Edição 20.000 Eleito indiretamente para substituir o militar João Figueiredo, mineiro foi internado na véspera da posse e sucumbiu por causa de diverticulite
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“Lamento informar que o excelentíssimo senhor presidente da República Tancredo de Almeida Neves faleceu nesta noite no Instituto do Coração às 22h23”. O anúncio do secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, Antonio Brito, às 22h31 do dia 21 de abril de 1985 e reproduzido pelo Diário no dia seguinte, edição 5.806, encerrou de forma frustrante a batalha de 39 dias pela vida de Tancredo de Almeida Neves, eleito indiretamente presidente do Brasil pelo Colégio Eleitoral no fim da ditadura militar no País.
O político mineiro havia sido internado no dia 14 de março, véspera da posse, com fortes dores abdominais, com diagnóstico inicial de apendicite. ‘Tancredo Neves operado às pressas’, destacou o jornal na capa do dia 15 de março, edição 5.774. A situação gerou divergências entre juristas. Enquanto alguns defendiam a tese de que o vice (José Sarney) deveria assumir o cargo, outros consideravam que, pelo fato de Neves não ter sido empossado, a faixa presidencial precisaria ser transferida ao presidente da Câmara, Ulysses Guimarães. O quadro do mineiro se agravou com o decorrer das semanas e a morte ocorreu por complicações de diverticulite.
A situação gerou consternação entre políticos e a população, que acompanhava diariamente – in loco ou pelos noticiários na TV, rádio ou jornal impresso – informações sobre o estado de saúde de Tancredo. Falando da presidência da Câmara, em Brasília, Ulysses Guimarães referiu-se à morte do companheiro “como a perda do grande e apaixonado amigo do Brasil”. Foi assim que o Diário noticiou a repercussão da passagem dele no dia 22 de abril de 1985.
O então deputado Prisco Viana, então líder do PDS, afirmou que o sacrifício de Tancredo não foi em vão. “Uniu os brasileiros: a Nação amadureceu politicamente; os partidos e seus líderes revelaram-se capazes para sustentar a ordem constitucional, a legalidade e a integridade do Poder Civil”.
O anúncio do óbito atraiu centenas de pessoas às imediações do Instituto do Coração, que desde o início da noite esteve cercado por cordão de isolamento feito pela Polícia Militar e pela Polícia do Exército. Além de choro e lamentação, os populares cantaram o Hino Nacional.
Apesar de não ter assumido a Presidência, o eleito deixou como legado programa de governo apresentado aos jornalistas dois meses antes de ir a óbito. Entre as propostas dele estavam, primeiro, mudar a mentalidade; segundo, o comportamento; terceiro, o estilo de governo; e quarto, de acatamento a todos os direitos e liberdades democráticos.
Os moradores de São Paulo fizeram questão de se despedir do mineiro. ‘Multidão nas ruas dá adeus a Tancredo’ foi a manchete do Diário da terça-feira, dia 23 de abril. O texto detalhou a emoção dos paulistas durante o cortejo entre o hospital e o aeroporto de Congonhas, de onde o corpo seguiu a Brasília antes de ser levado a São João Del Rey, em Minas Gerais, onde foi sepultado.
Fernando Collor de Mello caiu nas graças da população brasileira em 1989 ao se tornar o primeiro chefe da Nação eleito diretamente no pós-ditadura militar. Filiado ao PRN, o carioca derrotou o petista Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno do pleito, e o Diário registrou o momento histórico em edição extra, número 7.252, com a manchete ‘Fernando Collor de Mello é o presidente da República’.
O texto se baseou em estimativas de boca-de-urna dos principais institutos de pesquisa que registraram de maneira uniforme índices que indicavam vantagem de Collor. Ao fim da apuração, o vencedor somou 35 milhões de votos, contra 31 milhões do segundo colocado. Na posse, como detalharam Fernando Zamith e Walter Venturini, enviados pelo jornal à cerimônia da posse em 15 de março de 1990, a promessa de liquidar a inflação.
O primeiro presidente no pós-ditadura chegou a ser apelidado de o ‘caçador de marajás’, pois ainda durante a campanha ao Palácio do Planalto prometeu enquadrar funcionários públicos com altos salários. A iniciativa perdeu relevância já no segundo dia de mandato, 16 de março de 1990, quando a então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, anunciou o Plano Collor, conjunto de medidas econômicas do governo federal para o combate à inflação.
Entre as principais propostas estava o confisco da poupança, decisão que gerou muita polêmica. ‘Collor faz reforma radical na economia e corta gasto público’, manchetou o jornal na edição 7.329, um dia depois. O congelamento de preços e salários e a troca do cruzado novo pelo cruzeiro – além da abertura comercial do País – também foram destacados na reportagem.
Mas denúncias de esquema de corrupção e tráfico de influências – que envolviam o empresário Paulo César Farias, chefe de campanha do líder e que foi assassinado em 1996, – feitas por Pedro, irmão de Collor, em 1992, levaram o presidente ao afastamento em outubro do mesmo ano, com o vice Itamar Franco assumindo provisoriamente o comando do País. Em 29 de dezembro, quando seria julgado o impeachment pelo Senado, Collor renunciou. ‘Itamar Franco é o novo presidente’, destacou o Diário em sua notícia principal.
A publicação também destacou a quase total indiferença dos prefeitos da região com a decisão do ex-comandante da Nação, como informaram as repórteres Lara Fidelis e Tuga Martins na edição 8.270. “Fernando Collor renunciou num momento em que não tinha mais respaldo algum junto à opinião pública e quando a sua equipe de governo mergulhou o País no caos. A renúncia veio tarde”, disse à época Luiz Olinto Tortorello, chefe do Executivo de São Caetano. “A renúncia foi o coroamento de todo o processo de esbulho da Nação”, afirmou Maurício Soares, prefeito de São Bernardo.
Apesar de ter renunciado, Collor foi julgado pelo Senado e considerado inelegível por oito anos.
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