A campanha eleitoral foi sequestrada pela crise que assola o STF (Supremo Tribunal Federal). Desde que o ministro Alexandre de Moraes foi flagrado em conversas suspeitíssimas com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob acusação de comandar uma das maiores fraudes financeiras da história brasileira, não há outro assunto no País. Em vez de debaterem planos e propostas que possam melhorar a qualidade de vida dos brasileiros, os presidenciáveis passam a maior parte do tempo trocando acusações para saber quem está mais envolvido nas denúncias que chegaram à mais alta Corte. Nacionalizada, a disputa estadual não foge muito do roteiro. Enquanto isso, o 4 de outubro, dia de ir às urnas, se aproxima.

Não são apenas os candidatos que são prejudicados, já que ficam impedidos de mostrar quais propostas têm para o Brasil ou para o Estado de São Paulo. A crise envolvendo o STF acaba também tirando o foco do próprio eleitor, que, bombardeado pela sucessão vertiginosa de acontecimentos no Poder Judiciário, perde-se num mar de acusações. Nesse cenário, discussões sobre emprego, renda, saúde, educação, segurança, moradia, transporte e equilíbrio fiscal ficam à margem do noticiário. Com isso, corre-se o risco de se reduzir a qualidade do voto, pois é mais difícil escolher nomes preparados para enfrentar os desafios quando não se conhece em detalhes os seus respectivos planos de governo.
Não se trata, evidentemente, de negar a relevância do STF nem de impedir a fiscalização de seus integrantes. Há instâncias adequadas para a tarefa. Aos candidatos, cabe recolocar propostas no centro do debate. Os próximos quatro anos serão definidos nas urnas, o que exige saber quem pretende administrar, quais políticas adotará e como as promessas sairão do palanque. A crise no Supremo não pode servir de cortina a silêncios programáticos. Recuperar a finalidade da campanha permitirá escolhas baseadas em critérios. Se o conflito judiciário continuar ditando a pauta, a hora do voto chegará antes que todos tenham informações suficientes para escolher bem. E isso poderá ser um desastre para a democracia.