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Páginas registram as 5 Copas do Mundo da Seleção Brasileira

História do jornal ganha novo capítulo com a 1ª cobertura presencial da competição, no tetracampeonato de 1994, nos Estados Unidos

Ryan Leme
Especial para o Diário
28/11/2025 | 01:18
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FOTO: Ricardo Trida 08/7/14
FOTO: Ricardo Trida 08/7/14 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


 Criado em 1958, ainda com o nome de News Seller, o Diário nasceu no mesmo ano do primeiro título mundial da Amarelinha. A conquista da Seleção apareceu de forma rápida e modesta nas páginas do jornal, uma nota parabenizando o Brasil como “Campeão mundial invicto de futebol” e celebrando outras conquistas do País no ano. Já em 1962, a cobertura permanecia enxuta, mas já refletia como a Copa influenciava o cotidiano do Grande ABC, com relatos de fábricas que liberaram funcionários para assistir à partida da semifinal, frente ao Chile.

A modernização ganhou corpo em 1970. Nas páginas, súmulas, avaliações dos jogadores e bastidores da campanha brasileira. As edições destacaram o clima das festas nas ruas do Grande ABC, como na Oliveira Lima e no centro de São Bernardo. No dia da decisão, o jornal colocou duas edições nas bancas: uma pré-jogo e outra logo após o título, com pôster do elenco, resumo da trajetória e repercussão local do tricampeonato.

Nos mundiais seguintes, o jornal experimentou iniciativas próprias, como em 1986, quando a Rádio Diário montou um telão na Associação dos Funcionários Públicos de São Bernardo, reunindo centenas de torcedores em transmissões com distribuição de brindes. Já em 1990, o jornal ampliou a abordagem com uma coluna assinada pelo ex-jogador Paulo Roberto Falcão, que trazia a visão técnica de um dos nomes mais importantes do futebol brasileiro.

1994

A Copa de 1994 marcou a estreia do Diário em uma cobertura in loco de Mundial. A presença dos repórteres Edson Rossi e Paulo Carneiro nos Estados Unidos representou uma mudança para o jornal que, até então, acompanhava a Seleção na redação do Grande ABC. Segundo os jornalistas, a viagem ocorreu em um período de limitações técnicas. “Era o comecinho da internet, não funcionava para ninguém. Todos os jornais tinham dificuldades para enviar textos ou imagens sobre o campeonato”, lembra Carneiro.

A dupla desembarcou na América do Norte três semanas antes do início da Copa, e durante um amistoso preparatório contra Honduras, Rossi registrou uma cena incomum: oito jogadores brasileiros alinhados na mesma faixa central do campo. A imagem chamou a atenção de Carlos Alberto Parreira, técnico da Canarinho no torneio, por ilustrar exatamente o comportamento tático que tentava organizar. “Quando mostrei a foto, ele disse: ‘Essa imagem representa o que penso sobre o futebol e o que quero dizer para os meus jogadores”, afirma Rossi. A fotografia rodou pela comissão técnica brasileira e foi utilizada durante as preleções do elenco na campanha.

A rotina nos Estados Unidos era marcada por deslocamentos longos, partidas em cidades diferentes e a busca diária por histórias que conectassem o Mundial ao Grande ABC. A permanência dependia diretamente da campanha brasileira, o que criava humor entre os enviados. “Dizíamos que éramos os maiores torcedores do Brasil, porque se a Seleção perdesse, voltaríamos para casa. Então, torcíamos para trabalhar mais”, conta Carneiro.

Na véspera da final contra a Itália, o Diário publicou uma das reportagens mais emblemáticas daquela edição. Parreira concedeu uma entrevista exclusiva e desenhou, à mão, o esquema tático planejado para a decisão. “Parreira virou um amigo durante a campanha. No início da Copa me prometeu uma entrevista e cumpriu. Ele escalou o time e explicou o posicionamento ali mesmo, com sua assinatura”, recorda Rossi.

A decisão no estádio Rose Bowl, com quase 100 mil torcedores, e a conquista do tetracampeonato brasileiro após uma pausa de 24 anos foi a cereja do bolo, relatam os jornalistas. “Foi o ápice, o momento mais marcante da minha carreira. Não digo pelo jogo em si, mas por viver um evento como aquele”, define Rossi. Carneiro resume a percepção interna. “Era a primeira Copa que o Diário cobria presencialmente e conseguimos ter uma presença importante, reconhecida, apesar de todas as dificuldades.”

O episódio de Rossi e Carneiro marcou o início das coberturas presenciais do jornal em Copas do Mundo. A prática foi repetida em todos os Mundiais até 2014, com exceção de 2002, disputado no Japão e na Coreia do Sul, e que contava com edições especiais após alguns dos jogos do Brasil, que aconteciam durante as madrugadas no País.

