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‘Diário’ cunha e consolida conceito de regionalidade do Grande ABC

Expressão saiu pela primeira vez em 2 de julho de 1967, quase escondida, no rodapé de coluna de política do precursor ‘News Seller’

28/11/2025 | 00:50
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FOTO: Reprodução Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Criado em 1968, o Diário nasceu já engajado na defesa da autonomia regional. Nos primeiros anos de circulação, ainda sob o nome News Seller, o jornal acompanhou momentos decisivos da formação do território, como a emancipação de Diadema, em 1959, e de Rio Grande da Serra, em 1964, que completaram o conjunto das sete cidades que hoje compõem a região.

Foi nesse contexto que ocorreu um marco: a primeira aparição da expressão ‘Grande ABC’. Em 2 de julho de 1967, o termo surgiu discretamente no rodapé da coluna política do próprio jornal, quase escondido, em um texto que discutia a criação de áreas metropolitanas e mencionava o Grande ABC no contexto da então emergente Grande São Paulo. Apesar da timidez da menção, aquela pequena linha plantou a semente de uma identidade regional que, meses depois, ganharia força e projeção.

Com a criação do Diário, em 1968, o termo deixou de ser apenas uma expressão pontual para se tornar parte estruturante do discurso público. O jornal assumiu papel decisivo na padronização e difusão do nome Grande ABC, que passou a circular com regularidade em reportagens, editoriais e campanhas. Foi essa insistência editorial que fez a região deixar de ser percebida como um agrupamento de cidades vizinhas e se consolidar como um bloco articulado, com identidade própria e desafios comuns.

A partir dessa popularização promovida pelo Diário, o conceito de Grande ABC extrapolou o noticiário e foi incorporado por instituições públicas e privadas, dentre as quais o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, o Observatório de Políticas Educacionais do Grande ABC e o Lide Grande ABC, consolidando de vez a ideia de integração regional.

Esse protagonismo também se refletiu nas campanhas que o jornal encampou ao longo dos anos. Entre as mais emblemáticas estiveram a mobilização pela reforma universitária, fundamental para ampliar o acesso ao ensino superior na região, e a defesa da liberdade político-administrativa dos municípios do Grande ABC durante o período em que o regime militar decretou áreas de segurança nacional, ameaçando a autonomia municipal e o direito ao voto direto. Em todas essas frentes, o Diário atuou como articulador, fortalecendo a consciência coletiva de que os municípios da região dividiam causas e interesses comuns.

Ao mesmo tempo em que consolidava a identidade regional, o jornal enfrentava suas primeiras batalhas políticas. Em fevereiro de 1968, ainda como News Seller, combateu o projeto do regime militar que pretendia incluir o Grande ABC entre as áreas de segurança nacional, medida que retiraria de 230 municípios o direito a eleições diretas. A proposta ampliava o controle do governo sobre regiões estratégicas em um contexto de crescente repressão. Caso aprovada, prefeitos “biônicos” seriam nomeados pelo Executivo, com aval dos comandos militares.

O clima de endurecimento ficou evidente em 9 de maio de 1968, quando o recém-lançado Diário, já com seu nome definitivo, estampou sua primeira manchete: “Prisão de sacerdotes agita círculos católicos da região”. A matéria sinalizava o tom editorial que marcaria a trajetória do jornal.

Diadema e Rio Grande da Serra fortaleceram a identidade regional

A criação das cidades de Diadema, em 1959, e Rio Grande da Serra, em 1964, representou marcos decisivos na formação da identidade regional que mais tarde seria consolidada sob o nome Grande ABC. As duas emancipações encerraram um ciclo de reorganização territorial iniciado ainda na década de 1940 e completaram o conjunto das sete cidades que hoje formam a região.

Acompanhado de perto pelo então News Seller, o processo de emancipação ampliou o protagonismo político e administrativo desses territórios, que buscavam autonomia para responder às demandas específicas de suas populações, as quais se diferenciavam do restante dos distritos aos quais pertenciam. 

Em Diadema, a pressão por investimentos em infraestrutura urbana e políticas voltadas ao crescimento populacional acelerado reforçava a necessidade de autogestão. Até os anos 1940, Diadema era formada por quatro bairros de São Bernardo – Piraporinha, Eldorado, Taboão e Vila Conceição – isolados entre si por vias precárias e com dinâmicas próprias. 

