Edição 20.000 Construído em 1972, edifício se consolidou como marco urbano, cultural e moderno de Santo André e segue como a ‘casa oficial’
FOTO: Reprodução e Claudinei Plaza/DGABC

O prédio do Diário, na Rua Catequese, nasceu de uma combinação rara: arquitetura visionária, amizade e a ambição de construir um jornal à altura do crescimento regional. Projetado pelo arquiteto Jorge Olavo dos Santos Bomfim (1934-2021), o edifício foi concebido para refletir a força do jornal e o momento de expansão vivido pelo Grande ABC no início dos anos 1970.
Segundo André Fabiano Snabaitis Bomfim, filho do arquiteto, a relação próxima entre seu pai e o fundador do jornal, Edson Danillo Dotto (1934-1997), moldou não apenas o desenho, mas também o significado simbólico da obra.
“O prédio tem características muito interessantes. É todo voltado para o Paço de Santo André e já tinha uma altura máxima definida naquele período, em 1972. A ideia era uma planta livre para permitir dinamismo, instalar máquinas, redação e administração conforme a necessidade”, explica. A estrutura foi pensada para acompanhar o crescimento acelerado do jornal, que passou a ter tiragem diária em 1968. O espaço foi feito pensando em ser flexível, amplo e capaz de receber novos equipamentos e setores sem perder eficiência.
Desde sua criação, o edifício uniu arquitetura e arte. A escultura em concreto instalada na fachada, obra do artista plástico Sinval Correa Soares, foi pensada como parte integral do projeto. “Meu pai já tinha essa ideia da união entre arte e arquitetura. O prédio não é só arquitetura, ele simboliza a força e a importância do Diário para Santo André e para a região”, afirma André.
Erguido em 1972, recebeu primeiramente as máquinas do parque gráfico; no ano seguinte, foi ocupado pela redação e pelos setores administrativos. Nas décadas de 1970 e 1980, ganhou o apelido de Palácio da Imprensa, sediando encontros, entrevistas e eventos que trouxeram figuras como Dinah Zekcer, Leonel Damo, Cida Ferreira, Franco Montoro (1916-1999) e Luiz Olinto Tortorello (1937-2004), além de nomes centrais da vida política, cultural e social, como o hoje técnico da Seleção Feminina de Volêi, Zé Roberto Guimarães, que frequentava a região, e o grande cineasta Amácio Mazzaropi (1912- 1981), que gravou filmes nos Estúdios Vera Cruz, em São Bernardo.
Hoje, mais de 50 anos depois, o edifício preserva sua força estética e simbólica. “É um prédio que ainda é moderno. Ele se destaca na paisagem, pela posição e pela união de arte e arquitetura. É parte da identidade de Santo André”, diz André. Para ele, o edifício também é testemunho da parceria entre Jorge Bomfim e Dotto: “Os dois eram pessoas à frente do tempo. Esse prédio é também resultado dessa visão conjunta”.
Um símbolo do modernismo regional, diz professor
Ainda estudante de arquitetura da USP (Universidade de São Paulo), em 1979, Enio Moro Júnior – hoje gestor do curso de Arquitetura e Urbanismo da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) – realizou seu primeiro estudo acadêmico justamente sobre o prédio do Diário. Décadas depois, ele afirma que o edifício continua sendo uma verdadeira aula de arquitetura moderna aplicada ao contexto urbano.
“O edifício do Diário é uma aula de boas decisões de projeto. Ele trabalha com modularidade, com estrutura aparente muito bem resolvida e com uma relação franca com a rua”, explica. O térreo transparente, concebido como área aberta e integrada ao entorno, é, segundo Enio, uma solução ousada para a época e ainda atual.
A obra de Sinval Correa Soares, moldada em concreto no próprio local, reforça essa singularidade.
“A escultura faz do edifício um suporte artístico. É uma solução muito rica. Imagine a cidade como uma grande galeria a céu aberto: o Diário foi precursor dessa ideia”, afirma. O edifício também traduz um modernismo regional, expressão da produção arquitetônica do Grande ABC.
LEIA TAMBÉM:
Prêmio muda a reportagem do jornal e pauta toda a imprensa
“Hoje valorizamos cada vez mais esse modernismo local. O prédio do jornal é uma peça importante da obra de Jorge Bomfim, que merece estudo acadêmico pela competência e relevância regional”, afirma Enio. Mesmo sem ostentar grande altura, seu impacto urbano sempre foi imediato. “A escala é a correta. A boa relação com o Paço e com a cidade faz dele um marco arquitetônico importante”, completa.
Revitalizado em 2021, em comemoração aos 63 anos do jornal, o prédio reafirma sua condição de patrimônio urbano. O prédio do Diário faz parte de uma espécie de ‘oásis’ da arquitetura no Grande ABC, composta pelo paisagismo de Burle Marx no Paço Municipal, o Fórum, a EE (Escola Estadual) Américo Brasiliense, entre outros prédios importantes.
Chegada de concorrente fez jornal investir pela liderança
A decisão de construir o novo prédio, inaugurado em 1972, estava enraizada no crescimento acelerado da região e do próprio jornal. Porém, outro fator também foi significativo para o investimento no novo edifício: o surgimento de um concorrente de peso, o Correio Metropolitano. Este jornal se instalou na mesma sala que havia sido ocupada pelo Diário anteriormente, quando ainda News Seller, na Rua Bernardino de Campos.
O Correio Metropolitano contava com um grupo de empresários que não economizaram em investimentos. Diante dessa nova ameaça competitiva, os investimentos realizados pelo Diário, que incluíam a nova sede, foram incentivados como forma de garantir a liderança e a modernização.
A instalação das máquinas foi uma das primeiras etapas. A capacidade de expansão gerou recorde batido em 18 de março de 1973, quando o jornal publicou 31 páginas de classificados. Esse feito o colocou como o segundo jornal do Estado em anúncios.
Em 1974, a empresa comprou a máquina sueca Solna, o que permitiu ao jornal começar a operar em sistema off-set. Este avanço tecnológico elevou a capacidade de produção, permitindo a impressão de 25 mil exemplares por hora. Antes, a produção dependia de dez linotipos e uma rotativa que imprimia apenas 15 mil.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.