Saúde de Família & Comunidade Titulo Saúde de Família & Comunidade

Você é ouvido pelo seu médico?

Fabiano Gonçalves Guimarães
15/02/2026 | 07:00
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Muitos dizem que o ano no Brasil começa depois do Carnaval, mas para quem atua no atendimento à população no SUS (Sistema Único de Saúde), ele começa literalmente à meia-noite do dia primeiro de janeiro. Ao atuar como médico de família e comunidade há mais de 25 anos na saúde pública, passei a entender quais são as reais necessidades de saúde de quem realmente precisa de mais que um atendimento médico, mas de um acolhimento, além do olhar profissional. 

As iniquidades em saúde existem e impactam diretamente o bem-estar da população como um todo e isso pode ser desde a falta de saneamento básico, como viver em uma comunidade com esgoto a céu aberto até em áreas dominadas pela violência armada, com constantes conflitos. 

Muitos chegam à consulta para tratar de dores e queixas comuns ou até mesmo para descobrir onde dói. E esse desconforto pode ir além do físico. Sintomas podem mascarar o que o coração e o cérebro estão sentindo e que se refletem diretamente no corpo. Em uma consulta, muitas pessoas recebem o que diariamente lhes é negado: escuta. 

Hoje, com tantas interrupções, distrações e vícios digitais, como redes sociais e mensagens instantâneas, além de filmes, séries e vídeos que podem ser acessados em qualquer hora e lugar, a atenção plena nas pessoas, principalmente as mais próximas, que até moram na mesma casa, pode ser a menos eficiente. 

É durante a consulta que muitas pessoas desabafam angústias e ganham até mesmo o único abraço e atenção do dia, um aperto de mão, um toque. Esse contato é tão importante que muitos médicos mudaram o formato das salas de atendimento, colocando a mesa na parede, deixando o espaço entre a cadeira do médico e do paciente livre, sem nenhum objeto que impeça uma comunicação mais plena e promova um maior contato. 

Esse método auxilia uma maior troca, não colocando o profissional médico como o único detentor do saber, afinal, quem sabe mais do próprio corpo do que o paciente? Ao ter uma troca de informações mais acolhedora, facilita com que a relação médico-paciente chegue a uma conclusão a partir do que chamamos na Medicina de decisão compartilhada. 

A escuta médica, inclusive, é tema de diversos estudos e alguns deles indicam que a forma como o profissional de saúde acolhe as demandas daquela consulta e atende as demandas psicossociais que vêm acompanhadas das queixas físicas impacta diretamente em como o paciente irá se sentir após o atendimento. Essa informação, entre outras, é tema do artigo científico ‘Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da Atenção Primária’, publicado na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. 

E mesmo que o paciente não saiba se expressar, dar abertura e deixá-lo confortável por aquele que está atendendo é fundamental para o reconhecimento daquilo que o está adoecendo, além daquela necessidade de saúde primária em busca da consulta. 

Abordar esse tópico na consulta pode resolver uma parte da demanda clínica, que talvez, com medicamentos e tratamentos anteriores, não tenham mostrado resultado. Essa abordagem pode melhorar suas condições de saúde e, consequentemente, sua qualidade de vida. Você tem conseguido expressar suas emoções e, por meio delas, atribuir suas condições de saúde a seu médico? 




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