Edição 20.000 Ademir Medici relembra parceria com Édison Motta, detalha método de trabalho que rendeu o Esso e avalia momento do jornalismo
FOTO: André Henriques/DGABC

Quase cinquenta anos depois de revelar ao País a transformação acelerada e desordenada do Grande ABC, o jornalista e historiador Ademir Medici revisita os bastidores da série que lhe garantiu o Prêmio Esso e redefiniu o papel do Diário no jornalismo investigativo. Medici recorda que tudo começou de forma simples, mas, ao mergulhar na memória local, ele e o colega Édison Motta (1953-2015) se depararam com algo muito maior – um processo de industrialização acelerado, sem planejamento, que impactava o ambiente, a urbanização e a vida.
A repercussão não veio apenas da ousadia de criticar grandes empresas, mas pela coragem de expor problemas que se tornariam decisivos para a criação de órgãos de controle ambiental. A cobertura rompeu o silêncio e despertou a atenção de outros grandes jornais, que passaram a repercutir e aprofundar os temas levantados pelo Diário. A partir daquela série, o jornal passou a investir de forma sistemática em reportagens especiais, fortalecendo equipes, revelando profissionais e ampliando a ambição editorial.
Como surgiu a ideia de fazer a pauta que rendeu o Prêmio Esso?
A gente, em 1976, começou a fazer uma série de reportagens sobre os bairros do Grande ABC. Lembro que, quando chegava o aniversário da cidade, era sempre: “João Ramalho fundou Santo André da Borda do Campo”. E, em uma reunião de pauta, falamos: “Mas o João Ramalho não conheceu o Parque das Nações, não conheceu a Vila Assunção, não conheceu a Vila Barcelona. Vamos fazer uma série sobre a história dos bairros”. E começamos, em 1976, a produzir essas matérias. Era um rodízio: eu faria uma semana, porque cada um tinha outra atividade, então não dava para fazer só isso. Eu acabei fazendo sozinho 98 reportagens. Mas, quando estava na quinta ou sexta reportagem da série, pensamos: “O Grande ABC é uma região agrícola. Uma região que, apesar das fábricas já existentes, mantinha o cinturão verde de São Paulo: plantações, aves, tudo isso. E como as indústrias vieram sem uma planificação?”. Então, quais são os impactos na Represa Billings? Quais são as causas do número exagerado de favelas? Assim surgiu a ideia. O Edson falou: “A metamorfose da industrialização, o que ela significou. Uma ocupação sem qualquer tipo de planejamento”. E fomos atrás para contar essa história.
O Sr. temeu algum tipo de interferência? Os prefeitos da época chegaram a questionar em algum momento?
Não dava para questionar. Quem questionou foi o pessoal mais tradicional. Um amigo importante foi o que mais se inconformou com aquela matéria. O nosso temor, meu e do Edson, era porque o Diário é um jornal capitalista, que vive dos anúncios. Aí o jornal começa a questionar a forma de industrialização da região, com anúncios inclusive dessas empresas. É só pegar o jornal: tínhamos direto anúncios de emprego e nos suplementos de aniversário. E fizemos a matéria com total liberdade.
E qual foi o impacto depois dessa reportagem? Tanto em relação ao status quanto em relação às empresas?
Silêncio mortal das empresas. Continuamos a carreira normalmente. Internamente, o jornal começou a investir em grandes reportagens especiais, em todas as áreas. No esporte, o jornal cobria o Campeonato Brasileiro direto. Foi um momento de investimento na reportagem, que gerou a revelação de grandes profissionais que hoje estão na imprensa. A Alzira Rodrigues, a primeira a entrevistar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo – hoje jornalista especializada em economia. O CICPAA (Comissão Intermunicipal de Controle da Poluição das Águas) nasceu para tentar barrar a poluição. Toda a tecnologia que o CICPAA levantou serviu de base para criar a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). Mas aconteceu um fato importante: um caso de poluição aqui no bairro Campestre, em Santo André, na época. Aquilo virou manchete e toda a imprensa veio atrás. O Estadão vinha direto. A imprensa descobriu o problema da poluição no Grande ABC, e foi o Diário que levantou essa bandeira. O jornal poderia simplesmente deixar para lá, porque estava desvalorizando um bairro nobre – ninguém mais comprava terreno, ninguém investia. Mas o jornal bancou e serviu de pauta para todos os grandes jornais, para o rádio e para a televisão. Foi importante. A gente avaliava que ganhamos o prêmio devido à questão da memória. Quando começamos a mostrar o que era cada pedaço da região antes do processo de industrialização. A coluna Memória mesmo nasceu dessas matérias dos bairros.
