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Rachel Barros: ‘Região pode ser exemplo em políticas de igualdade’

24/08/2026 | 08:48
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FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, destacou que o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e a mobilização regional são grandes exemplos de como os municípios brasileiros podem se unir e articular políticas de promoção da igualdade racial.

Com adesão ao sistema nacional do Ministério, a gestora comentou que o Grande ABC tem potencial para receber uma unidade da Casa da Igualdade, equipamento de fortalecimento e ajuda às vítimas de discriminação. Atualmente, só há cinco pelo País.
 

Rachel também abordou as iniciativas voltadas ao combate da violência contra a mulher e os avanços do ingresso da população negra ao ensino superior.


A Sra. assumiu o comando do ministério em abril deste ano. Como observa o trabalho nesses quatro meses?
 
Tem sido um trabalho muito árduo, muito importante para a gente e, sobretudo, de continuidade. Fizemos ações inéditas nesses anos, consolidando políticas para comunidades tradicionais e povos ciganos, e avançamos muito na regularização de territórios quilombolas. Além disso, conseguimos renovar a lei de cotas e ampliar a lei para as ações afirmativas do serviço público. Já nesses quatro meses, focamos muito em ampliar os equipamentos que ficam na ponta, como a Casa da Igualdade Racial, projeto piloto com funcionamento no Rio de Janeiro, em Pelotas (Rio Grande do Sul), em Salvador (Bahia), em Fortaleza (Ceará) e em Itabira (Minas Gerais). Já abrimos um edital que está em processo de seleção para mais dez novas casas. Então, é um trabalho muito importante e com muito diálogo com a população. A nossa intenção é que consigamos fazer um bom fechamento de ciclo, apresentar os resultados que a gente vem consolidando nestes últimos três anos, mostrando para a população que temos avançado muito na promoção da igualdade racial.
 
Na semana passada, a Sra. esteve no Consórcio Intermunicipal do Grande ABC. O que foi dialogado e quais são os frutos desta visita?
 

As sete cidades aderiram ao Sinapir (Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial), que é um sistema que unifica os órgãos de promoção da igualdade racial nacionalmente e facilita informação técnica, serviços de formação de gestores e de conselheiros e também é mais um canal para garantir que as políticas públicas cheguem de maneira mais séria. E, quando a gente tem adesão, criamos de fato um sistema em que a gente consegue engajar as outras instituições que existem no entorno para promover igualdade racial. O Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e a região são exemplos bem interessantes de como os entes municipalistas se articulam para promover políticas de promoção da igualdade racial. A gente já viu que a instituição vem em progressão de iniciativas, tiveram um GT (Grupo de Trabalho) e agora constituiu um Conselho Regional de Promoção da Igualdade Racial, um projeto de cidades antirracistas.

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Com essa adesão, a Casa da Igualdade Racial podem chegar ao Grande ABC?

A Casa se propõe a ser um equipamento na ponta que fornece atendimento qualificado para as vítimas de crimes raciais. É um espaço em que você vai encontrar um atendimento qualificado de psicologia, de direito, de assistência social, mas também é um espaço para promover a inclusão econômica e cultural. Tem a possibilidade de a Casa chegar ao Grande ABC, e a adesão ao Sinapir foi fundamental para isso. O diálogo é importante, já que o local é feito com estrutura do município. Espero que em breve possamos inaugurar. Aqui tem um potencial enorme para construir uma local regional, potencializando todas as políticas. No encontro, conseguimos ver o quanto a região tem feito sobre as políticas de promoção à igualdade racial e espero que outros municípios que não estão no Consórcio possam iniciar as políticas também. Inclusive, havia representantes da cidade de Mococa (Interior de São Paulo) que participaram e ficaram motivados por conta da adesão do Consórcio

Um assunto sempre recorrente é a violência contra mulheres, sendo que as vítimas, na maioria das vezes, são negras. O que o ministério tem feito na prática para melhorar esse cenário?
 

Esse é um tema que de fato é muito grave. Sabemos que os indicadores mostram que mais de 60% das vítimas de feminicídio e das violências são mulheres negras. Por isso, temos um papel bem importante nesse combate à violência contra a mulher. Desde o início (em fevereiro) do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, a gente vem atuando de maneira conjunta. Em julho deste ano, o ministério firmou uma carta com presidentes de conselhos de promoção da igualdade racial para combater o feminicídio nos seus territórios. O próprio pacto tem conseguido fazer com que a gente avance nas políticas, são mais de 11 leis desde que foi instituído. Conseguimos ter mais celeridade no atendimento às vítimas, mais monitoramento aos agressores, espalhar mais as Casas da Mulher Brasileira. A própria Casa da Igualdade Racial é um espaço que conseguimos acolher essa mulher vítima de violência. É um trabalho muito conjunto para reduzir esses números, o Brasil não merece que mulheres sigam sendo vítimas, merece mulheres vivas e protegidas, porque são elas que conseguem mobilizar e fazer com que as políticas aconteçam e garantam seguridade para toda família.

