Com quantos cérebros se forma uma mente?
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Pense por um instante em tudo aquilo que você acredita sobre si mesmo. Que é inteligente. Tímido. Persistente. Ruim em matemática. Bom com pessoas. De onde veio essa história?
Nossa história não começa quando aprendemos a contá-la. Desde muito cedo, nossas experiências acontecem em relação com outras pessoas. Alguém se aproxima. Há expectativa. Uma ação acontece. O bebê responde. A resposta modifica a ação seguinte. E há um mecanismo importante por trás dessas primeiras trocas: o cérebro é preditivo. Ele não apenas reage ao que acontece. Antecipa, formula expectativas e compara o que esperava com aquilo que de fato aconteceu.
Antes de saber contar histórias, portanto, já participávamos delas. Alguns pesquisadores chamam essas primeiras organizações da experiência de protonarrativas. Ainda não há palavras nem um enredo contado, mas já existe uma estrutura com expectativa, ação, resposta e ajuste. Narrativa, nesse sentido, não é apenas contar acontecimentos. É também uma maneira de organizar a experiência e atribuir significado a ela.
Mais tarde, fazemos algo ainda mais complexo: começamos a transformar acontecimentos vividos em uma história sobre nós mesmos. Ligamos episódios, sentimentos, escolhas e consequências e construímos alguma continuidade entre eles. É dessa costura que emerge o chamado “self narrativo”: a história por meio da qual tentamos compreender quem somos.
Ao longo da adolescência, essa tarefa ganha outra dimensão. Já não basta lembrar o que aconteceu. Cresce a capacidade de perguntar o que aquilo significou, como nos mudou e o que diz sobre nós.
Talvez crescer seja, em parte, aprender a editar essa história. Não para inventar outro passado, mas para perceber que um episódio não precisa definir o enredo inteiro.
Uma dificuldade pode continuar sendo uma dificuldade sem se transformar em “eu não consigo”. Uma nota pode ser um resultado, não uma identidade. Um fracasso pode ser um capítulo sem precisar explicar o livro todo.
E aqui a educação entra. Aprender não é apenas receber informação de um cérebro para outro. Há expectativa, atenção compartilhada, resposta, interpretação e produção de significado. Uma correção pode ser apenas uma orientação para um estudante e, para outro, tornar-se mais uma evidência de “eu nunca acerto”.
O mesmo acontecimento. Duas histórias completamente diferentes. Talvez seja por isso que a pergunta “com quantos cérebros se forma uma mente?” seja tão interessante para a educação. Porque, enquanto ensinamos conteúdos, talvez estejamos participando também das histórias que nossos estudantes aprendem a contar sobre si mesmos.
Renata de Abreu Barbosa, economista e pedagoga.
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