Edição 20.000 Mesmo sob vigilância, jornal manteve cobertura plural e registrou momentos decisivos da repressão militar no Brasil
Caetano Veloso no Teatro Municipal de Santo André, em agosto de 1975, após ter sua estreia nacional do show ‘Qualquer Coisa’ adiada (FOTO: Reprodução/Banco de Dados)

O final da década de 1960 marcou o período mais duro da ditadura militar brasileira, quando a repressão atingiu níveis extremos, fechando jornais, impondo censura e deixando um rastro de mortes, como as dos guerrilheiros Carlos Marighella e Carlos Lamarca. Nesse contexto, o Diário, ainda em transição do antigo semanário News Seller, publicou uma cobertura que, embora cautelosa diante do regime, jamais deixou de registrar os eventos políticos e sociais que moldavam o País.
A postura crítica, ainda que contida, surgiu logo após o golpe de 1964. Em 5 de abril daquele ano, na primeira edição pós-ruptura democrática, o então News Seller publicou editorial que expressava a preocupação com os rumos do movimento militar: “As Forças Armadas do Brasil, cuja tradição democrática é uma segurança para todos, neste exato momento assumem, perante o povo, perante o trabalhador, sérias responsabilidades”.
Quando a transição para o jornal se consolidou, em maio de 1968, a cobertura ganhou ainda mais densidade. A primeira manchete da nova fase deu o tom: ‘Prisão de sacerdotes agita círculos católicos da região’. No dia 3 de julho, o jornal estampou ‘Estudantes hoje nas ruas’, com menção a José Dirceu, então líder da União Estadual dos Estudantes. Três dias depois, noticiou a proibição de manifestações estudantis decretada pelo presidente Costa e Silva.
O Diário também acompanhou as movimentações operárias daquele ano: registrou as passeatas em solidariedade à greve de Osasco e chegou a cravar, em 31 de julho, ao tratar do destino de Jânio Quadros: ‘Brasil vive ditadura’.
O AI-5
O ápice da repressão ganhou destaque na edição de 14 de dezembro de 1968. Na capa, o jornal publicou na íntegra o AI-5 (Ato Institucional nº 5), responsável pelo fechamento do Congresso, cassação de mandatos, suspensão de habeas corpus para crimes políticos e instauração da censura até 1979. No dia seguinte, o editorial ‘A hora do julgamento’ explicitou o cenário.
“A direção deste jornal foi informada ontem, através da Delegacia de Polícia local, dos termos de um telegrama do sr. secretário da Segurança Pública do Estado estabelecendo a censura prévia ao noticiário jornalístico (...) Diante do Ato Institucional nº 5, temos que acatar os desígnios. Mas, como brasileiros e cidadãos amantes da ordem e da paz, conservemos as esperanças, tantas vezes frustradas, de que uma revolução pode ser feita inutilmente e muito menos contra o País. Não é hora do julgamento, assim querem as autoridades. Porém, essa hora vai chegar a qualquer momento”, diz o editorial.
O historiador e professor Alexandre Takara, orientador da coluna Memória, avalia o momento vivido pelo jornal após o ato. “Em virtude dessa advertência, o Diário se pautou em abrir espaço aos vários lados da questão, o que, de resto, é a regra número 1 do jornalismo. Essa posição de fazer um jornalismo de abertura a vários segmentos deve-se ao estilo e ao modo de agir do diretor do Diário, Fausto Polesi (1930-2011). Ele era um liberal. Selecionava e admitia jornalistas, independentemente de suas posições ideológicas e políticas.”
Nos anos seguintes, o jornal seguiu fazendo jornalismo, registrando os fatos autoritários do regime como eles eram, seja contra estudantes, políticos ou religiosos, como dom Jorge Marcos de Oliveira. Em 1969, ao relatar o Ato Institucional nº 14, que endurecia ainda mais as punições, descreveu-o como legislação destinada a “punir drasticamente”.
Jornalistas eram voz da cultura regional, mesmo com a censura
Simultaneamente ao crescimento do Diário após a transição de News Seller, Santo André atravessava uma das fases mais vibrantes de sua história cultural. O Teatro Municipal tornou-se polo central de lançamento de espetáculos nacionais. Inaugurado em 1965 com Cansa Cavalo, de Osman Lins, o espaço recebeu montagens como O Homem de La Mancha, estrelada por Bibi Ferreira e Paulo Autran, além de apresentar artistas que despontavam no cenário brasileiro, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento.
A efervescência vinha de antes. Em 1962, Santo André criou seu CPC (Centro Popular de Cultura), rapidamente reconhecido no País. O grupo encenou Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, com Lélia Abramo, Sônia Guedes e Miguel Benvenga no elenco. O Teatro Scasa, o Teatro do Alumínio, também movimentava a cena local.
Com o auge da produção cultural, veio a censura. Peças e shows só eram liberados após envio de textos a São Paulo e exibições prévias a censores. A intervenção era tão intensa que a estreia nacional do show Qualquer Coisa, de Caetano Veloso, em Santo André, foi adiada por um dia.
