Home Titulo Entrevista da Semana Titulo Entrevista da Semana

Marcos da Costa: ‘Estado será o polo desenvolvedor de tecnologia assistiva’

10/08/2026 | 08:52
Compartilhar notícia
DGABC FOTO: Claudinei Plaza/DGABC
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O secretário estadual de Direitos da Pessoa com Deficiência, Marcos da Costa, afirmou que o Estado possui o objetivo e os recursos para se tornar o grande desenvolvedor tecnológico de aparelhos, produtos e equipamentos que garantam maior autonomia e qualidade de vida a pessoas com deficiência. Com R$ 70 milhões investidos em pesquisas, o gestor apontou que os centros dentro de universidades ajudam a suprir a demanda da população. Além disso, o secretário comentou sobre a evolução do Centro TEA (Transtorno do Espectro Autista) de São Bernardo, que pretende atender todo o Grande ABC. Neste momento, a Pasta realiza o projeto base e escuta as prefeituras sobre as possibilidades de serviços.

Raio-X

Nome: Marcos da Costa

DGABC

Aniversário: 24 de junho

Onde nasceu: Capital

Onde mora: Capital

Formação: Direito

Um lugar: Minha própria casa

Time do coração: São Paulo Futebol Clube

Alguém que admira: Waldir Troncoso Peres (1923-2009), advogado

Um livro: Os Miseráveis, de Victor Hugo

Uma música: O Bêbado e o Equilibrista, de Elis Regina

Um filme: O Vento Será Tua Herança (1960), de Stanley Kramer

Como o sr. observa a evolução dos direitos para PcDs (Pessoas com Deficiência)?

Eu sempre digo que, olhando para trás, houve um processo de evolução muito grande, indiscutivelmente. Hoje, a gente está em uma situação bem mais consolidada, principalmente a partir de 2015, com a chegada da Lei Brasileira de Inclusão. Ali foi o marco realmente, alterou a base jurídica, a base de proteção. Então, nós tivemos muitos avanços. É evidente, quando você olha para a frente, que ainda falta muita coisa para conquistar. A secretaria tem um papel transversal, então ela trabalha com a educação, não vamos construir escola, mas vamos dialogar para formular políticas públicas de educação. A saúde é a mesma coisa. A Secretaria de Transporte Metropolitano também está refazendo as estações de trens que não tinham acessibilidade.

Hoje, quantas pessoas com deficiência moram na região e qual é o olhar para essa população?

No Estado, são cerca de 2,7 milhões. Atualmente, o Grande ABC possui 185 mil PcDs. Nós entendemos a importância da região, tanto histórica como transformadora. É uma região vanguardista em diversas políticas públicas que foram desenvolvidas aqui. Enxergamos a importância do ponto de vista do turismo e também do trabalho. Então, a gente procura executar um trabalho com as prefeituras no desenvolvimento de políticas públicas. <EM>

Como está o andamento do Centro TEA (Transtorno do Espectro Autista) de São Bernardo?

Já estamos em fase de contratação do projeto básico. O local vai atender não só São Bernardo, mas outras cidades da própria região, Interior e Litoral. A ideia é ter um centro por região administrativa. Estamos analisando o terreno escolhido no antigo Galpão Eiji Kikuti (bairro Cooperativa), um local de 27 mil metros quadrados. O segundo passo é verificar os serviços que a Prefeitura pretende agregar. Depois, aprovaremos o projeto e definiremos orçamento e prazo da obra. Ainda não temos a data para a inauguração. Mas garanto que estamos correndo muito para fazer a instalação. Tendo o projeto em mãos, começo a ter uma noção mais clara do nível de investimento. Já tive reunião com o prefeito Marcelo Lima (Podemos) e a fase atual é essa. No Centro TEA de Bauru, por exemplo, já tivemos cerca de 1.800 atendimentos em um mês e meio. Ele foi pensado em quatro eixos: acolhimento das famílias, financiamento de pesquisas com universidades, apoio às prefeituras e qualificação profissional. Na região, estimamos muitos atendimentos no novo centro; a demanda é muito grande.
 

Quais foram as sugestões da Prefeitura de São Bernardo e de outras administrações?

Essa é uma conversa cotidiana, tanto para ajudá-las a desenvolver políticas públicas como para ver quais demandas podemos introduzir no Centro. Aqui na região, por exemplo, eu conheci a Equoterapia (método terapêutico que usa cavalos). Com uma grande demanda, tem sido prestado em espaços muito legais. É um tema que o próprio prefeito veio conversar e colocar na mesa. Vamos estudar. O que for necessário para atender melhor e de forma mais completa o autista, vamos procurar desenvolver.

E quais são as novidades para o Grande ABC?
 