Em 2014, recorde para o ‘Diário’ e o maior trauma esportivo do País

A Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, levou o Diário ao maior esforço de cobertura do torneio. Sete profissionais, recorde do jornal, acompanharam, in loco, 27 partidas em nove das 12 cidades-sede, com equipes divididas entre jogos da Seleção, confrontos de destaque e cobertura fixa em São Paulo. O repórter Anderson Fattori e o fotógrafo Ricardo Trida estiveram juntos na rota brasileira, em deslocamentos quase contínuos. “A cada dois ou três dias estávamos viajando. A Seleção mudava de cidade, e nós também. Era cansativo, mas único para qualquer jornalista”, diz Fattori.

A cobertura permitiu uma coleção de histórias que escapavam do placar. Em Fortaleza, andando pela orla da praia, Fattori encontrou um grupo de mexicanos viajando em uma van velha, atravessando o continente para realizar o último pedido de um amigo com câncer terminal. “Eles vieram sem dinheiro, contaram com a solidariedade pelo caminho. Quando ouvi a história, entendi que a Copa é muito mais do que futebol. Aquilo me marcou para sempre”, diz.

Porém, nada se comparou à eliminação na semifinal, contra a Alemanha, em uma goleada por 7 a 1. O jornalista conta que a véspera do jogo no Mineirão era tomada por expectativa alta, mas tudo mudou antes da metade do primeiro tempo. “Quando os gols começaram a sair em sequência, abandonei o campo e comecei a observar as pessoas. Sabíamos que estávamos diante de algo que marcaria o futebol para sempre”, diz Fattori. Ele recorda o silêncio que substituiu qualquer reação. “Não parecia real. Ninguém xingava, ninguém protestava. Era como se todo mundo estivesse preso em um sonho ruim.”

Para Trida, o impacto foi imediato. “Quando saiu o quarto gol, olhei para o fotógrafo ao meu lado e disse: ‘Tem algo errado’. No quinto, virei a cadeira para trás. O jogo tinha acabado”, conta. A partir dali, sua cobertura se voltou à arquibancada, onde buscou rostos que traduzissem o choque, especialmente o de uma criança, imagem que acabou na capa do Diário no dia seguinte. “Precisava mostrar o que o País estava sentindo. Aquilo não era a Seleção que todos esperavam ver.”

Mesmo com a frustração de presenciar uma das maiores goleadas da história das Copas, a dupla que percorreu o País em 2014 guarda a dimensão do que testemunhou. Trida resume esse sentimento ao lembrar o instante em que registrou a foto que viraria símbolo da derrota. “Hoje, eu vejo que participei de alguns momentos históricos, mas esse é daqueles que não saem da retina”, completa.

Edição 2026 será a 18ª do periódico 

A Copa do Mundo de 2026, que será disputada em México, Estados Unidos e Canadá, marcará a 18ª cobertura do Diário em um Mundial. O torneio, agora ampliado para 48 seleções, ocorrerá entre 11 de junho e 19 de julho, e terá o Brasil como um dos países já garantidos na fase de grupos. A equipe treinada pelo italiano Carlo Ancelotti vai ao campeonato com a meta de quebrar um tabu de 24 anos sem levantar a taça.

Entre os profissionais que já acompanharam a Seleção em Copas anteriores, a avaliação sobre o momento brasileiro varia. Anderson Fattori vê um processo de reconstrução ainda incompleto. “A Seleção foi muito abalada pelas últimas campanhas. Falta identidade, porque passaram muitos treinadores, e hoje é difícil definir um estilo claro. O Ancelotti está tentando reorganizar isso, mas ainda não existe um líder técnico que carregue o time”, afirma. 

Para Fattori, o Brasil chega à Copa do Mundo sem o peso de favorito, mas com margem para surpreender. “Tem bons jogadores em todas as posições. Se chegarem em grande fase, o Brasil pode competir com qualquer seleção.”

Já o fotógrafo Ricardo Trida observa o cenário com pessimismo maior. “Sinto que a Seleção perdeu brilho. Parece que vestir a camisa amarela virou segundo plano”, diz. “Eu cresci vendo jogadores com muita vontade, raça, e não vejo isso hoje. Gostaria que fosse diferente, mas não tenho expectativa de uma campanha longa.” Para Trida, uma classificação até as quartas de final já seria um resultado expressivo.

Edson Rossi vê o próximo Mundial com ceticismo, mas com entusiasmo sobre o torneio. “Há seleções acima da nossa. A França, por exemplo, deve chegar arrebentando, mas vai ser um Mundial espetacular por quem estará lá. Cabo Verde, Curaçau, seleções que nunca imaginamos ver. Isso enriquece a festa”, afirma. 

Mesmo com leituras distintas, ambos reconhecem o tamanho do desafio que o novo formato impõe , com mais equipes, uma partida a mais a disputar e maior instabilidade. Ao mesmo tempo, destacam que a Copa é sempre imprevisível. “Em 1994 ninguém acreditava que o Brasil fosse campeão. Acontece, a Copa sempre nos surpreende.”, completa Fattori. 

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