Em 1971, Paulo Autran foi pessoalmente à Fundação das Artes, em São Caetano, para pedir o fim da censura, argumentando que países desenvolvidos já não submetiam a cultura ao Estado. A própria Fundação desempenhava papel de destaque nacional. Seu diretor, Milton Andrade, chegou a ser convidado a apresentar, na França, o modelo de formação aplicado na instituição.
Nesse cenário, o Diário tornou-se peça essencial já que cobria, anunciava e preservava o registro de cada espetáculo que conseguia chegar ao público. O jornal também se tornou um refúgio para profissionais. O redator de Cultura José Armando Pereira da Silva, um dos destaques do caderno, descobriu anos depois, nos arquivos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que também era monitorado.
“Cheguei a Santo André em 1963, fazendo a página de literatura e arte. Com o lançamento do Diário em 1968, foi convidado para integrar a equipe fixa. Nessas áreas de cultura a pauta era muito livre. Foi uma característica do jornal: acompanhar a cultura. Os bons veículos têm atenção para essa área, e o Diário deu”.
Paulo Klein, outro nome decisivo da redação cultural, desta vez nos anos 1970, recorda o período. “Fui contratado como repórter e depois indicado para desenvolver a editoria de cultura. Começou modesta, com menos de duas páginas. Abrimos espaço para matérias especiais sobre teatro, literatura, artes visuais. O Grande ABC era um território culturalmente estimulante”, afirma Klein, hoje crítico de artes visuais e de cultura.
HOMENAGEM
A importância dessa cobertura foi posteriormente documentada. Em 2009, Manuel Reis lançou A crítica de arte no ABC, obra que reúne textos publicados no Diário entre os anos 1960 e 1980. O livro mostra a amplitude do jornal, que nunca deixou de divulgar ou criticar espetáculos e lançamentos, do novo projeto do Talking Heads de David Byrne ao show de Djavan no Clube Atlético Aramaçan.
Fausto Polesi cita, no prefácio, os jornalistas que fizeram do caderno de cultura um sucesso, sendo todos agora oficialmente citados na edição 20.000: Nair Lacerda (1903-1996), Enock Sacramento, Elisabeth Pudles, José Louzeiro (1932-2017), Ulysses Cruz, o entrevistado José Armando Pereira da Silva, Milton Andrade, Paulo Klein (também entrevistado), Manuel Reis, Sábato Magaldi (1927-2016), Carlos Hee, Heitor Capuzzo, Antonio Prada, Ademir Medici, Édison Motta (1953-2015), José Paschoal Rosseti, José de Souza Martins, Rafael Guelta (1954- 2015), José Marqueiz (falecido em 2008), Sandra Reimão, Valdir Pires, Alexandre Takara, Dalila Teles Veras, Cassio Loredano, Luiz Carlos Fernandes, Pedro Martinelli, Ricardo Hernandes, João Colovatti (1945-2001) e Acilino Bellisomi (1930-2015).
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Oficialmente, o Diário não sofreu intervenção, como recordou o ex-diretor de Redação do jornal, Fausto Polesi, no livro em comemoração aos 50 anos do periódico. Mas isso não significava ausência de pressões. Na década de 70, o próprio Polesi foi convocado pelo delegado local para ouvir a lista de temas proibidos, concluída com a advertência: “mantenha-se assim”.
A área administrativa também enfrentou tensões. O então diretor Angelo Puga (1937-2023) foi levado ao Quartel General de Osasco para explicar a impressão de um “jornal comunista” na gráfica do Diário. Em outro episódio, relatado por Maury de Campos Dotto, militares chegaram a estacionar um veículo do Exército em frente ao prédio, prontos para destruir as instalações após confundirem o Notícias de Hoje, do Partido Comunista, como sendo do próprio Diário. O jornal não era responsável pelo conteúdo, apenas imprimia o periódico. A tropa foi embora sem agir.
Com o início do processo de abertura política, na segunda metade dos anos 1970, o jornal voltou-se com intensidade aos movimentos sociais, sobretudo ao operariado do Grande ABC, que viria a redefinir o cenário político nacional.
O professor Alexandre Takara, orientador da Memória, lembra o impacto dessa cobertura. “Que eu me lembre, o Diário dava grande cobertura ao movimento sindical. Nessa época, eu residia e trabalhava numa empresa brasileira na Argélia, antiga colônia francesa, norte da África. Assinava dois jornais franceses, Le Monde e L’Express. Esses jornais fizeram cobertura das greves operárias de 1978 a 1980. E denominavam a nossa região de A República do Grande ABC e citavam o Diário como fonte de informações. Dava cobertura às palavras dos bispos dom Jorge Marcos de Oliveira e dom Cláudio Hummes, francamente favoráveis ao movimento operário”.
Apesar da vigilância constante, nenhuma reportagem ou editorial foi vetado, e a polícia jamais entrou na Redação.
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