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O risco que não contam

Bruno Nascimento
29/05/2026 | 09:09
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FOTO: Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A banalização da testosterona talvez seja um dos fenômenos médicos e sociais mais curiosos – e preocupantes – dos últimos anos. Nunca se falou tanto sobre hormônios. Nunca tantos homens discutiram níveis séricos, libido, disposição e composição corporal. Parte disso é positiva. A saúde masculina foi historicamente negligenciada, e reconhecer sintomas de deficiência hormonal verdadeira pode, sim, transformar vidas. Mas existe uma diferença fundamental entre reposição hormonal e abuso hormonal. E essa fronteira vem sendo progressivamente apagada.

Hoje, milhares de jovens saudáveis são expostos a doses suprafisiológicas de testosterona e outras drogas com objetivo exclusivamente estético ou de performance. Não se trata de tratamento médico. Trata-se de protocolos voltados à transformação corporal extrema – frequentemente sustentados por doses agressivas, associações de múltiplas drogas e um mercado extremamente lucrativo.

A honestidade intelectual é essencial nesse debate. Sim: testosterona suprafisiológica (acima do que é normal para o corpo humano) aumenta massa muscular, reduz gordura corporal e pode gerar sensação de energia, disposição e autoconfiança – inclusive reforçando psicologicamente a continuidade do uso. Aumenta a libido. O problema é confundir sensação de bem-estar com saúde.

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Aliás, mantendo a mesma honestidade intelectual, também já está claro que muitos desses efeitos prazerosos são transitórios – e frequentemente seguidos por efeito rebote físico e psicológico após a interrupção do uso. As taxas de queda de libido, infertilidade, hipogonadismo e disfunção erétil após ciclos prolongados são elevadas.

Redes sociais inundam o público com físicos extremos vendidos como sinônimo de saúde, disciplina e sucesso. Pouco se fala sobre infertilidade, dependência psicológica, alterações cardiovasculares, supressão hormonal prolongada, transtornos de humor e a dificuldade que muitos indivíduos enfrentam ao tentar interromper o uso. Como paralelo histórico, é preciso lembrar que a medicina já viveu fenômenos semelhantes com outras drogas. 

Talvez o paralelo mais desconfortável – justamente por isso mais útil – seja com substâncias que também promovem sensação imediata de energia, potência e bem-estar. A cocaína, por exemplo, já foi utilizada medicinalmente no passado e produz, em muitos usuários, aumento de disposição, autoconfiança e sensação subjetiva de alta performance. Nem por isso deixou de ser reconhecida, posteriormente, como uma droga nociva e capaz de gerar dependência e destruição progressiva da saúde.

Evidentemente, testosterona e cocaína possuem mecanismos, contextos e riscos diferentes. Mas o paralelo ajuda a lembrar algo fundamental: sentir-se melhor não é sinônimo automático de estar mais saudável. E alguns efeitos danosos levam tempo para serem percebidos.

Outro ponto merece reflexão: quem lucra com a banalização hormonal? Médicos e sociedades médicas certamente não enriquecem alertando sobre riscos. Já parte dos maiores entusiastas do abuso possui interesses financeiros diretos na manutenção dessa cultura.

É importante deixar claro: testosterona não é vilã. Quando corretamente indicada, investigada e acompanhada, é tratamento legítimo, seguro e extremamente benéfico para homens com hipogonadismo verdadeiro.

O problema começa quando saúde deixa de ser o objetivo – e o corpo passa a ser tratado como produto. A pergunta talvez seja simples: vale a pena transformar a própria saúde em moeda de troca estética? A sociedade ainda está começando a discutir seriamente essa questão.

Bruno Nascimento é urologista e coordenador do Grupo Medicina Sexual e Andrologia da USP (Universidade de São Paulo).




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