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O que o cérebro não conta sobre o autismo?

Renata Abreu
08/10/2026 | 17:13
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Se fosse possível olhar para o cérebro de uma pessoa autista, quanto conseguiríamos descobrir sobre ela? Saberíamos se fala, se lê bem, se entende ironia, se uma sala barulhenta a incomoda, se mudanças de rotina a desorganizam ou como aprende melhor? Provavelmente, muito menos do que gostaríamos.
 

E essa pergunta importa cada vez mais. O Brasil tem cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo e, entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção chega a 2,6%. Não estamos, portanto, falando de uma realidade distante da escola. São estudantes que estão nas salas de aula, aprendendo, convivendo e colocando ao professor uma pergunta muito concreta: o que favorece a aprendizagem de cada um deles?

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É aí que a neurociência pode ajudar, não oferecendo uma receita, mas ampliando o olhar. Ela já identificou diferenças associadas ao autismo em vários sistemas cerebrais, mas entre uma diferença no cérebro e aquilo que uma pessoa faz no mundo existe um caminho enorme. Estrutura não se transforma em comportamento por uma seta direta. Há, porém, uma ideia especialmente interessante nessa conversa. O cérebro autista, como qualquer cérebro, é preditivo. Ele tenta reconhecer padrões, criar expectativas e antecipar o que vem depois. Em algumas situações, determinadas pistas podem precisar estar mais claras para que o estudante compreenda o que importa, o que mudou e o que se espera dele.

Se um professor diz “Hoje vamos fazer diferente”, para alguns estudantes, basta. Para outro, talvez sobrem perguntas. O que mudou? O que continua igual? O que faço primeiro? Como sei que terminei? Talvez algumas situações que interpretamos como rigidez, resistência ou dificuldade de aprendizagem sejam, em parte, situações em que estamos exigindo inferências demais.

Mas há algo ainda mais importante. O estudante autista aprende. A questão não é presumir incapacidade, nem imaginar que exista uma única forma autista de aprender. É descobrir quais condições favorecem o avanço daquele estudante, naquele momento. O diagnóstico oferece pistas, não uma legenda da pessoa. Um estudante pode precisar de mais apoio para lidar com mudanças; outro, para comunicação, regulação sensorial, organização da tarefa ou interação. E nem tudo o que acontece com uma pessoa autista acontece por causa do autismo.

E então chegamos ao trabalho difícil do professor, que é partir de onde o estudante está. Numa sala com 30, isso não significa criar uma aula diferente para cada um, mas pode significar tornar mais visível aquilo que a escola costuma deixar implícito. Antecipar mudanças, explicitar expectativas, organizar etapas, mostrar o que é central e observar o que ajuda aquele estudante a participar e avançar.

Talvez esse seja um princípio simples, mas potente. É preciso oferecer condições para que o estudante avance a partir de onde ele está. A neurociência pode nos ajudar a compreender possibilidades, mas, para saber o que favorece a aprendizagem daquele estudante, ainda precisamos observá-lo, interpretar sua resposta, ajustar o caminho e caminhar com ele.

Renata de Abreu Barbosa, economista e pedagoga.



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