Uma luta feita pelo ‘Diário’ é o debate sobre o estado psicológico da população, com a campanha ‘Nossa Saúde Mental’. E sobre esse tema, a população negra enfrenta situações de racismo, discriminação e desigualdade que podem agravar essa situação. Como o governo tem incorporado o enfrentamento ao racismo às políticas de cuidado em saúde mental?
 

Essa questão da saúde mental é bem importante, porque sabemos que as questões ligadas ao estresse, ansiedade e depressão são consideradas as doenças do século. Atualmente, não existe possibilidade de falar de trabalho sem falar do adoecimento mental, já que vivemos uma era de aceleração. Temos uma ação muito importante, que é a Política Nacional de Saúde da População Negra, que vem sendo fortalecida pelo Ministério da Saúde e com participação direta do nosso ministério no comitê gestor. Isso faz com que a gente coloque um direcionamento à população negra. Temos que falar também do adoecimento gerado pelos usos das bets e do endividamento das famílias. Diante disso, o Ministério da Saúde criou um canal para atendimento qualificado dos problemas com apostas. Nossa participação no comitê ajuda a demonstrar como isso afeta a população negra, que nesse caso é muito direta, porque as famílias de baixa renda são as mais afetadas. 

Além dessa campanha, o Diário promove o Desafio de Redação que neste ano completa 20 edições com 40 bolsas de estudos para alunos da rede pública ou particular. Qual a importância desse tipo de iniciativa, principalmente na ampliação de oportunidades para jovens negros?

Acho uma iniciativa excelente, justamente por saber das dificuldades que enfrentamos no ingresso de pessoas negras no ensino superior. De 2003 para cá, que foi o ano em que entrei na universidade, vimos mudanças nas instituições. Inclusive, com mais presença de mulheres negras, pessoas indígenas, quilombolas, oriundas da favela. Isso muda até o modo como o ensino é oferecido. Tivemos um aumento de 170% de ingresso pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada) e por ações afirmativas. Em 2023, por exemplo, tínhamos 45 mil ingressos, agora já temos 125 mil pelo Sisu. Apostar na educação é fundamental, porque acabar com as desigualdades educacionais é diretamente proporcional em diminuir as desigualdades raciais. 


Qual sua opinião sobre a Lei de Cotas?

Sou completamente favorável, se ela transformou a minha vida, pode transformar a vida de todas as pessoas. A gente tem um mito, no qual as pessoas dizem que quem entra por cotas não tem capacidade intelectual de entrar por outros caminhos. Isso é uma grande mentira.

O Brasil ainda tem dificuldade em reconhecer que o racismo existe no País?
 

O mito da democracia racial está um pouco mais refinado. O racismo opera de diferentes formas, sendo institucional, recreativo, ambiental, religioso. Então, a discriminação se modula e, se a gente não tem lideranças que se unem na luta, a gente não consegue avançar. O trabalho é construir uma cultura que de fato reconheça que enfrentar o racismo é central para a democracia. Digo em todos os lugares que não existe democracia sem promoção da igualdade racial. Enquanto houver racismo, não temos democracia plena.

Em quanto tempo a Sra. acha que a sociedade vai ver com naturalidade a presença de pessoas negras em cargos de destaque?
 

Mensurar anos é muito difícil. Isso tem relação direta com a transformação da nossa sociedade. Um papel central é conseguir garantir uma educação de qualidade, com a implementação integral da Lei 10.639 (ensino da cultura afro-brasileira nas escolas). Cada vez que a gente vai a um município, provocamos os entes municipalistas sobre a existência de uma secretaria de promoção de igualdade racial, e isso ajuda a fomentar o assunto. A ampliação das políticas vai fazer com que esse processo de naturalização seja mais curto ou mais rápido. Acredito que não dá para vencer mais de 300 anos de escravidão com pouco tempo de ministério, mas sou otimista e a gente vai conseguir garantir mais conscientização. Tenho fé de que vamos avançar bastante.




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