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Grandes greves moldam história do Grande ABC

‘Diário’ foi protagonista de período que mudou as relações do trabalho e deu novos rumos para a política nacional

Nilton Valentim
28/11/2025 | 09:45
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FOTO: Estevam Figueiredo/Banco de Dados
FOTO: Estevam Figueiredo/Banco de Dados Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Grandes greves ocorridas no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 marcaram a história do Grande ABC e transformaram o cenário econômico, sindical e político da região. Foi o surgimento de lideranças, cujos nomes começavam a aparecer no noticiário e que até hoje se destacam no País. Os sinais dados pelos operários, principalmente os metalúrgicos, encontraram ressonância nas páginas do Diário, que, em pleno regime militar, soube entender o momento de transformação e, de maneira desafiadora, mostrou aos seus leitores os bastidores de um período de profunda ebulição histórica. 

A manchete do Diário de 13 de maio de 1978 (Metalúrgicos da Scania entram em greve por aumento), um domingo, Dia das Mães, relatava que os 2.500 trabalhadores da montadora instalada em São Bernardo tinham cruzado os braços. A informação havia chegado ao jornal por um telefonema anônimo.

O movimento começou a se expandir. No dia seguinte (14), trabalhadores da Ford também pararam. Em seguida (15), os metalúrgicos da Volkswagen e Mercedes-Benz aderiram e logo toda a região estava mobilizada, assim como a equipe do Diário, que como nenhum outro veículo de comunicação soube mostrar o que acontecia na região.

Vendo o noticiário da época, alguns detalhes chamam atenção. Um deles, uma pequena nota publicada em 17 de maio, com o título ‘Emissoras de rádio e TV censuradas’, cujo texto de poucas linhas relatava que “por volta das 17h de ontem (16), emissoras de rádio e televisão começaram a receber comunicados telefônicos da censura impedindo a divulgação do que está ocorrendo nas indústrias automobilísticas do Grande ABC”. A nota informava ainda que a Rádio e TV Bandeirantes “foi comunicada da proibição às 17,52h por um icônico telefonema da agente Suzana. A Jovem Pan havia recebido o comunicado da censura minutos antes”.

O outro, foi em 20 de maio, quando o presidente a República Ernesto Geisel veio à região para a inauguração de uma empresa (Polibrasil), no Polo Petroquímico. Ele foi abordado pela jornalista do Diário que fazia a cobertura, e questionado sobre a greve dos metalúrgicos. O texto narra a reação do general que, “com um cordial sorriso e um gesto com as mãos, indicando sua total falta de disposição em comentar o assunto”.

No mesmo texto, outro militar, o general Dilermando Gomes Monteiro, comandante do segundo Exército, diz “acreditar no espírito de brasilidade dos trabalhadores” e declarou-se “indiferente” às manifestações, que no dia seguinte atingiram a marca de 30 mil trabalhadores parados, segundo informou o Diário. A greve durou 15 dias.

UM ANO DEPOIS

Em 13 de março de 1980, quarta-feira, a manchete do Diário era ‘Paralisação dos metalúrgicos é total’, e narrava que 200 mil trabalhadores estavam de braços cruzados nas empresas do Grande ABC. Duas fotos – de Alberto Murayama – compunham a primeira página. Uma delas mostrava seis operários, trajando calças ‘boca de sino’ (que estavam na moda naquele período), alguns com as mãos para cima, e três policiais militares vindo em sua direção, um deles com a cassetete no ar, pronto para desferir o golpe. A outra, mostrava pessoas correndo após o lançamento de bombas de gás lacrimogêneo, ambas tiradas nas imediações da Villares, em São Caetano.

A mesma primeira página trazia um comunicado (pago) da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) que repudiava a greve e citava motivos pelos quais entendia que os movimento era ilegal.

Ali começava uma saga que culminaria na prisão dos presidentes dos sindicatos dos metalúrgicos de Santo André, Benedito Marcílio; de São Bernardo, Luiz Inácio da Silva, o Lula; e de São Caetano, João Lins.