O que nós temos feito bastante na região é a questão do emprego. Empregabilidade é algo, para a gente, muito importante. Estamos definindo outros mutirões com laudo caracterizador. A gente traz peritos para atender sem custo nenhum a pessoa com deficiência. Nós estamos com treinamentos de peritos do Estado inteiro para que também localmente possa ser prestado serviço de forma rotineira, não só em mutirão, mas as próprias Prefeituras possam prestar esse serviço. Inclusive, nós estamos montando um centro de pesquisas ligado à USP (Universidade de São Paulo) para desenvolver pesquisas ligadas à empregabilidade. Uma das razões do centro é verificar quais são as grandes barreiras que o mercado enfrenta para assegurar empregabilidade para a pessoa com deficiência.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), uma em cada duas PcDs não possui ensino fundamental completo nas sete cidades. Por que metade dessa população não consegue completar os anos iniciais de ensino?
 
Tem uma série de questões envolvidas, como a acessibilidade dentro da escola, a dificuldade da pessoa com deficiência chegar até a escola e também a falta de profissionais preparados para trabalhar com a pessoa com deficiência, inclusive o próprio professor, porque nenhum de nós foi formado para trabalhar com essa população. E você tem a questão também da própria cultura, de uma sociedade que procura proteger, às vezes de uma forma excessiva, a pessoa com deficiência, a família mesmo não permite que a pessoa frequente locais, com medo de enfrentar situações de constrangimento. Diante dessa realidade, a Secretaria criou uma disciplina universitária nova, que não tinha no Brasil, provavelmente não tinha no mundo, que é a Disciplina Paulista da Acessibilidade e Inclusão, que fala de ética, fala de história, fala de direitos, fala de capacitismo.
 

Quais frutos podem ser colhidos com essa disciplina?

Começou a ser oferecida em janeiro de 2025. É uma disciplina optativa. Ela foi oferecida por quatro universidades públicas do Estado: USP, Unesp (Universidade Estadual Paulista), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Univesp (Universidade virtual do Estado de São Paulo). E nós tínhamos uma expectativa, como era optativa, para todas as áreas do conhecimento humano. Então, qualquer estudante dessas universidades tem acesso à disciplina. E nós tínhamos uma expectativa de formar 2.000 profissionais. Imagine, de repente, ter essa quantidade de profissionais entrando no mercado de trabalho, sabendo trabalhar com pessoas com deficiência, sem medo, sem preconceito. E, pela nossa grande surpresa, nós formamos ano passado 20 mil estudantes. Foi um número que realmente nos mostrou que os jovens estão preocupados com a inclusão.

Existe algum diálogo para incluir em universidades da região?

Como é uma disciplina nova, nós estamos validando. Ou seja, para verificar se há demandas que não foram atendidas, se algum ponto do curso não está atingindo o objetivo dele. Mas o Conselho Nacional de Educação já abriu o processo para tornar essa disciplina obrigatória para todas as universidades públicas e privadas. Eu comentei sobre a criação do Centro de Pesquisa de Empregabilidade, mas hoje nós já temos sete centros de pesquisa instalados no Estado. Inclusive, pesquisadores da UFABC (Universidade Federal do ABC) fazem parte desse desenvolvimento.
 

Quais são os objetivos dessas pesquisas realizadas nesses centros?

Devemos anunciar mais seis centros de pesquisa em setembro. A ideia é transformar o Estado no grande desenvolvedor de tecnologia assistiva da América Latina. No Brasil, temos pouco investimento nessa área. Contudo, na USP, por exemplo, estamos desenvolvendo o exoesqueleto brasileiro. O intuito não é só acadêmico, mas atender a uma demanda do mercado. Outro exemplo é na Unicamp, onde está sendo desenvolvido um aplicativo de inteligência artificial que permitirá que o surdo leve para qualquer lugar um intérprete de Libras virtual. Já na Unesp, desenvolvemos uma prótese de fibra de bambu, que é muito mais barata. Temos pesquisadores, empresas e demanda suficiente para tornar o Estado o grande desenvolvedor de equipamentos de autonomia para esse público. Sempre faltou articulação para esse desenvolvimento, mas agora a Secretaria conseguiu viabilizar e realizar investimento de R$ 70 milhões em pesquisa.
 

Em dezembro de 2022, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tentou reformular a Secretaria, para criar uma coordenadoria específica dentro de outra Pasta e depois retrocedeu. Após quatro anos, como o governador observa o tema?

Na época, havia a informação de que a Pasta da pessoa com deficiência não estava tendo resultado. O que o governador falou? ‘É um tema muito importante e eu quero que dê resultado’. A resposta que deram, vamos trabalhar com uma secretaria melhor estruturada, com mais orçamento: era a Secretaria de Justiça e Cidadania. Então, não é que ele quis acabar com a secretaria. Ele quis valorizar o tema, o governador é apaixonado pelo tema, não há reunião de secretariado que ele não fale sobre. Ele fala do Centro TEA onde ele vai. Ele dá total liberdade para trabalhar e cobra muito.

Para as eleições, qual o planejamento para garantir acessibilidade?

Acabamos de assinar uma parceria com o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) para que nosso sistema da Central de Libras seja levado e usado no período e no dia da eleição. É a segunda vez que firmamos. Há dois anos nas eleições municipais, tivemos mais de 1.200 consultas na plataforma. Ela funciona por meio do aplicativo Poupatempo. Imagina um surdo chegar na delegacia e ter que explicar o crime que foi cometido, não consegue. A Central funciona por meio de videoconferência com um intérprete real em qualquer período.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;