Mais gestão, menos polarização
Seri/DGABC

A humanidade vive, talvez, o seu momento mais paradoxal. Nunca fomos tão capazes de avançar, e nunca estivemos tão expostos à nossa própria capacidade de retroceder.
De um lado, a ciência rompe fronteiras que, até pouco tempo atrás, pertenciam apenas ao campo da imaginação. A recente missão Artemis, que recoloca a humanidade na órbita da Lua, não é apenas um feito tecnológico: é um símbolo. Representa a retomada de um sonho interrompido desde a época do Apollo 11, inaugura uma nova etapa: a possibilidade concreta de estabelecer presença humana permanente fora da Terra.
Hoje, já se fala com seriedade sobre bases lunares, exploração de recursos, identificação de água em estado sólido e, mais do que isso, sobre a preparação para missões tripuladas a Marte. A humanidade olha para o céu não mais como limite, mas como destino. A tecnologia, a engenharia e o conhecimento acumulado nos colocam diante de uma fronteira inédita: a de nos tornarmos uma espécie multiplanetária.
Mas é justamente nesse ponto que o contraste se torna inevitável.
Enquanto desenvolvemos tecnologias capazes de nos levar a outros mundos, seguimos incapazes de resolver conflitos neste. Em pleno século XXI, ainda convivemos com guerras devastadoras, como a Russia - Ucrânia que expõe ao mundo imagens que lembram os períodos mais sombrios da história recente. Mais recentemente, tensões envolvendo o Irã reacendem o temor de novos conflitos de larga escala, mostrando que a lógica da destruição ainda ocupa espaço relevante nas decisões humanas.
Esse é o paradoxo central: a mesma humanidade que domina a física necessária para sair da Terra ainda não domina, plenamente, os impulsos que a levam a destruir o próprio semelhante. Somos capazes de construir foguetes reutilizáveis, desenvolver inteligência artificial, mapear o genoma humano — mas ainda falhamos em estabelecer consensos mínimos que garantam paz duradoura.
A contradição não é apenas moral; ela é estratégica. Cada conflito armado representa não apenas vidas perdidas, mas também recursos desviados. Recursos que poderiam estar financiando educação, inovação, saúde ou, até mesmo, a própria exploração espacial. Em vez disso, são consumidos em disputas que, na maioria das vezes, têm raízes em interesses geopolíticos, econômicos ou ideológicos que poderiam ser resolvidos por meio do diálogo.
Mais do que isso: guerras atrasam a humanidade como um todo. Elas interrompem cadeias produtivas, destroem infraestrutura, desorganizam sociedades e criam gerações marcadas por traumas. Em um mundo interconectado, os efeitos de um conflito não ficam restritos às suas fronteiras; eles impactam economias, elevam preços, geram instabilidade global.
É como se estivéssemos, ao mesmo tempo, construindo o futuro e sabotando o presente. A história mostra que os maiores saltos civilizatórios ocorreram em ambientes de relativa estabilidade e cooperação.
O próprio avanço científico que hoje nos permite sonhar com Marte é fruto de décadas de investimento contínuo, colaboração internacional e previsibilidade institucional. Não há inovação sustentável em meio ao caos permanente.
Por isso, o verdadeiro desafio da humanidade talvez não seja tecnológico, mas civilizatório. Não está apenas em chegar à Lua ou a Marte, mas em sermos capazes de criar as condições políticas, sociais e culturais para que esses avanços façam sentido coletivo.
Explorar o espaço é, sem dúvida, uma das maiores expressões da nossa capacidade. Mas garantir a paz é a maior prova da nossa maturidade.
Se conseguirmos alinhar essas duas dimensões, o avanço científico e a evolução humana, estaremos, de fato, prontos para dar o próximo passo. Caso contrário, corremos o risco de levar para outros planetas os mesmos conflitos que ainda não conseguimos resolver aqui.
O futuro da humanidade não depende apenas de até onde podemos chegar, mas, principalmente, de como escolhemos conviver enquanto caminhamos.
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