram 564 mortos e rastro de insegurança com ônibus queimados e rebeliões em cadeias
Homem observa ônibus consumido pelas chamas no terminal Eldorado, em Diadema, durante ataques do PCC em maio de 2006 (FOTO: Orlando Filho 15/5/06)

Ônibus queimados, agências bancárias destruídas, rebeliões em 74 penitenciárias paulistas, 564 mortos e um rastro de insegurança que expôs as falhas da segurança pública, principalmente em São Paulo. Todas essas lembranças têm como ponto de partida o dia 12 de maio de 2006, sexta-feira, às vésperas do Dia das Mães. A data que ficou marcada como o início dos atos de violência orquestrados pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) em retaliação às transferências repentinas no sistema carcerário do Estado que aconteceram na época.
Dias antes da ofensiva, a polícia e a Secretaria de Estado da Administração Penitenciária isolaram mais de dez líderes do PCC na sede do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), em São Paulo. Entre eles, Júlio Cesar Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, detido no CDP (Centro de Detenção Provisória) andreense. Logo na primeira ação do grupo criminoso, o Grande ABC já foi alvo de retaliação. O 2º DP (Distrito Policial) de Santo André, no bairro Camilópolis, foi alvejado por quatro homens que estavam em uma Parati branca. Cinco pessoas morreram na Capital, sendo três policiais civis, um Policial Militar e um guarda civil metropolitano. A reportagem do Diário na época destacou que, desde o momento que as ofensivas começaram na Zona Leste, todas as delegacias da região receberam a determinação de ‘bloquear as vias em frente aos DPs e os agentes do expediente foram chamados de volta’. Ao menos três unidades receberam ameaças de que seriam ‘baleadas e metralhadas’.
No dia seguinte, um sábado, o número já havia subido para 30 mortos, sendo uma vítima em Santo André. O cortejo fúnebre do soldado Anderson Andrade, 26 anos, estampou as páginas do jornal, que ressaltou, que, na ocasião, o governo estadual minimizou a crise e a série de atentados às forças de segurança.
Os crimes se espalharam para Diadema, onde 11 pessoas foram feitas reféns no CDP da cidade. O então governador Claudio Lembo (1934-2025 disse que estava gerenciando a situação “da melhor forma” e que “os policiais foram mortos por traidores e covardes”. No terceiro dia de conflitos, quatro ônibus foram queimados em Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema. A rebelião já tinha se estendido por prisões do Mato Grosso do Sul e Paraná e as Forças Armadas foram enviadas para para controlar a situação.
Enquanto autoridades policiais pediam que a população “confiasse mais” nos agentes de segurança, o Diário mostrava como o medo havia se alastrado pelo Grande ABC, com comerciantes fechando as portas dos estabelecimentos antes mesmo das 12h, postos de saúde sem funcionar, ônibus sendo recolhidos em garagens de São Bernardo às 20h, além de escolas particulares e faculdades suspendendo aulas.
Fotógrafo viveu de perto risco dos atentados e tensão nas comunidades
Nos dias seguintes ao início dos ataques, a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), tropa de elite da polícia paulista, continuou à caça dos autores dos atentados. No dia 17 de maio, um dos líderes do PCC Evandro Carlos de Oliveira, 29 anos, o Zóio, foi preso no Jardim Zaíra, em Mauá.
Aos policiais, ele admitiu integrar a facção, mas negou que liderava as operações na cidade. Condenado por assalto e dois homicídios, ele estava foragido desde outubro de 2005, após escapar do presídio de Itapira 2, no interior.
Nas semanas seguintes, o Diário mostrou que moradores de favelas eram obrigados a se trancar em casa após as 19h, em toque de recolher do tráfico. O terror dominava o Sítio dos Vianas e o Núcleo Tamarutaca (Santo André), o Jardim Farina e o Montanhão (São Bernardo) e o Morro do Samba (Diadema).
Em uma das reportagens, o fotógrafo André Henriques flagrou o momento que a polícia fazia operação na favela Santa Cruz, em Diadema, onde as pessoas diziam se sentir “entregues à própria sorte”.
Henriques, que trabalha no Diário há 25 anos, lembra detalhes da tensa cobertura. “Nas ruas, só rodava quem era policial. A polícia fazia varredura em veículos para impedir novos ataques. Conseguimos circular porque o carro tinha identificação do jornal. Ninguém saia de casa”, recorda.
