O futuro é idoso: Projeção indica que Grande ABC terá 33% da população total com 60 anos ou mais em 2050
Segundo Fundação Seade, total é equivalente a 11 estádios lotados do Maracanã, no Rio de Janeiro
Filho Eniuto, 64, abraça mãe Maria, 88, em São Bernardo. FOTO: Denis Maciel/DGABC

Os avanços na área da saúde, que resultaram no aumento da expectativa de vida, e a queda da natalidade devem transformar o perfil demográfico do Grande ABC nas próximas décadas. Segundo projeção da Fundação Seade, em 2050 os idosos representarão 33% da população regional, estimada em 2,6 milhões de habitantes daqui a 24 anos. Serão 858.402 pessoas com 60 anos ou mais, equivalente a 11 estádios lotados do Maracanã, no Rio de Janeiro.
Segundo a instituição, as sete cidades ganharão 328.639 idosos até 2050, quase o triplo da população atu-al de Ribeirão Pires, que possui 116.845 habitantes. Em 2026, o Grande ABC tem 19% do total de moradores com 60 anos ou mais: 529.763 indivíduos.
A estimativa ainda indica que o número de idosos será 157% maior do que moradores de 0 a 14 anos (334.070).
Diante da nova configuração da pirâmide etária, o coordenador dos cursos de Ciências Econômicas e Recursos Humanos da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), Marcelo dos Santos, diz que o Grande ABC – e o Brasil – precisa se reestruturar para enfrentar o cenário de transição demográfica em curso. “Por exemplo, teremos um impacto na mão de obra tradicional e o PIB (Produto Interno Bruto) regional corre o risco de estagnar. A questão da Previdência, aos aposentados, também enfrenta um desequilíbrio estrutural direto com menos contribuintes ingressando no mercado de trabalho”, avalia.
O especialista propõe que, com a população cada vez mais envelhecida, os municípios se preparem para enfrentar a realidade. No Grande ABC, as prefeituras avançam lentamente no planejamento. Questionadas, as administrações destacaram a estrutura já existente, como instituições de longa permanência e centros de assistência social, mas apresentaram poucas iniciativas voltadas às demandas futuras dessa parcela da população.
“Entre as medidas já em discussão estão um estudo para conhecer o perfil da população idosa. O levantamento permitirá o aperfeiçoamento dos debates”, comunica a Prefeitura de São Bernardo. Em São Caetano, a administração municipal destacou a implantação da Casa Dia da Pessoa Idosa e a criação de uma unidade de atenção médica especializada.
Já Santo André afirmou que iniciativas estão sendo estruturadas de forma gradual conforme disponibilidade de planejamento e orçamento.
Santos explica ainda que é preciso cuidado ao analisar a questão, preocupado com a estigmatização dos mais velhos. “Cria-se demanda da economia prateada, como setores de cuidados, saúde, turismo, lazer e serviços financeiros especiais (para quem chegou aos 60 anos). Temos que evitar a visão de que os idosos são um fardo e mitigar o erro que o envelhecimento é um peso econômico e social.”
Envelhecer se torna privilégio e direito, sustenta especialista
Especialistas explicam que o processo de envelhecimento começa antes dos 60 anos, sendo necessários cuidados a longo prazo. Fatores culturais, sociais e estilo de vida geram preocupação sobre o modo como os jovens de hoje vão chegar às faixas de idade mais avançadas.
Segundo o professor de Geriatria do Departamento de Clínica Médica da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), Eduardo Ferriolli, os hábitos do indivíduo vão determinar 70% de como se dará o processo de envelhecimento, prejudicando ou não a autonomia, saúde e qualidade de vida.
