Edição 20.000 Com 20 anos de ‘Diário’, fotógrafo trouxe imagens que ultrapassaram a lógica do registro jornalístico
FOTO: Reprodução | Banco de dados

Quando se fala na história visual do Diário, um nome atravessa décadas com a força de uma assinatura incontestável: João Colovatti (1945- 2001). Fotógrafo de instinto raro e sensibilidade incomum, ele transformou fatos em memória coletiva e marcou gerações de leitores com imagens que ultrapassaram a lógica do registro jornalístico. Nesta edição histórica de número 20.000, revisitar sua trajetória é revisitar também a própria identidade do jornal.
Colovatti chegou ao Diário em 1972, trazendo no currículo a passagem pelo jornal Última Hora. Ficou aqui por 20 anos, tempo suficiente para se tornar um dos profissionais mais respeitados do fotojornalismo do Estado de São Paulo. Seu olhar atento decifrava cenas antes mesmo que elas se revelassem.
Ao longo das duas décadas no jornal, Colovatti cobriu de tudo: política, cotidiano, tragédias, festas populares e acontecimentos que moldaram o Grande ABC. Mas não era apenas um fotógrafo preciso; era um narrador. Cada clique carregava humanidade e isso talvez explique por que tantas imagens suas permanecem vivas na memória dos leitores.
Entre seus trabalhos mais conhecidos está a sequência de imagens do menino que caiu de um teleférico na Cidade da Criança, em 23 de julho de 1975. As fotos, impressionantes pela precisão do flagrante, despertavam descrença nos leitores. “Até hoje pensam que foi um truque”, disse Colovatti na edição especial de aniversário de 20 anos do Diário.
Após encerrar sua trajetória profissional, dedicou-se a uma vida mais tranquila em um sítio na pequena Procópio Ferreira, no Paraná. Em 17 de julho de 2001, aos 56 anos, Colovatti morreu vítima de infarto fulminante.
O repórter fotográfico Marcello Vitorino, que atuou no Diário entre 1997 e 2000, descreve Colovatti como alguém cuja dureza aparente escondia um afeto imenso. “Por trás daquela figura meio bruta havia um cara apaixonado pela vida. Na fotografia, ele deixava transparecer essa beleza que carregava dentro de si”, recorda. “Ele era amável, simples, não se via como herói e justamente por isso acabou se tornando um”, complementa.
A influência de Colovatti, avalia Marcello, foi decisiva para consolidar um período de excelência no fotojornalismo. “O trabalho dele inspirou, orientou e orquestrou uma geração inteira.”
Quem confirma esse legado é Luciano Vicioli, repórter fotográfico do Diário dos anos 1980 até o fim da década de 1990 e um dos pupilos diretos do mestre. “Foi o melhor fotojornalista que passou pelo Diário. Tinha um olhar absurdo. Transformava uma simples poça d’água em foto incrível. Era um fotógrafo de jornal raiz: tinha faro, agilidade, sensibilidade para o factual”, diz. “Era divertido, era chefe, era exigente. Sigo a linhagem dele até hoje.”
Em 2008, quase sete anos após sua morte, Marcello Vitorino assumiu a curadoria da exposição Revelações de um Anti-Herói – Fotografias de João Colovatti, que apresentou cerca de 30 imagens do acervo do fotógrafo. O título traduzia com precisão quem ele era: protagonista sem vaidade.
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