Bancada feminina do PL cresce 42,8% e abre debate sobre o conservadorismo
Expansão da sigla na Câmara Federal, Senado e Alesp ocorre em meio a questionamentos sobre a agenda defendida por suas representantes
Especial para o Diário
FOTOS: Divulgação/Reprodução Instagram

O aumento da presença feminina na política nem sempre representa avanço na defesa dos direitos das mulheres. No caso do PL, partido que ampliará em 42,86% sua bancada feminina em três Casas Legislativas – Câmara Federal, Senado e Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) – a partir de 2027, o crescimento vem acompanhado de uma agenda conservadora, que valoriza a família tradicional e os papéis femininos associados ao cuidado.
Somadas as bancadas da Câmara Federal, do Senado e da Alesp, o número de mulheres passará de 131 para 156 a partir de 2027, aumento de 19,08%. No mesmo período, o PL ampliará sua representação feminina de 21 para 30 parlamentares.
Na Câmara Federal, a legenda passará de 17 para 22 deputadas, alta de 29,41%. No Senado, contará com três representantes, enquanto na Alesp passará de quatro para cinco parlamentares.
No recorte paulista, a bancada feminina do partido passará de seis para sete parlamentares, considerando a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa. A legenda terá duas deputadas federais eleitas pelo Estado, Rosana Valle e Dra. Sandra Tadeu, além de cinco representantes na Alesp: Eduarda Campopiano, Dani Alonso, Delegada Graciela, Leticia Aguiar e Fabiana Bolsonaro.
As três senadoras do PL serão Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, eleitas pelo Distrito Federal, e Carol de Toni, por Santa Catarina. A ampliação da representação feminina no partido, especialmente em âmbito nacional, levanta o debate sobre o perfil político dessas parlamentares e as pautas que devem orientar seus mandatos.
Para o professor de Publicidade e Propaganda da Universidade Metodista e estrategista da Octopus Comunicação, Fábio Eloi, o crescimento da participação feminina nos partidos de direita, especialmente no PL, precisa ser analisado à luz das pautas defendidas pelas eleitas. De acordo com o docente, parte das parlamentares apresenta posições ideológicas que entram em conflito com reivindicações historicamente associadas à luta pelos direitos das mulheres.
“Em geral, são políticas conservadoras que defendem elementos muito caros à sociedade patriarcal. Nesse sentido, é difícil falar em identidade feminina dentro deste campo ideológico, uma vez que não há – ou há pouquíssimas – pautas claramente femininas defendidas por estas candidatas eleitas”, afirmou.
Para o especialista, o aumento da quantidade de mulheres em cargos legislativos também não significa, por si só, maior autonomia política. Ao analisar as manifestações das parlamentares durante as campanhas, Eloi avalia que a tendência é de manutenção de estruturas e pautas tradicionais. “Não vejo nenhuma delas defendendo pautas fora do recorte conservador”, avaliou.
O professor também ressalta que o aumento da presença feminina não garante avanços em temas como igualdade de gênero, aborto e combate à violência contra a mulher. Ao comentar uma declaração da vereadora de Praia Grande e deputada estadual eleita Eduarda Campopiano, de que foi eleita por homens, o especialista questiona o compromisso das parlamentares com as reivindicações femininas.
“Como disse a Eduarda Campopiano, ela foi eleita por homens, o que insinua que ela não se sente obrigada a assumir compromisso com pautas femininas. Então, quando essas parlamentares mais conservadoras assumirem seus mandatos, a tendência é que fortaleçam o campo conservador”, avaliou o professor.
ESPAÇOS DE PODER
A distância entre representatividade numérica e compromisso com a defesa dos direitos das mulheres também é apontada por jovens que acompanham a participação feminina na política. Aos 18 anos, a estudante de medicina veterinária Mannuela Bonadio, moradora de São Caetano, considera que a presença de mulheres nos espaços de poder é importante, mas não deve ser analisada sem levar em conta as posições defendidas pelas parlamentares.
A jovem cita como exemplo a deputada estadual eleita Eduarda Campopiano, que conquistou votação expressiva no Estado, com 1.956.238 votos, e no Grande ABC, onde recebeu 107.273 votos. Para Mannuela, a ampliação da representação feminina perde parte de seu significado quando as próprias representantes apoiam discursos contrários à autonomia das mulheres.
“De que adianta uma mulher ocupar um cargo político se ela mesma defende pautas que prejudicam os direitos de outras mulheres? Precisamos de mulheres na política que defendam nossa segurança, nossa liberdade e nossos direitos”, afirmou.
Camila Ribeiro Pires, 27, servidora pública e moradora de São Bernardo, afirma que não vê problema na participação de mulheres conservadoras na política, mas critica o uso do mandato para questionar direitos conquistados pelo movimento feminista.
“O problema é quando uma mulher que se diz conservadora e antifeminista usa seu espaço e sua voz contra outras mulheres, quando foram essas mesmas mulheres que lutaram para que ela tivesse voz”, afirmou.
Para Camila, a liberdade de escolha deve valer também para mulheres que não se identificam com o feminismo. “Se ela quer viver como uma mulher antifeminista, tem o direito de escolha. É isso que o feminismo defende: que as mulheres façam o que desejam para si. Ela não tem o direito de querer mandar na vida das outras mulheres”, completou.
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