Dia dos Pais e luto: psicóloga orienta como acolher as emoções
Para quem perdeu o pai ou um filho, celebrações familiares podem intensificar a saudade e o sofrimento; especialista explica como atravessar o período de forma mais acolhedora
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Embora seja associado a homenagens e encontros familiares, o Dia dos Pais pode representar um período emocionalmente difícil para quem enfrenta a ausência de alguém. Fotografias, propagandas, publicações nas redes sociais e tradições mantidas ao longo dos anos podem intensificar a saudade e despertar sentimentos como tristeza, culpa, raiva e solidão.
O impacto pode ser ainda maior no primeiro Dia dos Pais após a perda, quando a pessoa vivencia pela primeira vez a ausência em uma celebração que antes fazia parte da rotina familiar. A data também pode ser particularmente dolorosa para pais que perderam um filho e precisam lidar não apenas com a saudade, mas com questionamentos sobre a própria identidade e o significado da paternidade.
Segundo Lidiane de Souza Trindade Nascimento, professora do curso de psicologia, datas comemorativas podem funcionar como gatilhos emocionais porque evidenciam a ausência e retomam lembranças ligadas à convivência familiar. “Essas datas carregam expectativas sociais de celebração, encontro e felicidade. Para quem perdeu alguém, esse movimento pode reforçar a percepção da ausência. É possível que emoções que pareciam mais controladas reapareçam com intensidade, e isso não significa necessariamente que a pessoa tenha regredido no processo de luto”, explica a psicóloga.
A importância do cuidado com o tema também aparece nas atualizações da Classificação Internacional de Doenças. A CID-11, que entrou em vigor internacionalmente em 2022, incorporou o transtorno do luto prolongado entre as condições relacionadas à saúde mental. Em 2024, a Organização Mundial da Saúde publicou um manual clínico com orientações mais detalhadas para que profissionais reconheçam suas características.
Na prática, esse avanço oferece parâmetros para diferenciar as reações esperadas diante de uma perda de situações em que o sofrimento permanece intenso e passa a comprometer significativamente a vida cotidiana. O reconhecimento, no entanto, não significa que todo processo de luto seja uma doença ou precise de diagnóstico.
O primeiro Dia dos Pais sem o pai
Para quem perdeu o pai, antecipar como pretende passar a data pode ajudar a reduzir a ansiedade e evitar situações que provoquem desconforto. A pessoa pode decidir se deseja participar de um encontro familiar, estar acompanhada por alguém de confiança, permanecer em casa ou realizar alguma atividade que tenha um significado especial.
Criar um ritual, como preparar uma comida de que o pai gostava, ouvir uma música, reunir fotografias, escrever uma carta ou compartilhar histórias com familiares, pode ser uma forma de reconhecer a saudade e preservar as lembranças. Essas homenagens, entretanto, não devem ser encaradas como uma obrigação. “Algumas pessoas encontram conforto ao recordar e falar sobre quem morreu. Outras precisam se afastar das homenagens e das redes sociais naquele momento. O mais importante é identificar o que traz acolhimento e respeitar os próprios limites, sem a cobrança de viver a data de uma maneira específica”, orienta Lidiane.
Quando o luto é pela perda de um filho
Para um pai que perdeu um filho, o Dia dos Pais pode despertar sentimentos de culpa, impotência e vazio. Além da dor pela ausência, ele pode sentir que sua experiência de paternidade deixou de ser reconhecida pelas pessoas ao redor.
Em algumas situações, familiares e amigos evitam mencionar o filho por receio de provocar sofrimento. De acordo com a psicóloga, porém, o silêncio pode ampliar a sensação de isolamento. Quando houver abertura, falar sobre a pessoa que morreu, dizer seu nome e compartilhar lembranças são maneiras de reconhecer a história e o vínculo construído. “A morte de um filho não apaga a paternidade nem as experiências vividas. Esse pai continua carregando memórias, afetos e uma história. Em vez de evitar o assunto, familiares e amigos podem perguntar como ele deseja passar a data e se gostaria de falar sobre o filho”, afirma.
Frases como “você precisa ser forte”, “é necessário seguir em frente” ou “o tempo cura tudo” também devem ser evitadas. Mesmo quando são ditas com boa intenção, elas podem transmitir a ideia de que a dor precisa ser escondida ou superada rapidamente. Demonstrar disponibilidade para ouvir e oferecer ajuda concreta costuma ser mais acolhedor do que tentar encontrar explicações para a perda.
Quando é importante buscar apoio psicológico?
O acompanhamento psicológico pode ser procurado em qualquer momento do processo de luto, inclusive como uma forma preventiva de cuidado. Não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável ou comprometa completamente a rotina.
Alguns sinais, no entanto, indicam a necessidade de atenção especializada, especialmente quando permanecem intensos ou começam a interferir significativamente na vida cotidiana:
- Dificuldade persistente para realizar atividades básicas ou cumprir compromissos;
- Isolamento e afastamento contínuo de familiares e amigos;
- Alterações intensas no sono ou na alimentação;
- Sentimentos constantes de culpa, inutilidade ou desesperança;
- Perda de interesse por atividades que antes proporcionavam bem-estar;
- Uso frequente de álcool ou outras substâncias para aliviar o sofrimento;
- Pensamentos recorrentes sobre a própria morte ou falta de vontade de continuar vivendo.
“Mais importante do que estabelecer um prazo é observar a intensidade do sofrimento e os impactos provocados na vida da pessoa. Quando ela sente que não consegue atravessar esse processo sozinha ou percebe prejuízos significativos em sua rotina, procurar apoio profissional pode ajudá-la a compreender as emoções e construir formas mais saudáveis de lidar com a ausência”, destaca Lidiane.
A recomendação para familiares e amigos é oferecer presença, escuta e apoio sem pressionar a pessoa a participar das comemorações. Perguntar do que ela precisa, respeitar sua decisão e demonstrar disponibilidade são atitudes que podem tornar a data menos solitária.
No Dia dos Pais, acolher o luto não significa apagar a tristeza ou evitar todas as lembranças, mas permitir que a ausência seja reconhecida com respeito. Seja para quem perdeu o pai ou para quem perdeu um filho, atravessar a data com apoio e sem cobranças pode ajudar a transformar um momento doloroso em um espaço de cuidado e preservação dos vínculos afetivos.
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