Saúde de Família & Comunidade
ARTE: Fernandes

Saber lidar com os sentimentos, principalmente aqueles considerados negativos, é uma das tarefas mais difíceis, mesmo para nós adultos. Angústia, tristeza, melancolia, raiva, ansiedade e medo fazem parte do cotidiano em todos os ambientes onde convivemos: escola, trabalho e até dentro de casa.
Na infância, comportamentos considerados excessivos, como excesso de choro ou gritos costumam indicar desconforto diante de uma situação. Muitas vezes, aquela é a única forma de expressão possível para alguém que ainda não aprendeu a reconhecer e nomear o que sente.
Há diversas consequências quando emoções são guardadas e internalizadas sem espaço para expressão. Esse acúmulo pode provocar manifestações físicas, emocionais e até explosivas. No corpo, podem surgir alergias, alterações bruscas de peso, dores musculares e de cabeça, entre outros sintomas.
O amortecimento das emoções também pode aparecer por meio de excessos e vícios. Entre eles estão as dependências relacionadas a substâncias, como bebidas alcoólicas, drogas ilícitas e até a cafeína. O café, muitas vezes visto como inofensivo, quando consumido em excesso, também pode gerar dependência e afetar a qualidade de vida.
Existem ainda os chamados vícios comportamentais, como compulsão alimentar, excesso de trabalho, jogos de azar e eletrônicos, incluindo as bets, exercícios físicos, compras, sexo e pornografia. Muitos desses comportamentos fazem parte da rotina de adultos, mas passam a ser um problema quando deixam de ser escolhas e se tornam obsessões que interferem na vida pessoal, familiar e profissional. Nesses casos, o acompanhamento psicológico é fundamental para evitar maiores prejuízos.
Na vida adulta, com o aumento das responsabilidades, percebemos diariamente que a realidade pode ser dura e desgastante. Tentar anestesiar emoções pode até mascarar temporariamente algumas situações, mas não resolve os problemas em sua origem. Encará-los de frente nem sempre é simples, especialmente quando falta apoio familiar ou redes de acolhimento.
Por isso, buscar acompanhamento psicológico é tão importante. E, ao contrário do que muitos ainda pensam, fazer terapia não significa que alguém “tem problemas”.
A terapia é um espaço de escuta, acolhimento e construção de caminhos possíveis diante das dificuldades da vida.
É um lugar onde se pode falar sem julgamentos e compreender, junto a um profissional, maneiras mais saudáveis de enfrentar os desafios. Mesmo quem não possui condições financeiras pode procurar apoio nas Unidades Básicas de Saúde, que podem oferecer atendimento psicológico ou encaminhamento aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Além do acompanhamento profissional, pequenas atitudes do cotidiano podem ajudar no cuidado com a saúde mental. Descansar, por exemplo, é essencial em uma sociedade que valoriza a produtividade constante. Atividades simples, como praticar exercícios leves, cozinhar, passear com animais de estimação ou aproveitar momentos ao ar livre em parques públicos, podem trazer bem-estar e fortalecer o equilíbrio emocional.
Cuidar da saúde mental não deve ser visto como fraqueza, mas como uma necessidade humana. Reconhecer sentimentos, pedir ajuda e criar espaços de acolhimento são passos importantes para uma vida mais saudável, equilibrada e consciente.
Fabiano Gonçalves Guimarães é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade
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