Mais gestão, menos polarização Titulo Mais Gestão, menos polarização

O mau exemplo que vem de cima

Paulo Serra
08/02/2026 | 11:19
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Seri Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A volta dos trabalhos do Congresso Nacional deveria ser marcada por debates estruturantes, responsabilidade fiscal e compromisso com o país real; aquele vivido diariamente por milhões de brasileiros e brasileiras. No entanto, o que se viu foi exatamente o oposto: a aprovação de reajustes salariais absurdos para servidores do próprio Congresso e a criação de uma escala de trabalho mais curta e flexível do que a enfrentada pelo trabalhador comum. Um gesto que escancara uma desconexão preocupante entre representantes e representados.

É preciso dizer com clareza: valorizar o servidor público é fundamental. Um Estado eficiente, profissional e comprometido com políticas públicas de qualidade depende de servidores bem formados, motivados e justamente remunerados. O debate sobre mérito, desempenho e valorização da carreira pública é legítimo e necessário. Mas uma coisa é fortalecer o serviço público; outra, bem diferente, é criar uma elite do funcionalismo, blindada da realidade econômica e social do país.

Quando o Congresso aprova aumentos salariais e condições especiais para si mesmo, enquanto grande parte da população enfrenta jornadas extensas, salários comprimidos, informalidade e insegurança econômica, o sinal enviado à sociedade é devastador. Cria-se um fosso entre o Brasil oficial e o Brasil real. Um país onde poucos têm privilégios garantidos por lei e muitos lutam diariamente para fechar as contas no fim do mês.

O problema se agrava ainda mais quando se observa o contexto fiscal. O Brasil enfrenta desafios evidentes para equilibrar suas contas públicas, controlar gastos e retomar um crescimento sustentável. Nesse cenário, a manutenção — e ampliação, de supersalários e benefícios corporativos não é apenas inoportuna; é irresponsável. Ajuste fiscal não pode ser discurso para alguns e exceção para outros. Ou vale para todos, ou perde completamente sua legitimidade.

Além disso, o exemplo importa. Deputados e senadores não são apenas legisladores; são referências simbólicas. Quando escolhem o caminho do privilégio, enfraquecem a autoridade moral necessária para cobrar sacrifícios, reformas ou responsabilidade de estados, municípios, empresários e trabalhadores. Como exigir produtividade, eficiência e comprometimento do país se o próprio Parlamento se coloca acima dessas exigências?

A criação de uma escala de trabalho mais curta e flexível do que a do trabalhador comum aprofunda essa distorção. Não se trata de negar avanços nas relações de trabalho ou modelos mais modernos de gestão. Mas por que tais benefícios não começam pelo conjunto da sociedade? Por que não discutir jornadas mais humanas para todos, e não apenas para os que já estão no topo da pirâmide estatal?

O Brasil precisa, sim, de um serviço público forte. Precisa de servidores valorizados, preparados e respeitados. O que não precisa é de castas, privilégios e ilhas de exceção. Desenvolvimento se constrói com equidade, exemplo e responsabilidade, especialmente de quem legisla.

Ao optar pelo aumento excessivo de salários e pela flexibilização exclusiva de suas próprias estruturas, o Congresso perde a chance de liderar pelo exemplo. E, mais uma vez, afasta-se do país que diz representar.

Mais gestão, menos privilégio. Mais Brasil real, menos Brasil oficial.




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