Chama atenção a forma como o Diário colocou-se naquele momento. Dando voz aos trabalhadores e aos sindicatos que os representava, bem como às indústrias, Justiça do Trabalho, autoridades e à igreja, que começou a ter papel importante, principalmente com a Pastoral Operária e o bispo dom Cláudio Hummes, que esteve em portões de fábricas e abriu as portas da matriz de São Bernardo e outras paróquias para os metalúrgicos se reunirem quando houve intervenção no sindicato.

Além de noticiar o que ocorria naquele momento, o Diário também teve papel importante no apoio aos demais veículos de imprensa. Vários profissionais de jornais da Capital, de outros Estados e até do Exterior, utilizavam a estrutura montada na Rua Catequese, no Centro de Santo André, para produção de suas reportagens. 

Dali se seguiram momentos importantes, como as grandes assembleias realizadas no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo, a criação do PT (Partido dos Trabalhadores) e o aparecimento de líderes. Fatos que, antes de fazerem parte dos livros de história, foram detalhados com minúcias nas páginas do Diário, por meio de textos e fotos. O jornal testemunhou e fez parte dessa transformação do País.

Passado é base das relações entre os trabalhadores e as indústrias

O desenrolar das grandes greves dos anos 1970 e 1980 moldaram as transformações nas relações entre patrões e empregados. No noticiário do Diário é possível constatar essa evolução. A comparação das notícias atuais envolvendo o setor produtivo com as daquela época revelam que, com o passar do tempo, a negociação se sobrepôs às paralisações.

No caso dos metalúrgicos, a categoria mais atuante da região, tornou-se comum que os sindicalistas submetam à categoria, em assembleias, o resultado de reuniões prévias com as montadoras e, algumas vezes, a concessão de reajustes de salário fica condicionada a metas estabelecidas. Ou ainda, se coloque em segundo plano, atrás da garantia de emprego, por exemplo.

Em entrevista recente ao Diário, Wellington Damasceno, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, destacou que, embora o sindicalismo viva tempos mais racionais, os sindicalistas ainda sabem utilizar os métodos do passado.

E isso ficou visível em São Caetano, quando a GM (General Motors), em outubro de 2023, demitiu funcionários em pleno sábado e por telegrama. O Sindicato dos Metalúrgicos da cidade, comandado por Aparecido Inácio da Silva, o Cidão, se mobilizou, fez assembleia no domingo, paralisou a empresa e conseguiu, na Justiça, a reversão das demissões.

Dom Cláudio colocou a igreja como refúgio dos operários

Dom Cláudio Hummes (1934 - 2022) Bispo de Santo André entre 1975 e 1996, foi figura preponderante a história do sindicalismo na região. Ele colocou-se sempre ao lado dos trabalhadores, marcou presença em portas de fábricas durante assembleias e abriu as igrejas para reuniões quando os sindicatos estavam fechados pela ditadura.

Por várias vezes nos anos 1970 e 1980, ele permitiu que os sindicatos se reunissem em igrejas de sua diocese para articular ações, dificultando a repressão militar. “Um dos momentos mais marcantes foi uma greve geral em 1983, quando ele abriu a Igreja do Carmo para realizarmos uma assembleia, já que o nosso sindicato estava sob intervenção. Dom Cláudio teve papel fundamental na democracia e na luta dos trabalhadores”, disse o ex-prefeito de Santo André João Avamileno (PT), em entrevista publicada pelo Diário em 2015, quando dom Cláudio completou 80 anos.

Nesta mesma reportagem, o padre Carlito Dall’Agnese, que era titular da Catedral do Carmo nos anos de 1980 e 1981, relembra passagem ocorrida em Santo André, quando, aconselhado por dom Cláudio, abriu as portas da igreja para os trabalhadores em greve. “A polícia veio e o comandante deles me proibiu de dar o microfone para falarem. Eu disse: ‘Subam nos bancos e falem bem alto para todos ouvirem’. Não deixei de cumprir a ordem”, afirmou.




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