Quando a polarização coloca a saúde em risco
ARTE: Fernandes

Vírus não votam. Bactérias não têm partido. Doenças não escolhem ideologia. A saúde pública sempre foi construída sobre aquilo que une as pessoas, e não sobre aquilo que as divide.
Infelizmente, um dos efeitos mais preocupantes da polarização política foi transformar temas técnicos e científicos em campos de batalha ideológica. E poucos exemplos ilustram isso tão bem quanto a queda da cobertura vacinal infantil.
Os dados recentes do Grande ABC acendem um sinal de alerta. Enquanto o Estado de São Paulo registra cobertura vacinal próxima de 74%, nossa região permanece pouco acima dos 70%. Pode parecer uma diferença pequena, mas cada ponto percentual representa milhares de crianças desprotegidas e aumenta o risco da volta de doenças que já estavam praticamente controladas.
É claro que essa redução tem várias causas: dificuldades de acesso, rotina das famílias e desafios dos serviços de saúde. Mas seria ingenuidade ignorar outro fator que ganhou força nos últimos anos: a desinformação e a desconfiança em relação às vacinas, alimentadas por um ambiente de radicalização política.
Durante décadas, vacinar uma criança nunca foi uma questão política. Era um ato de cuidado. Pais e mães levavam seus filhos aos postos de saúde porque confiavam na medicina, nos profissionais de saúde e no Programa Nacional de Imunizações, um dos maiores patrimônios da saúde pública brasileira.
Nos últimos anos, porém, vimos crescer um debate que jamais deveria ter existido. Evidências científicas passaram a disputar espaço com boatos nas redes sociais.
Aquilo que sempre foi consenso virou motivo de conflito.
Esse talvez seja um dos maiores prejuízos da polarização: quando tudo vira disputa política, até aquilo que salva vidas passa a ser questionado.
A pandemia da Covid-19 deixou essa lição de forma muito clara. Vivemos um dos momentos mais difíceis da nossa história. Construímos hospitais de campanha, ampliamos leitos, reorganizamos os serviços de saúde, utilizamos máscaras e adotamos inúmeras medidas para proteger a população.
Tudo isso foi importante.
Mas a grande virada aconteceu quando a vacinação em massa começou. Foi ela que reduziu internações, diminuiu os casos graves, salvou milhares de vidas e permitiu que a sociedade retomasse suas atividades com segurança.
Essa não foi uma exceção. A história mostra que as vacinas estão entre as maiores conquistas da humanidade.
Graças a elas, doenças como a varíola foram erradicadas, enquanto poliomielite, sarampo, rubéola e tantas outras passaram a ser controladas em diversos países.
Questionar essas conquistas sem fundamento científico significa abrir espaço para o retorno de doenças que já não faziam parte da realidade das novas gerações.
E quem mais sofre são justamente aqueles que mais precisam de proteção: nossas crianças.
Por isso, recuperar a confiança na vacinação precisa ser uma prioridade. Isso exige campanhas de conscientização, informação de qualidade, fortalecimento da atenção básica e responsabilidade no debate público.
A boa política não pode estimular a desinformação. Seu papel é construir confiança, proteger vidas e enfrentar os problemas reais da população.
A ciência não pertence à direita nem à esquerda. A vacina não é patrimônio de um partido ou de um governo.
Ela pertence à humanidade.
Essa é mais uma lição de que precisamos de menos radicalização e mais responsabilidade.
Porque quando a polarização começa a colocar em dúvida até uma política pública que há décadas salva milhões de vidas, fica evidente quem paga essa conta.
Não é um partido. Não é um governo.
É toda a sociedade. Principalmente as nossas crianças.
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