Em um mundo cada vez mais frenético e instantâneo, a proliferação de alimentos ultraprocessados e industrializados, como fast-foods, surge como vilã da saúde, despertando fatores de risco para a senilidade – doenças, comorbidades e declínios físicos ou mentais que comprometem autonomia e qualidade de vida
Além disso, Ferriolli criticou o tabagismo entre os jovens, condenando o uso de cigarro eletrônico. “As pessoas têm a falsa noção de que é mais saudável, mas não é, porque contém contaminantes graves. Envelhecer é um privilégio que se conquista. Além disso, é um direito também. Mas temos de fazer nossa parte. Isso se aplica no cuidado da saúde com atividades físicas, alimentação saudável e habilidades de cognição”, orientou o médico.
Um dos privilégios é o de conseguir passar mais tempo com pessoas amadas. É o caso de família de São Bernardo que possui duas gerações de idosos. Aos 88 anos, Maria José Marques Silva se tornou um grande exemplo de longevidade e autonomia para o motorista e filho, Eniuto Simoa da Silva, 64.
Apaixonada por ouvir o noticiário no rádio e praticar esportes, a dona de casa tem agenda semanal repleta de atividades físicas, que iniciou antes dos 60. Maria José representa a cidade em competições de natação e atletismo, onde conquistou 200 medalhas.
“Poder acompanhar cada passo da família é tudo para mim. Cuidei de todos. Já tenho até tataraneta, falo para meus filhos e netos que não estou velha, foram eles que adiantaram”, brincou. A dona de casa ainda comentou que ‘puxa a orelha’ do filho para que ele se movimente mais.
“Não me vejo como idoso ainda; encaro com naturalidade. São poucos os que têm a oportunidade de conviver com a mãe nessa idade. É a coisa mais sagrada que se tem na vida. Fico muito feliz em vê-la com mais de 80 anos com vigor e força. É uma inspiração”, disse Eniuto, que, no ano que vem, pretende seguir os conselhos da mãe e começar a praticar atividades esportivas, competindo ao lado dela.
Isolamento prejudica a qualidade de vida
É comum que pessoas reduzam o contato com o mundo exterior na medida em que envelhecem. Mas o comportamento traz riscos. A OMS (Organização Mundial da Saúde) alerta que a solidão e a falta de convivência podem representar sérios riscos à saúde, especialmente entre indivíduos que possuem 60 anos ou mais.
Coordenadora do grupo de psicoterapia para idosos da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), a psicóloga Thamaris Ribeiro declarou que a falta de conexões sociais na terceira idade pode favorecer o surgimento de demência, prejudicando a qualidade de vida e a longevidade. “O isolamento social vai tirar um pouco o sentido de viver, do compartilhar e a possibilidade de conseguir desenvolver as habilidades”, declarou, em entrevista ao Diário.
Nascida na Paraíba, a aposentada e moradora de Ribeirão Pires Fátima Targino, 66 anos, participou do projeto Andanças 60+, promovido pela Prefeitura para conhecer pontos turísticos e fomentar o convívio social entre idosos. Para a participante, fugir da rotina é essencial para seu dia a dia. “Quando a gente é jovem, só trabalhamos. Foi na terceira idade que estou vivendo de verdade. Consegui conhecer lugares e fazer excursões que nunca tinha feito”, contou.
Mesmo morando sozinha, Fátima revelou que a ideia de ficar solitária não passa pela sua cabeça. “O convívio com minhas amigas aqui é fundamental para minha saúde. Conversamos sobre tudo, política, família e as coisas de antigamente. Na minha vida, já tive vários motivos para entrar em depressão, mas não posso me deixar cair”, concluiu a aposentada.
Para a psicóloga Thamaris Ribeiro, também da PUC-SP, os governos precisam trabalhar na questão da autonomia das pessoas acima dos 60. “Precisamos nos apropriar cada vez mais de espaços públicos e ter mais locais que sejam adequados. A acessibilidade vai além da estrutura; falo sobre temas que conversem com esse público. As administrações precisam fazer com que os idosos percebam que ainda têm vida para viver. É uma coisa que o Brasil ainda não parou para falar”, comentou a especialista.
GRANDE ABC 60+
Esta é a quarta e última reportagem da série. As demais podem ser conferidas no site do Diário, no link www.dgabc.com.br.
LEIA TAMBÉM:
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.
Santo André 23° C
