Edição 20.000 A cobertura dos fatos em uma das regiões mais importantes do País ajudou a forjar a trajetória de grandes profissionais da imprensa escrita, TVs, rádios e, posteriormente, da mídia digital
FOTO: Reprodução

Muitos foram os profissionais que passaram pela Redação do ‘Diário’ ao longo de 67 anos de história. Jornalistas que fizeram história em grandes veículos de comunicação nacionais e internacionais, com carreiras consolidadas, mas que sempre se referem ao ‘Diário’ como sua grande escola de jornalismo, independentemente da época em que atuaram no jornal.
A cobertura dos fatos em uma das regiões mais importantes do País ajudou a forjar a trajetória de grandes profissionais da imprensa escrita, TVs, rádios e, posteriormente, da mídia digital.
Nesta página, três deles – Cleide Silva, Marli Olmos e Walmir Salaro – revelam suas experiências no período em que integraram a equipe do ‘Diário’. Cada um em sua área, eles se destacaram, fizeram a diferença, ganharam prêmios e colocaram seus nomes na história do jornalismo do País.
Eu sempre ouvi dizerem que o Diário do Grande ABC era uma escola. Para mim, o tempo que passei nessa redação foi mais do que uma escola de jornalismo. Foi uma lição de vida.
A começar pela forma respeitosa como fui recebida, ainda recém-formada, em 1984. Trabalhar no Diário era o sonho de quem havia estudado jornalismo e morava no Grande ABC. Ter o respaldo de toda uma equipe já experiente, que esbanjava garra e paixão a cada pauta cumprida me serviu de estímulo desde o primeiro dia.
A vida me levou para a área econômica. A primeira oportunidade de trabalho foi na cobertura da área sindical. Durante as férias do jornalista que cobria o setor no Diário. Ao retornar, ele foi para outro trabalho e eu fui efetivada.
A especialização nessa área de cobertura numa região de sindicalismo efervescente me abriu o caminho que me levou para a sucursal do Estadão no Grande ABC e, ali mesmo, depois, para a cobertura da indústria automobilística, setor que acompanho até hoje.
Foram poucos os postos de comando e de edição que assumi ao longo da carreira. Alguns no Grupo Estado, onde trabalhei mais de 12 anos. Poucos no Valor Econômico, onde estou desde a fundação do jornal, em 2000. E posso dizer, com convicção, que foi no Diário que tomei o gosto pela reportagem, que segue comigo.
Igualmente foi nos tempos do Diário que aprendi sobre a necessidade de encarar pautas de diferentes setores, saber como me preparar para a entrevista de um assunto sobre o qual eu nada sabia. O exercício da flexibilidade no início da carreira me ensinou a lidar com o imprevisto.<EM>
Sempre encontro jornalistas que passaram pelo Diário e seguem na profissão Demonstram, todos, a mesma convicção e vocação do início da carreira.
Vivemos um tempo em que o jornalismo parece ter se acomodado em incertezas em torno da profissão. Seremos ainda os melhores contadores de histórias, os melhores comunicadores dos fatos numa sociedade anestesiada pela informação que chega por meios duvidosos, muitas vezes falsos?
Nesse cenário, a publicação número 20.000 do Diário é um alento. Mais do que um marco histórico, essa edição carrega a esperança de que o jornalismo pode ser vencedor e servir de guia para as transformações das sociedades democráticas.
Cheguei ao Diário do Grande ABC em agosto de 1988, indicada pelo amigo Edmilson Zanetti para a editoria de Cidades. Fiz um teste e fui aprovada! Totalmente ‘foca’ (inexperiente) no jornalismo diário, pois, até então, havia trabalhado em mídias semanais e feito frilas para a Folha de S.Paulo. No primeiro dia, me apresentei na editoria, mas fui comunicada de que a vaga já tinha sido preenchida e que eu deveria ir para a Economia. Fiquei apavorada. Não entendia nada desse setor, mas o editor Thomaz foi direto: “você vai aprender”.
E, de fato, aprendi muito com ele e com outros editores e editoras com quem trabalhei. Comecei cobrindo a área sindical, muito agitada naquele período e, por várias vezes, entrevistei, já como deputado, o hoje presidente Lula. Creio que uns três anos depois, fui transferida para a cobertura da indústria automobilística, com a saída da colega que acompanhava o setor. Gelei novamente.
Claro que acompanhava o segmento, principalmente nos períodos de greve ou de negociações trabalhistas, mas nunca tinha falado com um executivo do setor, feito matérias sobre investimentos e automóveis nem acompanhado as coletivas da Anfavea, que distribuía um folheto cheio de números – fiquei totalmente perdida na primeira vez.