Neste período, ele estendeu os horários do expediente para acompanhar operações na madrugada. “A Rota ia para determinado lugar e nós íamos atrás. Rodamos todo o Grande ABC porque as fontes nos passavam as localizações.”
Apesar do risco, Henriques celebra com orgulho a capacidade do Diário de mostrar à população, isolada, o que acontecia. “Era perigoso, mas está no sangue o ímpeto de contar histórias. Você só pede proteção e vai, mesmo que seja para o olho do furacão. Nossa arma é a lente da câmera.”
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Em 2002, sequestro e assassinato de Celso Daniel chocam o Brasil
Em janeiro de 2002, o sequestro e morte do então prefeito de Santo André Celso Daniel, do PT (Partido dos Trabalhadores), aos 50 anos, chocaram o Grande ABC e o País. Segundo as investigações, o prefeito foi raptado no dia 18, na Vila das Mercês, Zona Sul da Capital, enquanto retornava de um jantar com o empresário Sérgio Gomes da Silva. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte, em Juquitiba, a 115 quilômetros da cidade andreense, com sete tiros.
O político estava no terceiro mandato (1989 a 1992, 1997 a 2000 e 2001), foi fundador do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, e deputado federal entre 1994 e 1996. Em edição extra sobre o sequestro, no dia 19, o Diário mostrou que ele foi levado por oito homens, usando três carros.
Lideranças do PT, como o vice-prefeito João Avamileno, o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, atual ministro do Trabalho, e o ex-presidente de honra do PT e atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, apelaram aos sequestradores para que as negociações começassem.
Após a notificação do caso, o então governador, Geraldo Alckmin (PSDB), se reuniu com aliados para tentar traçar estratégias para um resgate, com a Polícia Federal entrando nas investigações.
O jornal dedicou páginas para destacar a atuação pública dele na região, a incidência de sequestros, a preocupação de lideranças com as possíveis motivações políticas e a vigília que foi feita durante toda a madrugada no gabinete do prefeito, no Paço de Santo André. Segundo depoimento de Gomes, “os sequestradores riam alto e davam tiros a esmo”.
O Diário destacou a repercussão internacional do caso com o jornal norte-americano The New York Times apontando que Celso Daniel “poderia ter sido alvo por razões políticas, mas, de acordo com a polícia, o crime não era considerado sequestro porque os raptores não haviam feito contato”.
O jornal destacou ainda que essas ocorrências tinham crescido quatro vezes em São Paulo em relação ao ano anterior.
A busca pelo possível cativeiro envolveu 1.250 policiais. No dia seguinte, outra edição extra do Diário circulou pelas bancas, mas dessa vez com a palavra ‘assassinado’ em destaque. O repórter Glauco Araújo foi o enviado especial a Juquitiba e registrou que o cadáver do então prefeito foi encontrado pelo caseiro de uma chácara no meio de uma estrada de terra a cerca de 150 metros da rodovia Régis Bittencourt (altura do km 328,5).
Moradores ouviram barulhos de tiro e, logo em seguida, estrondos de rojões, que poderiam indicar “uma possível comemoração ou sinalização que haviam terminado o serviço – o que levantaria a hipótese de morte encomendada”.
Um ato ecumênico foi realizado no Paço de Santo André, no dia 19, com 8.000 pessoas, com políticos, membros da sociedade civil e religiosos.
Alckmin anunciou recompensa de R$ 50 mil para quem fornecesse informações do caso, enquanto o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso (PSDB) cobrava uma resposta “coordenada e eficaz” da polícia. “O nível de vandalismo, de violência e dos crimes não é admissível. Isso nos escandalizou. Não era do meu partido, mas tinha capacidade de negociação e servia de referência positiva a outros políticos”, afirmou FHC à época.
Ao assumir a Prefeitura, Avamileno destacou que tinha providenciado um colete à prova de balas e estava pronto para exigir justiça e punição.
No dia 22 de janeiro, a capa do Diário registrou que 100 mil pessoas participaram do cortejo do corpo de Celso Daniel da Prefeitura ao Cemitério da Saudade, na Vila Assunção, em Santo André. Pedidos de justiça e paz no Grande ABC marcaram o ato.
Após uma longa investigação, a Polícia Civil concluiu que Daniel foi vítima de crime comum, sem motivação política. A cobertura do Diário sobre o assassinato envolveu 58 jornalistas, entre editores, repórteres, fotógrafos, diagramadores e infografistas. As reportagens do cortejo somaram 70 profissionais.
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