Criada como distrito em 1948, a cidade passou a reivindicar autonomia diante do crescimento urbano, da industrialização no Grande ABC e do surgimento de novos loteamentos. Lideranças locais, como o professor Evandro Caiaffa Esquível, articularam o movimento emancipacionista, com apoio relevante da Vila Conceição e de figuras de projeção estadual, como o jurista Miguel Reale.

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O plebiscito pela emancipação ocorreu em 24 de dezembro de 1958, com participação de cerca de 300 eleitores. A vitória foi apertada: apenas 36 votos de diferença. Em 1959, realizaram-se as primeiras eleições municipais e, em 10 de janeiro de 1960, com a posse do prefeito, vice e vereadores, Diadema tornou-se oficialmente município.

Eleito vereador de São Bernardo em 1951, Evandro Caiaffa Esquível foi um dos principais defensores da emancipação de Diadema e foi o primeiro prefeito da cidade e voltou a se eleger para o cargo em 1968.

Já Rio Grande da Serra teve origem em 26 de maio de 1560 e foi a terceira aldeia construída pelos jesuítas. Com forte presença ambiental e características geográficas próprias, ao longo das décadas a cidade buscou defender interesses distintos, sobretudo no que dizia respeito ao uso do solo e à preservação de áreas naturais, que culminou com sua emancipação político-administrativa de Ribeirão Pires em 1964.

A consolidação dos dois municípios não apenas redefiniu a estrutura administrativa local, como deu novos contornos ao processo de integração regional. Com sete cidades constituídas, a noção de um território articulado passou a ganhar força e encontrou no Diário o instrumento que impulsionaria a adoção definitiva do termo Grande ABC.

Jornal é fonte de pesquisa sobre a região

O jornalista e pesquisador Roberto Nascimento Anastacio encontrou no acervo do News Seller e do Diário registros fundamentais para compreender os movimentos políticos e sociais que levaram à emancipação de Rio Grande da Serra, os quais embasam a pesquisa que dará origem a um texto inédito sobre a história da cidade. 

Entre as edições mais significativas, o pesquisador cita a de número 288, do News Seller, publicada em 17 de novembro de 1963. “Deu como manchete o plebiscito de emancipação que seria realizado no Distrito de Icatuaçu no dia 1º de dezembro daquele ano”, afirma. O pleito registrou 633 eleitores: 440 votos no “sim”, 166 no “não”, 17 nulos e 10 em branco.

Já como Diário, Nascimento destaca a edição de 14 de março de 1969, que revelou as dificuldades enfrentadas pelo município recém-emancipado devido à falta de recursos. Cita ainda o editorial de 3 de maio de 1973, no qual o jornal fez um balanço dos dez anos de autonomia com uma pergunta sobre qual futuro estaria destinado para Rio Grande da Serra, em virtude de seu baixo orçamento. “Essa questão da baixa arrecadação, como se vê, ainda é uma realidade marcante, mesmo depois de 60 anos de emancipação”, pontua.

O acesso às quase 20 mil edições do acervo permitiu ao pesquisador identificar detalhes pouco conhecidos da história local. “O conjunto das edições ajuda a formar uma fotografia bem pitoresca desse período”, diz Roberto. Entre esses episódios, cita as repetidas tentativas, nos anos 1970 e 1980, de anexar Paranapiacaba e Campo Grande ao território de Rio Grande da Serra como forma de absorver impostos da antiga Eletrocloro. “Foram muitas reportagens mostrando essa luta quixotesca em busca desses territórios”, recorda. 

Outro caso revelado foi o processo movido, entre 1975 e 1976, por uma mulher que reivindicava quase metade do território municipal sob alegação de herança: “Essa senhora viria a morrer e o processo acabaria encerrado sem nenhuma definição.”

A análise do jornal ao longo das décadas também mostrou mudanças na abordagem editorial. “Entre os anos 1960 e 1980, a cobertura focava os dramas vividos pelos moradores, em decorrência da falta de perspectiva de o município crescer”, explica. 

Com a redemocratização e a integração regional, segundo o pesquisador, o foco começou a incluir o planejamento e propostas para os anos seguintes, “mas sem uma cobrança mais efetiva, em grande parte pela urgência dos assuntos factuais do dia a dia”.

O jornalista avalia a influência da memória construída pelo jornal na identidade local. “Há espaço para envolver a população nesse debate de como a cidade chegou até aqui. O poder público pode estimular isso”, afirma. Destaca ainda o papel da coluna Memória, assinada por Ademir Medici há quase quatro décadas: “Ela nos serve de espaço privilegiado para contarmos nossas histórias e descobertas, os vários recortes que vão dando forma às nossas identidades.” 




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