Ia para os lançamentos de automóveis e sempre me escondia quando começavam a distribuir os carros para os jornalistas fazerem testes: eu não sabia dirigir nem tinha CNH, e me sentia envergonhada de confessar isso.
Ao todo, fiquei sete anos no Diário, que foi minha grande escola de jornalismo real pós faculdade de Comunicação. Saí do jornal para uma experiência de quase quatro anos como editora de Economia no Diário do Povo, em Campinas, a convite do companheiro de Diário, João Paulo Soares.
Em 1997 fui para o Estadão, para novamente acompanhar o setor automotivo, já com CNH e toda a experiência da cobertura na região que era o maior polo automotivo brasileiro. Lá permaneci por 27 anos, até deixar o jornalismo diário ano passado.
Sigo fazendo frilas. Nessas mais de duas décadas, ganhei vários prêmios importantes. E tudo começou no Diário, jornal que se mantém como referência até hoje, mesmo com toda a concorrência da grande imprensa e do ‘jornalismo’ de TikTok.
Meu primeiro emprego como repórter de polícia aconteceu no Diário do Grande ABC, entre 1977 e 1980. Foi ali que eu aprendi, na marra, o peso e a responsabilidade de cobrir violência num país que já convivia com números altos nos índices de criminalidade. De lá para cá, não parei mais; são 45 anos testemunhando o avanço brutal do crime e da violência no Brasil.
Quero lembrar e destacar os nomes de dois jornalistas (grandes repórteres) que marcaram profundamente essa primeira fase na cobertura policial: Renato Campos (editor da área policial) que me ensinou a ouvir antes de falar – um gesto simples que muda qualquer reportagem. E Anselmo Barbosa, que me mostrou como transformar um BO (Boletim de Ocorrência) em história humana, com respeito e precisão.
Eles foram meus mestres. Tenho muita saudade desses dois amigos. Eu era jovem, cheio de dúvidas, mas aqueles anos no Diário foram a base de tudo que veio depois na minha carreira de repórter de polícia (hoje se referem a nós como jornalistas investigativos).
Descobri que jornalismo não é apenas relatar fatos. É entender pessoas. Sentir a dor delas num momento dramático. É ter coragem, mesmo diante do medo constante de cobrir essa área, além de humildade e reconhecer o erro imediatamente.
Devo muito ao Renato, ao Anselmo e aos amigos da Redação do Diário.
Presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, o jornalista, escritor e professor universitário João Palmeiro produziu texto no qual destaca a importância de o Diário chegar à edição 20.000. Ele também elogia a coluna Memória, assinada pelo jornalista e historiador Ademir Medici há 38 anos.
Confira o texto:
Estudando o papel e o impacto dos jornais centenários na sua comunidade, descobri que para além do número de anos de publicação, a quantidade de edições publicadas e distribuídas assumia também um papel fundamental para a preservação da memória coletiva e o seu contributo para o fortalecimento da liberdade de imprensa. E por essa via, para o fortalecimento da democracia. Um jornal semanário, em 100 anos publica 5.200 edições e um, mensário 1.200 edições…
Vinte mil exemplares significam que o Diário Grande ABC entrou para o clube dos milionários que já publicaram mais de 1 milhão de páginas de notícias, de informação útil e reconhecida pelos seus leitores; significa também que o jornal entrou para uma corrida de fundo, pois os seus exemplares, juntos, estendem se por mais de 10 quilômetros.
Hoje no mundo digital estas cifras parecem impressionar menos, mas, sem elas, os gigas, os teras que agrupam a informação diariamente e digitalmente publicada não teriam memória, não teriam passado e seriam com uma simples referência do momento.
A crônica Memória de que agora perfaz quase 40 anos de publicação continuada é um outro caso de referência na importância da continuidade do fluxo informativo, podendo comparar-se a relação que Gilberto Freyre teve com o ‘Diário de Pernambuco’ ao longo da sua vida literária e de pensamento que se com funde com o jornal.
Festejar os anos de vida de um jornal é muito mais que reconhecer o êxito empresarial de uma instituição, é sublinhar o seu contributo social e afirmar que a memória de que guardião enfrenta desafios tão importantes quanto a liberdade de informar justifica o jubilo do aniversário. Preservar é agora, no mundo digital mais importante e necessário ainda.
Por isso referenciar 20.000 edições e os quase 40 anos de uma crônica (ainda por cima chamada Memória) bem poderá valer o reconhecimento de estar a caminho de ser uma Memória do Mundo.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.