Paulo Serra elege voto distrital como bandeira prioritária em Brasília
Único deputado federal do Grande ABC eleito diz que implementação do sistema seria uma forma de resgatar regionalidade perdida no pleito
André Henriques/DGABC

Único deputado federal eleito entre os concorrentes com domicílio no Grande ABC, o ex-prefeito de Santo André Paulo Serra (PSDB) já definiu a prioridade de seu mandato, que se inicia em 1º de fevereiro de 2027: retomar a discussão no plenário da Câmara do projeto de lei que institui o voto distrital misto no Brasil.
“Uma das minhas primeiras bandeiras, chegando em Brasília, é desengavetar o projeto do voto distrital misto, que foi aprovado pelo Senado, de autoria do (então) senador José Serra. Quero tentar levar esse projeto para discussão nas comissões na Câmara Federal”, declarou Paulo Serra em entrevista exclusiva ao Diário.
O texto a que alude o tucano foi aprovado no Senado em novembro de 2017 e, em seguida, encaminhado para revisão dos deputados federais. Desde então, o PL 9.212/2017 aguarda na Câmara parecer da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.
No voto distrital misto, metade das cadeiras a que cada unidade federativa tem direito na Câmara – São Paulo possui 70 – será preenchida por deputados escolhidos pelas regiões eleitorais, os distritos, definidas de acordo com o número de habitantes. A outra parte ficará com os partidos mais sufragados em todo o Estado.
“Teremos quatro vagas para candidatos locais, se considerarmos o (Grande) ABC como um distrito, que é mais ou menos o que está na lei, e quatro vagas para (os candidatos que defendem) as causas”, ilustrou o deputado federal eleito com 132.866 votos, citando a defesa animal como exemplo. A região tem 2,1 milhões de moradores aptos a votar.
No sistema atual, chamado de proporcional, o voto dado a um candidato conta também para a agremiação política, e as cadeiras disponíveis são distribuídas conforme o total de sufrágios do partido. A substituição pelo distrital misto, segundo Paulo Serra, resgataria a regionalidade perdida no pleito de domingo passado.
Boa parte dos sufrágios do Grande ABC neste ano foi direcionada a candidatos de outras regiões. O paulistano Lucas Pavanato (PL), mais votado no Estado, conquistou 158.047 apoios nas sete cidades – mais do que o tucano. “Não sou contra parlamentares das grandes causas, da polarização. É legítimo. Respeito. O voto é soberano. Agora, temos de guardar espaço para o voto da gestão, do regionalismo, do município, que resolve os problemas do cotidiano”, sustentou.
Embora os deputados federais mais bem votados no domingo passado se situem nos extremos do espectro político, tanto à direita quanto à esquerda, Paulo Serra disse acreditar que em Brasília há espaço para quem, como ele, é contra a polarização. “A minha eleição é prova de que tem”, realçou.
PLANO DIRETOR
Paulo Serra revelou que pretende conversar com os sete prefeitos da região, ainda neste ano, para colher subsídios ao que ele chama de Plano Diretor do Grande ABC. “São as propostas que precisamos tirar do papel”, explicou. Ele citou duas demandas consideradas inescapáveis; mobilidade urbana e habitação.
Para o futuro parlamentar, a região saiu fragmentada do pleito, já que reduziu em 75% a bancada eleita à Câmara Federal em relação a 2022 – há quatro anos, quatro nomes do Grande ABC foram sufragados pelas urnas – e precisa ser restaurada. “Só sobrou eu”, constatou o andreense.
Daí, segundo Paulo Serra, a importância de envolver os prefeitos e também os oito deputados estaduais do Grande ABC na busca por soluções. “Se conseguirmos condensar isso num documento, acredito que é um bom caminho para a gente tentar unir (a região novamente)”, finalizou o tucano.
Tucano defende ‘diálogo’ sobre 2028; Gilvan ignora a proposta
Ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB) evitou se posicionar sobre a sucessão municipal de 2028. Questionado sobre se vai apoiar a reeleição de Gilvan Ferreira (Cidadania), de quem dá evidentes sinais de distanciamento, o tucano tergiversou. Argumentou que o pleito está distante, mas acenou ao “diálogo”. O atual chefe do Executivo, por sua vez, não deu mostras de que está disposto a conversar com o antecessor sobre o assunto.
