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Finados: Um time, um sax e as lembranças de um pai

Objetos e histórias de Paulo Roberto Dalla Pria permanecem na memória da família, que preserva seu legado

02/11/2026 | 08:00
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FOTO: André Henriques/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Uma peça de roupa, um instrumento musical ou o uniforme do time de coração. Depois da morte de alguém querido, objetos que antes faziam parte da rotina carregam um novo significado. Deixam de ser apenas itens e passam a conduzir histórias, lembranças e vínculos que continuam presentes mesmo diante da ausência. Transformam-se em memorabília.

Em Santo André, a empresária Munise Gomes Dalla Pria, 31 anos, encontrou nos pertences do pai, Paulo Roberto Dalla Pria, uma maneira de preservar a memória de quem foi uma das principais referências de sua vida.

O pai morreu em fevereiro de 2025, aos 58 anos, após complicações decorrentes de problemas cardíacos. A perda interrompeu uma convivência marcada pela proximidade. Mesmo depois que Munise e o irmão, Vinicius Gomes Dalla Pria, 27, se casaram, o pai continuava sendo o ponto de encontro da família, aquele a quem recorriam diante de dúvidas, dificuldades e decisões importantes.

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“Ele era nosso porto seguro. Se a gente tinha uma dor, recorria a ele. Se a gente queria uma opinião, recorria a ele”, recorda Munise.

A família começou a se desfazer dos pertences na semana seguinte à morte. A maior parte das roupas foi doada, enquanto algumas peças ficaram com o filho, que vestia o mesmo tamanho do pai. A decisão não foi uma tentativa de apagar a presença dele, mas uma escolha coerente com a maneira como a família enxergava sua relação com os bens materiais.

“Meu pai nunca foi apegado a coisas materiais, a nada”, conta Munise. Por isso, ela acreditava que ele não gostaria de ver as peças paradas em um guarda-roupa enquanto outras pessoas poderiam ter necessidade de uma roupa.

Munise, no entanto, fez questão de preservar duas peças, um conjunto do Palmeiras, time de futebol pelo qual o pai torcia, e uma camiseta que ela e o marido haviam dado de presente a ele.

As peças de roupa carregam a lembrança de uma das últimas ocasiões em que pai e filha foram juntos ao Nubank Parque, estádio do Palmeiras, na Capital, em 2023, para assistir a um jogo da equipe do coração. 

Nem todos os objetos que remetem ao pai estão com Munise. O saxofone que ele estava aprendendo a tocar ficou com Solange Gomes da Silva Dalla Pria, 57, mulher dele e mãe de Munise. A família fez questão de não doar nem vender o instrumento.

O saxofone guarda uma lembrança diferente daquela associada às roupas. Não representa apenas algo que ele fez ou tinha, mas também uma atividade que desejava desenvolver e para a qual não teve tempo.

A lembrança também aparece em situações que não dependem de um objeto preservado. Paulo Pria chegou a ter um fusca amarelo, vendido pouco antes de adoecer. Mesmo sem o veículo, a associação permaneceu. Quando encontra um Fusca amarelo na rua, Munise se lembra do pai.

E se o carro ficou na memória, o trabalho também se tornou uma forma de manter sua história viva. Paulo Roberto Dalla Pria dedicou 40 anos ao comércio de rodas e pneus. Após sua morte, o filho deu continuidade ao negócio, que também já contava com a participação da mãe. Mais tarde, Munise também passou a trabalhar com os dois, ajudando a preservar o ramo ao qual o pai dedicou grande parte da vida.

“Quando estava internado ele foi dando todas as coordenadas para o meu irmão e para minha mãe, pediu para o meu marido cuidar da gente. Sempre uma pessoa muito forte cuidando e nos protegendo”, conclui Munise.

Vínculo com o que foi deixado pode ajudar no processo de luto

“Esses objetos podem representar, sim, um auxílio nessa fase de transição do luto. A sensação da presença não se esvai repentinamente ou de uma vez”, explica ao Diário o especialista em Clínica Analítico-Comportamental Leonardo Bourroul.

Segundo o profissional, o significado atribuído aos pertences está relacionado ao processo de associação construído durante a convivência. Por meio do pareamento, mecanismo psicológico explicado pelo especialista, roupas, fotografias, móveis e outros objetos passam a remeter a experiências, características e momentos compartilhados com quem morreu.

“À medida que convivemos com alguém, passamos a associar a essa pessoa características físicas, emocionais e psicológicas, além de objetos e situações que remetem à relação construída”, detalha.

Cada pertence, portanto, pode representar um momento, uma característica ou uma lembrança específica. Essa relação também ajuda a compreender por que os indivíduos reagem de maneiras diferentes diante dos objetos deixados por alguém próximo. “Tem pessoas que se sentem mais apegadas aos objetos, justamente com essa característica de transição, durante a perda, durante o processo de luto. E tem outras que preferem se desapegar desses objetos como forma também de não se deparar com as lembranças por tanto tempo”, observa o especialista.

Inexiste, entretanto, uma indicação universal sobre guardar ou o momento certo para doar ou descartar os pertences. “Não tem nenhuma recomendação de que se deve se desfazer o mais rápido possível, ou deve-se manter esses objetos por um período A, B ou C. A realidade é que cada um vai viver o luto relacionado a esses objetos, à simbologia que cada um deles tem, à sua maneira”, ressalta Bourroul.




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