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Queda de voo da TAM faz Congonhas virar o inferno

Acidente de 2007 é até hoje o mais letal da aviação em solo nacional; 199 vítimas foram contabilizadas

Hayanne Marrie
Especial para o Diário
28/11/2025 | 07:50
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Hangar da TAM, nos arredores de Congonhas, após ter sido atingido pelo Airbus A320 da companhia; com 199 vítimas, acidente é o mais letal em solo brasileiro (FOTO: André Henriques 17/7/07)
Hangar da TAM, nos arredores de Congonhas, após ter sido atingido pelo Airbus A320 da companhia; com 199 vítimas, acidente é o mais letal em solo brasileiro (FOTO: André Henriques 17/7/07) Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


‘Tragédia no voo 3054’. Com essa manchete, a edição 13.292 do Diário, de 18 de julho de 2007, chegava às mãos de seus leitores, trazendo os detalhes daquele que permanece até hoje como o acidente mais letal com uma aeronave em solo nacional. A queda do Airbus A320 da TAM deixou um rastro de destruição e mortes que marcou a história da aviação brasileira. 

O avião que decolou do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, não conseguiu frear ao tocar a pista de Congonhas e colidiu contra um prédio da própria companhia na noite do dia 17. O jornal, em uma edição especial com oito páginas de cobertura, registrou o impacto, o trabalho das equipes de resgate e o sofrimento das famílias das vítimas.

Segundo informações coletadas pelo Diário na ocasião, o avião chegou a iniciar o pouso normalmente no aeroporto paulista. Porém, ao final da aterrissagem, a torre percebeu que a aeronave não conseguia desacelerar e abriu o som da cabine, que registrou as últimas palavras dos pilotos: “vira, vira, vira”.

O desastre mobilizou pelo menos 70 carros dos bombeiros e 25 ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), com mais de 200 profissionais envolvidos. Mesmo com a chegada rápida – cerca de 15 minutos após o impacto – todos a bordo morreram na hora. Inicialmente, o Diário registrou que, no mínimo, haviam 177 mortos e 15 feridos em decorrência do acidente. No decorrer dos dias de cobertura, quando mais vítimas foram confirmadas, o número foi atualizado para 199.

No caderno especial de cobertura, o jornal levantava uma pergunta: ‘Tragédia anunciada?’ Afinal, no dia anterior ao acidente da TAM, o Diário havia registrado que outra aeronave, da empresa Pantanal, havia derrapado na pista molhada de Congonhas.

DESESPERO

A colisão do avião da TAM com o prédio da companhia bloqueou as saídas da edificação, deixando funcionários sem opções de resgate, devido às chamas. O motorista Robson Caetano Silva foi um dos personagens ouvidos pela reportagem. Ele estava no prédio da TAM pouco antes do choque da aeronave. “Quando ouvimos o estrondo, a parede rachou e começou a cair, deixando o fogo entrar”, afirmou. O motorista conseguiu sair ileso do local e ainda levou, ao menos, sete feridos aos hospitais locais.

Em um ato desesperado de luta pela sobrevivência, alguns funcionários pularam do terceiro andar do prédio atingido. Porém, aqueles que estavam nos andares superiores não tiveram essa chance.

Naquele dia, Cristiano Miranda, funcionário do Samu, relatou ao Diário um dos episódios que marcou o início do atendimento às vítimas. Segundo ele, uma mulher se lançou do prédio em chamas pouco antes de sua chegada ao local. “Ela não estava machucada nem queimada, mas o desespero a fez se jogar. Provavelmente caiu de cabeça, porque havia sangue saindo pelos ouvidos. Ela morreu a caminho do hospital. Era muito jovem”, contou.

VÍTIMAS

As páginas da edição também registraram o caos que se espalhou pelos aeroportos de Porto Alegre e São Paulo. Familiares e amigos correram para os terminais, e no saguão de Congonhas houve princípio de tumulto diante de informações desencontradas da TAM. Funcionários se revezavam para atender famílias e organizar a lista de nomes dos passageiros.

Entre as primeiras vítimas confirmadas estava o deputado federal Júlio Redecker (PSDB) e o ex-presidente do Internacional, Paulo Rogério Amoretty. No entanto, o estado dos corpos dificultava a identificação. Aldo Galeano Júnior, então chefe do Departamento de Polícia Judiciária da Capital, afirmou que todos estavam irreconhecíveis. “Não dava para identificar nem o sexo”, disse.

Exames odontológicos foram realizados, e os corpos encaminhados ao IML, que montou um esquema especial para receber e organizar as vítimas.

LULA

Presidente na época do acidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou-se consternado e convocou ministros para um gabinete de crise, entre eles estavam Waldir Pires (Defesa), Walfrido dos Mares Guia (Relações Internacionais), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Franklin Martins (Comunicação Social). Um porta-voz da Presidência informou que a prioridade era prestar apoio às famílias das vítimas e coordenar ações emergenciais.

