Mais gestão,menos polarização O Brasil atravessa um momento delicado. Todos os dias somos impactados por notícias de violência: feminicídios, agressões, intolerância nas redes sociais, conflitos que saem do campo das ideias e vão para o campo físico. A sociedade cobra leis mais duras, penas mais rigorosas, respostas firmes do Estado. Mas, nesta semana, o que vimos no próprio Congresso Nacional, mais especificamente no Senado Federal, foi exatamente o oposto do que se espera de uma Casa que deveria simbolizar equilíbrio, diálogo e maturidade institucional.
Após a aprovação de um requerimento da oposição, a cena que tomou conta do plenário foi de empurrões, gritos e agressões físicas. E aqui não se trata de discutir quem estava certo ou errado no mérito da votação. Não se trata de esquerda ou direita, governo ou oposição. Trata-se de algo muito maior: o exemplo.
O Parlamento é, por definição, o espaço do debate. A palavra ‘parlamento’ vem do verbo ‘parlar’: falar. É o ambiente onde conflitos devem ser resolvidos por meio do argumento, da negociação, da construção de consensos possíveis. Quando o embate político ultrapassa a linha do respeito e se transforma em agressão física, o que se comunica para a sociedade é devastador: comunica-se que a força pode substituir a razão.
Vivemos um país que registra números alarmantes de violência contra a mulher. O feminicídio cresce. A violência doméstica segue como uma chaga aberta. Cobramos do Judiciário mais rigor, do Executivo mais políticas públicas, do Legislativo leis mais duras. Mas como exigir mudança de comportamento social se a própria cúpula política naturaliza a agressividade como instrumento de disputa?
O Congresso Nacional não é apenas um espaço de votação de projetos. Ele é um símbolo. Cada gesto ali dentro reverbera para milhões de brasileiros. Quando parlamentares se empurram, gritam e partem para o confronto físico, o que se ensina é que perder um voto justifica perder o controle. E isso é extremamente perigoso.
Democracia não é unanimidade. Democracia é convivência com o dissenso. É saber que o outro pensa diferente e, ainda assim, reconhecer sua legitimidade. É entender que o mandato não é propriedade pessoal, mas uma delegação da sociedade. E delegação exige responsabilidade.
Num país que já enfrenta polarização excessiva, estimular comportamentos agressivos no topo da estrutura institucional apenas reforça a cultura do conflito permanente. A violência, mesmo que episódica, quando parte de quem deveria representar equilíbrio, deixa de ser um episódio isolado e passa a ser um sinal preocupante de erosão civilizatória.
Se queremos construir uma cultura de paz, ela precisa começar pelas lideranças. Se queremos que crianças aprendam a resolver conflitos pelo diálogo, os adultos que ocupam os cargos mais altos da República precisam demonstrar exatamente isso. O exemplo é pedagógico ; para o bem ou para o mal.
O Brasil precisa de mais firmeza nas ideias, mas também de mais serenidade nas atitudes. Divergência é saudável. Agressão não é. O Parlamento deve ser o templo da palavra, não o palco da violência.
Fica a pergunta inevitável: como cobrar respeito nas ruas se ele falta no plenário? Como exigir harmonia social se a própria Casa das leis falha em praticá-la?
O País precisa de leis mais eficazes, sim. Mas precisa, sobretudo, de exemplos melhores. Porque a transformação cultural começa no comportamento de quem lidera.
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