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Brasil vive 39 dias de angústia e tensão até a morte de Tancredo

Eleito indiretamente para substituir o militar João Figueiredo, mineiro foi internado na véspera da posse e sucumbiu por causa de diverticulite

Angelo Verotti
28/11/2025 | 10:00
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FOTO: Reprodução Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


“Lamento informar que o excelentíssimo senhor presidente da República Tancredo de Almeida Neves faleceu nesta noite no Instituto do Coração às 22h23”. O anúncio do secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, Antonio Brito, às 22h31 do dia 21 de abril de 1985 e reproduzido pelo Diário no dia seguinte, edição 5.806, encerrou de forma frustrante a batalha de 39 dias pela vida de Tancredo de Almeida Neves, eleito indiretamente presidente do Brasil pelo Colégio Eleitoral no fim da ditadura militar no País.

O político mineiro havia sido internado no dia 14 de março, véspera da posse, com fortes dores abdominais, com diagnóstico inicial de apendicite. ‘Tancredo Neves operado às pressas’, destacou o jornal na capa do dia 15 de março, edição 5.774. A situação gerou divergências entre juristas. Enquanto alguns defendiam a tese de que o vice (José Sarney) deveria assumir o cargo, outros consideravam que, pelo fato de Neves não ter sido empossado, a faixa presidencial precisaria ser transferida ao presidente da Câmara, Ulysses Guimarães. O quadro do mineiro se agravou com o decorrer das semanas e a morte ocorreu por complicações de diverticulite. 

A situação gerou consternação entre políticos e a população, que acompanhava diariamente – in loco ou pelos noticiários na TV, rádio ou jornal impresso – informações sobre o estado de saúde de Tancredo. Falando da presidência da Câmara, em Brasília, Ulysses Guimarães referiu-se à morte do companheiro “como a perda do grande e apaixonado amigo do Brasil”. Foi assim que o Diário noticiou a repercussão da passagem dele no dia 22 de abril de 1985. 

O então deputado Prisco Viana, então líder do PDS, afirmou que o sacrifício de Tancredo não foi em vão. “Uniu os brasileiros: a Nação amadureceu politicamente; os partidos e seus líderes revelaram-se capazes para sustentar a ordem constitucional, a legalidade e a integridade do Poder Civil”.

O anúncio do óbito atraiu centenas de pessoas às imediações do Instituto do Coração, que desde o início da noite esteve cercado por cordão de isolamento feito pela Polícia Militar e pela Polícia do Exército. Além de choro e lamentação, os populares cantaram o Hino Nacional. 

Apesar de não ter assumido a Presidência, o eleito deixou como legado programa de governo apresentado aos jornalistas dois meses antes de ir a óbito. Entre as propostas dele estavam, primeiro, mudar a mentalidade; segundo, o comportamento; terceiro, o estilo de governo; e quarto, de acatamento a todos os direitos e liberdades democráticos.

Os moradores de São Paulo fizeram questão de se despedir do mineiro. ‘Multidão nas ruas dá adeus a Tancredo’ foi a manchete do Diário da terça-feira, dia 23 de abril. O texto detalhou a emoção dos paulistas durante o cortejo entre o hospital e o aeroporto de Congonhas, de onde o corpo seguiu a Brasília antes de ser levado a São João Del Rey, em Minas Gerais, onde foi sepultado.

Eleito diretamente pelo povo, ‘caçador de marajás’ deixa Presidência em 92

Fernando Collor de Mello caiu nas graças da população brasileira em 1989 ao se tornar o primeiro chefe da Nação eleito diretamente no pós-ditadura militar. Filiado ao PRN, o carioca derrotou o petista Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno do pleito, e o Diário registrou o momento histórico em edição extra, número 7.252, com a manchete ‘Fernando Collor de Mello é o presidente da República’.

O texto se baseou em estimativas de boca-de-urna dos principais institutos de pesquisa que registraram de maneira uniforme índices que indicavam vantagem de Collor. Ao fim da apuração, o vencedor somou 35 milhões de votos, contra 31 milhões do segundo colocado. Na posse, como detalharam Fernando Zamith e Walter Venturini, enviados pelo jornal à cerimônia da posse em 15 de março de 1990, a promessa de liquidar a inflação. 

O primeiro presidente no pós-ditadura chegou a ser apelidado de o ‘caçador de marajás’, pois ainda durante a campanha ao Palácio do Planalto prometeu enquadrar funcionários públicos com altos salários. A iniciativa perdeu relevância já no segundo dia de mandato, 16 de março de 1990, quando a então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, anunciou o Plano Collor, conjunto de medidas econômicas do governo federal para o combate à inflação. 

Entre as principais propostas estava o confisco da poupança, decisão que gerou muita polêmica. ‘Collor faz reforma radical na economia e corta gasto público’, manchetou o jornal na edição 7.329, um dia depois. O congelamento de preços e salários e a troca do cruzado novo pelo cruzeiro – além da abertura comercial do País – também foram destacados na reportagem.

Mas denúncias de esquema de corrupção e tráfico de influências – que envolviam o empresário Paulo César Farias, chefe de campanha do líder e que foi assassinado em 1996, – feitas por Pedro, irmão de Collor, em 1992, levaram o presidente ao afastamento em outubro do mesmo ano, com o vice Itamar Franco assumindo provisoriamente o comando do País. Em 29 de dezembro, quando seria julgado o impeachment pelo Senado, Collor renunciou. ‘Itamar Franco é o novo presidente’, destacou o Diário em sua notícia principal. 

A publicação também destacou a quase total indiferença dos prefeitos da região com a decisão do ex-comandante da Nação, como informaram as repórteres Lara Fidelis e Tuga Martins na edição 8.270. “Fernando Collor renunciou num momento em que não tinha mais respaldo algum junto à opinião pública e quando a sua equipe de governo mergulhou o País no caos. A renúncia veio tarde”, disse à época Luiz Olinto Tortorello, chefe do Executivo de São Caetano. “A renúncia foi o coroamento de todo o processo de esbulho da Nação”, afirmou Maurício Soares, prefeito de São Bernardo.

Apesar de ter renunciado, Collor foi julgado pelo Senado e considerado inelegível por oito anos.




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