‘Diário’ detalhou os acidentes que marcaram o Brasil

Menos de um ano antes do acidente com o voo 3054 da TAM em Congonhas, a queda de um avião da Gol, no Sul do Pará, em setembro de 2006, dominou o noticiário. Nas páginas do Diário, o desaparecimento do Boeing 737-800 foi registrado no dia 30 daquele mês, quando ainda havia apenas incertezas e relatos fragmentados sobre o ocorrido. As primeiras informações indicavam que o avião sumira dos radares após colidir com um jato executivo Legacy, fabricado pela Embraer, durante um voo de Manaus para o Rio.

Enquanto o jatinho conseguiu pousar de emergência na Base Aérea da Serra do Cachimbo, descobriu-se depois que a aeronave comercial não resistira ao impacto em plena altitude de cruzeiro. Horas mais tarde, conforme noticiado pelo jornal, equipes militares localizaram destroços do Boeing em uma área de mata fechada, numa fazenda da região do Xingu, entre Pará e Mato Grosso. A aeronave havia se desintegrado no ar e despencado verticalmente, espalhando fragmentos por uma ampla extensão de floresta.

Apesar da violência da queda, a Infraero informou que não havia sinais de fogo ou explosão, reforçando a hipótese de ruptura estrutural após a colisão. Todos os 154 passageiros e tripulantes morreram. O Diário também registrou que o Boeing tinha apenas cerca de 200 horas de voo e era equipado com sistema anticolisão – informação que intensificou as dúvidas iniciais sobre as condições do choque com o Legacy e sobre possíveis falhas nos protocolos de vigilância.

Nos dias seguintes, as edições do jornal acompanharam o avanço lento das operações de busca, dificultadas pelo isolamento da área e pela fragmentação extrema dos restos da aeronave. As reportagens mostravam o desespero de familiares que aguardavam informações em aeroportos e centros de atendimento, revoltados com a lentidão na divulgação de dados oficiais. A demora na identificação das vítimas e o difícil acesso à região alimentaram protestos e pedidos por maior transparência no trabalho de resgate.

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OUTRAS TRAGÉDIAS

Ao longo de seis décadas, outros acidentes marcaram a história da aviação brasileira e foram registrados pelo Diário.

Em 1973, o Varig 820 enfrentou um incêndio a bordo durante o trajeto Rio–Paris. A fumaça tomou a cabine e forçou um pouso de emergência próximo ao Aeroporto de Orly, causando 123 mortes e acelerando normas internacionais sobre prevenção de incêndios e o uso de materiais menos inflamáveis nas aeronaves.

Já em junho de 1982, o voo Vasp 168 caiu na Serra da Aratanha, no Ceará, matando 137 pessoas após uma aproximação desorientada que evidenciou problemas de navegação e tomada de decisão em regiões montanhosas. O acidente mudou o treinamento de pilotos, o uso de instrumentos de precisão e os padrões de aproximação noturna.

O acidente do voo TAM 402, em outubro de 1996, permanece entre os mais traumáticos ocorridos em áreas urbanas no País. Como o Diário mostrou numa ampla cobertura, segundos após decolar de Congonhas rumo ao Rio, o Fokker-100 sofreu um travamento parcial do manete do motor direito, que manteve a potência em aceleração máxima. Incapaz de reduzir o impulso e estabilizar a aeronave, a tripulação perdeu o controle direcional enquanto o avião derivava para a direita sobre o bairro do Jabaquara. O impacto contra residências e veículos deixou 99 mortos, incluindo quatro pessoas no solo, e reacendeu discussões sobre as limitações operacionais do aeroporto, já pressionado por pistas curtas, entorno densamente urbanizado e histórico de operações críticas. O caso se tornou marco para revisões de manutenção, inspeções emergenciais e mudanças em procedimentos de decolagem.

A tragédia do Air France 447, que partiu do Rio rumo a Paris em junho de 2009, teve repercussão mundial. A queda no Atlântico, provocada por falhas nos sensores de velocidade e perda de controle em meio a tempestades tropicais, deixou 228 mortos e desencadeou uma das operações de busca mais complexas já realizadas. O acidente resultou em mudanças em treinamento, desenho de sensores e exigências de monitoramento de aeronaves em rotas oceânicas.

Mais recentemente, em agosto de 2024, o voo Voepass 2283 caiu em Vinhedo, no Interior paulista, matando 62 pessoas e levantando questionamentos sobre certificações, inspeções e práticas de segurança na aviação regional. Por ser um caso recente, ainda mobiliza investigações, debates sobre transparência e pedidos por outros aperfeiçoamentos regulatórios.




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