E sobre a parceria com Édison Motta?
A gente se dava muito bem. Éramos amigos, como irmãos. Quando ele estava com câncer, sentamos juntos lá no Hospital Brasil. Foi um choque muito grande e fomos juntos até o final. Nós dois confiávamos muito um no outro. Ele se aproximou mais do MDB e eu ficava muito ligado ao PT; tínhamos essa questão política, mas, tirando a ideologia, a gente se entendia muito bem. Ficou mais fácil fazer essa matéria justamente porque nós nos dividíamos bem: eu cuidava da parte de memória e ele, da parte não vinculada à memória.
Quais diferenças o senhor vê entre o jornalismo praticado naquela época e o que é feito atualmente? E qual o conselho para a nova geração?
O jornalismo é o mesmo. A parte prática, tudo mudou. A tecnologia avançou, mas eu não uso celular. Mudou tudo o que você possa imaginar em termos de edição e de colocar no papel. Menos uma coisa: a importância do repórter. É não querer o básico. O repórter não pode se contentar com o press release, nem com o telefone, nem com o WhatsApp. Tem que ir para a rua. É lá que está a notícia. Este é o sentido: se o repórter se conscientizar de que a notícia está na rua, não está no gabinete, ele vai se tornar um grande profissional. É insistir na possibilidade de encontrar notícia que não está em uma coletiva e ter certeza de que o cidadão comum tem informação e deve ser valorizado.
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Na marca simbólica das 20.000 edições, o Diário celebra não apenas sua longevidade, mas também o compromisso quase quarentão de preservar e valorizar a identidade regional, uma missão encarnada, sobretudo, na coluna Memória, assinada há 38 anos por Ademir Medici. Nessas quase quatro décadas, a coluna se consolidou como ponto de encontro entre o passado da região e o leitor, “nosso parceiro maior”, como definiu o próprio Medici em texto publicado em 2009, ao celebrar os 22 anos do espaço.
Esse reencontro cotidiano com a história se desdobra em três frentes: na página 2 do caderno SeteCidades, no site do Diário e na versão on-line em plataformas digitais, que reúne entrevistas semanais disponíveis em Colunas e Vídeo. Mas a semente da Memória foi lançada muito antes da estreia oficial em 2 de setembro de 1987, com o texto ‘Saúde em Santo André’, dedicado ao Dia do Enfermeiro andreense, celebrado em 12 de maio de 1948.
O formato, lembra Medici, começou a tomar corpo em 1985, dentro da própria Redação, com os cadernos Domingo em São Bernardo, Domingo em Mauá e Domingo em Ribeirão Pires. Ali já despontavam elementos essenciais da narrativa histórica regional, um esboço do que viria a se transformar, anos depois, em um dos maiores acervos jornalísticos sobre o Grande ABC. O projeto se ampliou no fim dos anos 1990, quando o jornal lançou o caderno Praticidades, publicado entre 1999 e 2000, marcado pela iconografia das páginas amarelas e pela reunião de histórias de bairros e curiosidades.
A vocação do Diário para registrar a trajetória das cidades, porém, é ainda anterior. Na segunda metade da década de 1970, o jornal produziu a série especial ‘A História dos Bairros’, com quase 100 reportagens que mapearam a formação urbana das sete cidades, trabalho que culminaria na reportagem premiada com o Prêmio Esso. Orientador da coluna desde 1985, quando buscava saber mais sobre as raízes da sua família e de outros imigrantes japoneses, o professor Alexandre Takara sintetiza a importância da coluna.
“Conceito: a coluna de Ademir Medici denomina-se Memória, que ele cultua desde a década de 1980. Conceituamos: memória é a faculdade de conservar e lembrar estados de consciência passados e tudo o que se associa a eles. Aquilo que ocorre ao espírito como resultado de experiências já vividas; lembranças, reminiscências. O passado não é o que passou – é o que ficou. O passado que passou é esquecimento; o passado que ficou são lembranças, é vida. E o Grande ABC cultua o passado”, afirma o professor.
Para Takara, a coluna cumpre papel vital em um tempo em que referências se desfazem com rapidez. Daí a importância de registrar “minudências desprezadas pela imprensa” e de preservar tanto a memória individual quanto a coletiva. “Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, reinventar, hoje, as experiências do passado”, afirma.

Professor Alexandre Takara (FOTO: Denis Maciel)
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