Edição 20.000 Imagens dos 111 corpos de detentos correram o mundo; de acordo com pesquisadores, evento foi o embrião para a criação do PCC
FOTO: Itamar Miranda/Estadão Conteúdo 4/10/92

Em 15 de maio de 2006, durante os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital), o Diário noticiou que boatos de que presos haviam escapado do Cadeião da Palmares fizeram com que o principal centro comercial de Santo André, o calçadão da Oliveira Lima, ficasse completamente vazio em plena segunda-feira.
Em meio à tensão daqueles dias, o carcereiro Elias Pereira Dantas, do CDP (Centro de Detenção Provisória) de Santo André, foi morto ao ir visitar um bar na Vila Califórnia, na Capital, em um dia de folga.
No mesmo período, o PCC determinou o fim das rebeliões em presídios e a suspensão de atentados após negociação de policiais com o líder da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.
Se em 2006, o País conheceu o poder do ‘Partido do Crime’, para muitos pesquisadores sobre o tema, o embrião da facção foi concebido 14 anos antes. Em 4 de outubro de 1992, o Diário estampava em sua capa o ‘massacre do Carandiru’, quando, no dia 2 daquele mês, 111 presos foram mortos pela Polícia Militar durante repressão a um motim na Casa de Detenção, localizada no bairro do Carandiru, na Zona Norte da Capital.
O PCC nasceu dentro da Casa de Custódia de Taubaté, no interior do Estado, durante um campeonato de futebol interno em 1993, mas o principal gatilho ‘simbólico, emocional e político’ para sua criação teria ocorrido no ano anterior.
Muitos dos homens em Taubaté haviam passado pelo Carandiru ou conviviam com quem viveu o massacre. Nesse contexto, a memória do 111 mortos se transformou em símbolo de resistência nas prisões.
Para muitos detentos, o episódio revelou que a única proteção possível viria da união entre eles, não das autoridades. Esse sentimento alimentou a ideia de “luta por justiça”, que mais tarde apareceria no discurso de fundação do PCC. Para compreender a facção, portanto, é preciso saber o que foi o massacre.
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Segundo a direção da Casa de Detenção, “um tumulto teve início após uma briga de quadrilhas no Pavilhão Nove, onde estavam amontoados 2.076 dos 7.200 presos do presídio. Ali ficavam detentos com altas penas a cumprir”, descreveu o jornal em suas páginas em 1992.
Os envolvidos incendiaram colchões e levantaram barricadas com barras de ferro, que só foram derrubadas por maçaricos dos bombeiros. Os leitores acompanharam histórias de parentes de vítimas da rebelião, que se depararam com corpos cobertos de hematomas e dilacerados por mordidas de cachorros e tiros. Os familiares relatavam “angústia da falta de notícias.
O coronel Ubiratan Guimarães (1943-2006) liderou a operação para apaziguar a rebelião. Em 2001, ele foi condenado a 632 anos de prisão pela morte de 102 dos 111 detentos. Porém, justamente em 2006, o comandante do massacre foi absolvido pelo TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo). Meses depois da decisão, Guimarães foi morto a tiros nos Jardins, bairro de alto padrão da Capital. O massacre foi imortalizado em Diário de um Detento, rap de sucesso dos Racionais, de 1997.
Os ataques do PCC e ofensivas dos policiais deixaram 564 mortos entre 12 e 21 de maio de 2006. Ao todo, foram 59 agentes públicos e 505 civis.
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