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Apostas e dependência

Antonio Carlos do Nascimento
05/10/2026 | 10:39
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Gilmar  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O vício em apostas, clinicamente definido como ludopatia, é estabelecido em nosso cérebro de forma muito semelhante à dependência de drogas. A transição do entretenimento para a dependência, com a adoção de um comportamento compulsivo e prejudicial, decorre de uma severa manipulação dos mecanismos biológicos adaptativos.

A essência desse processo reside no sistema de recompensa, circuito cerebral responsável por nos motivar a repetir condutas que nos dão prazer, como ocorre quando comemos, por meio da liberação de dopamina, um neurotransmissor que promove sensações prazerosas. 

Nas apostas, esse sistema é ativado também pelo prêmio conquistado, mas principalmente pela perspectiva dele, o que faz com que a incerteza entre o êxito e o fracasso gere picos de dopamina muito maiores do que os de uma recompensa garantida, viciando o cérebro no processo de esperar pelo resultado exitoso.

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A indústria de jogos modernos, em seu perfil mais predador, explora essa via cerebral por meio de recompensas intermitentes, gerando prêmios que surgem de forma totalmente imprevisível, condicionando o cérebro a esperar pelo inusitado. 

Em outra forma de manipulação psicológica, oferecem os chamados quase-ganhos: situações em que o cérebro não processa o evento como uma perda, mas sim como uma quase-vitória; então, são ativadas as mesmas áreas cerebrais do ganho real, e o apostador é estimulado a continuar jogando, sob a aura ilusória de que a conquista está cada vez mais próxima. Com isso, o cérebro se acostuma ao estímulo e passa a exigir apostas cada vez maiores e mais frequentes para manter o mesmo nível de satisfação.

Por fim, o setor cerebral responsável pelo controle de impulsos, pela avaliação de riscos e pela tomada de decisões lógicas apresenta atividade severamente reduzida, barreira sem a qual o indivíduo perde a capacidade de parar de jogar espontaneamente, mesmo estando ciente das graves consequências financeiras, familiares e emocionais ao seu redor.

O vício em apostas é uma doença neurobiológica crônica que sequestra o sistema de recompensa cerebral de forma análoga à drogadição, fazendo com que o hábito deixe de ser uma escolha e se torne uma perda de autonomia racional, mantida mesmo diante de graves prejuízos financeiros e emocionais.

Faz pouco sentido oferecer legalmente este vil entretenimento em qualquer plataforma! 




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