Nesta primeira coluna como presidente da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), saúdo todas e todos os leitores do Diário. Como mulher, mãe, médica de família e comunidade e atuante na educação médica, quero dedicar estas primeiras palavras especialmente às mulheres leitoras: ocupem seus espaços, inclusive aqueles que, historicamente, fizeram parecer que não eram destinados a nós.
Ao assumir a presidência de uma sociedade médica científica, não ocupo este lugar sozinha. Trago muitas mulheres comigo. Algumas nunca conheci por terem vivido em outros tempos, mas, a cada passo e conquista, abriram caminhos para que hoje pudéssemos ocupar espaços que antes nos eram negados, ainda que estejamos longe de superar tantas desigualdades. Trago também aquelas com quem tenho a honra de conviver diariamente, nas universidades onde leciono, na diretoria da SBMFC e em cada aluna em quem enxergo a possibilidade de um futuro melhor para todas nós.
Mas o que mulheres ocupando espaços tradicionalmente masculinos têm a ver com saúde? Quanto maiores forem as oportunidades de educação ao longo da vida, da alfabetização ao ensino médio e à formação profissional, e quanto maiores forem as possibilidades de inserção e crescimento no mercado de trabalho, mais mulheres poderão alcançar posições de liderança e melhores rendimentos. A autonomia financeira amplia possibilidades, reduz situações de dependência e pode contribuir para maior bem-estar, segurança e qualidade de vida.
Na Medicina de Família e Comunidade, entendemos que cuidar da saúde vai muito além de investigar sintomas físicos. Como uma especialidade que atua de forma integral, consideramos também os aspectos mentais, emocionais, sociais e econômicos que atravessam a vida de cada pessoa e podem estar relacionados ao sofrimento que chega ao consultório.
Quando falamos da saúde das mulheres, não podemos ignorar as diferentes formas de violência que as cercam. Todas elas deixam marcas e podem produzir consequências profundas para a saúde. Segundo estudo publicado pelo The Lancet, com dados analisados entre 1990 e 2023, em 204 países e territórios, a violência doméstica contra mulheres pode provocar impactos duradouros sobre a saúde física e mental das vítimas. No caso da violência praticada por parceiros, as mulheres apresentam maior risco de sofrer lesões, aborto, infecção pelo vírus HIV e até morte.
A discussão sobre saúde ganha contornos ainda mais complexos ao olhar para as populações vulnerabilizadas. Sendo as mulheres as maiores responsáveis pela produção do cuidado, sob o recorte racial e econômico, as interseccionalidades evidenciam que o acesso à saúde não é pensado da mesma forma para todas as mulheres. Faz-se necessário repensar, de forma generosa, a produção da ciência para e com estas mulheres.
Por isso, quanto mais espaços ocuparmos e quanto mais vozes conseguirmos unir, maiores serão nossas possibilidades de transformar realidades e nos proteger. Em um país que ainda convive com números alarmantes de feminicídio, mostrar às novas gerações que podemos e devemos garantir nosso direito de ir, vir e sermos quem quisermos é também uma forma de promover saúde.
Não se trata de retirar espaços de ninguém, mas de garantir que eles sejam acessíveis a todas as pessoas. Quando mulheres e homens podem participar de forma igualitária da sociedade, ampliamos as possibilidades de equidade, fortalecemos os direitos, melhoramos indicadores sociais e construímos condições mais favoráveis para a saúde e a qualidade de vida de todas e todos.
Andrea Taborda é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade
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