Preservação Especialistas alertam para desinformação sobre espécies essenciais à produção de alimentos e à preservação ambiental
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC

O Brasil abriga uma das maiores biodiversidades de abelhas do planeta, incluindo centenas de espécies nativas sem ferrão. Apesar disso, muitas ainda são desconhecidas pela população, que costuma relacionar qualquer enxame a risco imediato. Em meio ao avanço das mudanças climáticas e da perda da biodiversidade, pesquisadores relatam ao Diário que a desinformação sobre esses insetos prejudica diretamente a preservação de espécies essenciais para a produção de alimentos, manutenção das florestas e equilíbrio ambiental. A reflexão ganha força no Dia Mundial das Abelhas, celebrado nesta quarta-feira (20).
A bióloga Mari Arena, doutora em Ecologia pela USP (Universidade de São Paulo), explica que o impacto das abelhas vai muito além da produção de mel. Segundo ela, cerca de 75% da produção mundial de alimentos depende da polinização feita por animais. “As abelhas contribuem para a produção de alimentos não só em quantidade, mas em qualidade também. Sabe quando você pega um morango feio, deformado, ao invés do formatinho padrão? Essa má formação é resultado de uma polinização ‘mal feita’, ou incompleta”, afirma.
Mari também destaca que ainda existe muito desconhecimento sobre as espécies sem ferrão, comuns no Brasil, e que a imagem mais popular continua sendo a da abelha com listras amarelas e ferrão. “As menores, conhecidas como mirins, medem cerca de 3 a 5 milímetros, enquanto as maiores, como as meliponas, passam de 2 centímetros. Essas variações influenciam a distância que a abelha consegue voar, o tipo de flor que vai visitar e até as sensibilidades a fatores ambientais, como temperatura e umidade”, explica.
Segundo a pesquisadora, o avanço das cidades afeta diretamente as populações de abelhas, principalmente pela perda de áreas verdes e de espaços para construção dos ninhos. “Muitas abelhas sem ferrão precisam de árvores com troncos largos, que oferecem um espaço oco em seu interior. Essa mudança na paisagem faz com que espécies mais especialistas deixem de habitar esses espaços”, alerta.
PRESERVAÇÃO
De São Bernardo, o graduando em Ciências Biológicas Heitor Rossi Engelmann, 22 anos, afirma que o medo ainda leva à destruição de ninhos e colônias inteiras.“Muitas vezes, qualquer enxame é visto como uma ameaça imediata, quando na realidade a maioria das espécies brasileiras são extremamente pacíficas”, diz.
Fundador da iniciativa Bee My Guardian, voltada à preservação das abelhas nativas brasileiras, Heitor atua em projetos de educação ambiental e conscientização sobre polinização. Segundo ele, um dos maiores mitos é acreditar que as abelhas servem apenas para produzir mel.
Ele também chama atenção para a diversidade brasileira de espécies nativas. “O Brasil é um dos países com maior diversidade de abelhas nativas do mundo. Espécies como a jataí e a mandaçaia coexistem muito bem em ambientes urbanos e têm papel fundamental na polinização”, afirma.
Um dos projetos desenvolvidos pela Bee My Guardian aconteceu no Batistini, em São Bernardo, por meio do projeto Colmeias Urbanas. A iniciativa promoveu oficinas sobre manejo de abelhas sem ferrão e preservação ambiental para comunidades locais, incluindo mulheres indígenas da região.
Mesmo em áreas urbanizadas como o Grande ABC, o especialista afirma que ainda existe espaço para proteger os polinizadores. Entre as ações recomendadas estão o plantio de espécies floríferas, redução do uso de pesticidas e incentivo à meliponicultura urbana. “As próprias prefeituras podem incentivar projetos de jardinagem urbana voltados para polinizadores, criação de corredores ecológicos e programas educativos em escolas”, sugere Heitor.
FUTURO
A preocupação com o futuro das abelhas também desperta interesse entre jovens que estão entrando na área da biologia. Estudante de Ciências Biológicas da UFABC (Universidade Federal do ABC), a andreense Steffany Tessari Siqueira, 22, afirma que estudar esses insetos ajuda a compreender os desafios ambientais atuais. “As abelhas são muito importantes para a polinização e a reprodução da flora, o que impacta significativamente nas mudanças climáticas que estão ocorrendo com grande intensidade”, afirma.
Para Steffany, o medo ainda fala mais alto em muitos casos porque falta informação sobre o papel ecológico desses insetos. “As pessoas ainda têm uma visão ruim sobre elas, como se quisessem nos machucar propositalmente, não dando a oportunidade de conhecer mais esse inseto e sua importância ambiental”, diz. Para ela, é necessário ampliar o acesso à informação para mudar essa percepção nas próximas gerações e fortalecer a preservação das espécies.
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