Um dos grandes recados que as urnas passaram, com essa votação muito fora do normal para alguns deputados, é a aversão aos políticos profissionais. E uma das características do político profissional é que, quando acaba uma eleição, ele já começa a pensar na outra. Eu não vou fazer isso. Vou focar no meu mandato. Dois mil e vinte e oito a gente vai discutir quando chegar mais perto de 2028”, justificou Paulo Serra.
O ex-prefeito de Santo André, que governou o município por oito anos (2017-2024) e indicou Gilvan à sucessão, afirmou que dar início ao debate sobre a próxima eleição pode ser mal interpretado pelo eleitor. “Não vou cair nessa armadilha.” Para o tucano, a escolha do candidato em 2028 precisa ser debatida com o grupo. “Estou sempre à disposição para o diálogo. Sou um cara de diálogo. Não tenho nenhum problema com relação a isso”, estabeleceu.
Perguntado sobre se considera que Gilvan tem o direito legítimo de concorrer à reeleição, o tucano disse que “quando chegar o momento de a gente discutir 2028, a gente vai discutir”. Ao ser questionado sobre se esse tipo de resposta não poderia causar a impressão de que ele não está fechado com o prefeito de Santo André, Paulo Serra negou: “Não, porque a sociedade sabe o que eu fiz por ele, sabe o que ele representou naquela eleição”.
Atual prefeito de Santo André, Gilvan não quis falar sobre a proposta de diálogo. Ao ser procurado pela reportagem do Diário, o chefe do Executivo disse que, no momento, está concentrado na administração da cidade para “honrar” o apoio recebido da população em outubro de 2024, quando foi eleito no primeiro turno.
“Meu foco é cuidar de Santo André, colocar as contas em dia e recuperar a Capag, classificação do Tesouro Nacional que mede a capacidade de pagamento e a saúde fiscal do município, perdida nos últimos anos. Recebi 221.410 votos de confiança e minha responsabilidade é honrar cada um deles, trabalhando pela nossa gente”, afirmou.
Federação com Cidadania está em xeque
Representantes do Diretório Nacional do PSDB se reúnem na quarta-feira (14), em Brasília, para decidir qual será o futuro da federação com o Cidadania. O acordo começou a vigorar nas eleições de 2022 e foi renovado para o pleito deste ano. Presidente do tucanato no Estado de São Paulo, o deputado federal eleito Paulo Serra é a favor do rompimento da aliança.
“Não vi como um aspecto positivo. Acho que deu muita instabilidade política. Pessoalmente, não vejo muito sentido em continuar”, declarou Paulo Serra ao ser questionado sobre o assunto. A questão, porém, vai ser submetida aos integrantes da executiva nacional do PSDB, presidida pelo deputado federal Aécio Neves – o andreense é o vice.
Em São Paulo, a federação só fez dois deputados no pleito deste ano, nenhum do Cidadania. Além de Paulo Serra, Ana Carolina Serra, também do PSDB, reelegeu-se à Assembleia Legislativa, com 132.881 votos. Há quatro anos, os partidos emplacaram, juntos, cinco nomes à Câmara Federal e 10 deputados estaduais.
Segundo Paulo Serra, ainda precisam ser elucidados aspectos jurídicos relacionados ao término do vínculo. “Tem as consequências. Tudo tem de ser (feito) de maneira muito pragmática. Não tenho dúvida de que, a partir da semana que vem, teremos mais informações do caminho que vamos seguir. Mas eu, pessoalmente, defendo o fim da federação.”
Paulo Serra reconheceu que o desempenho ruim da federação foi, em parte, resultado do distanciamento entre ele e o deputado federal Alex Manente, presidente nacional do Cidadania, que obteve 102.716 votos e não conseguiu se reeleger. “A gente dialogou menos do que deveria durante o processo, sem dúvida nenhuma.”
Os dois se estranharam na busca pelos votos, como quando o tucano declarou apoio a candidatos a senador alheios à federação, mas Paulo Serra garantiu que não restaram mágoas. “Não há nenhuma rusga. Cada um fez a sua campanha. Ele é meu suplente, ficou em segundo lugar. Da minha parte, a relação continua a mesma, sem nenhum problema.”
FLÁVIO BOLSONARO
Paulo Serra criticou a decisão do PSDB nacional de liberar os filiados no 2º turno do pleito presidencial. Os tucanos paulistas vão se reunir nesta semana para decidir o posicionamento da sigla em São Paulo. Pessoalmente, ele se disse favorável ao apoio a Flávio Bolsonaro (PL). “É uma tendência, mas não vou me antecipar, porque respeito a instância partidária. Quero ouvir as pessoas, os argumentos."
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