Um time, um sax e as lembranças de um pai
Objetos e histórias de Paulo Roberto Dalla Pria permanecem na memória da família, que preserva seu legado
FOTO: André Henriques/DGABC

Uma peça de roupa, um instrumento musical ou o uniforme do time de coração. Depois da morte de alguém querido, objetos que antes faziam parte da rotina carregam um novo significado. Deixam de ser apenas itens e passam a conduzir histórias, lembranças e vínculos que continuam presentes mesmo diante da ausência. Transformam-se em memorabília.
Em Santo André, a empresária Munise Gomes Dalla Pria, 31 anos, encontrou nos pertences do pai, Paulo Roberto Dalla Pria, uma maneira de preservar a memória de quem foi uma das principais referências de sua vida.
O pai morreu em fevereiro de 2025, aos 58 anos, após complicações decorrentes de problemas cardíacos. A perda interrompeu uma convivência marcada pela proximidade. Mesmo depois que Munise e o irmão, Vinicius Gomes Dalla Pria, 27, se casaram, o pai continuava sendo o ponto de encontro da família, aquele a quem recorriam diante de dúvidas, dificuldades e decisões importantes.
“Ele era nosso porto seguro. Se a gente tinha uma dor, recorria a ele. Se a gente queria uma opinião, recorria a ele”, recorda Munise.
A família começou a se desfazer dos pertences na semana seguinte à morte. A maior parte das roupas foi doada, enquanto algumas peças ficaram com o filho, que vestia o mesmo tamanho do pai. A decisão não foi uma tentativa de apagar a presença dele, mas uma escolha coerente com a maneira como a família enxergava sua relação com os bens materiais.
“Meu pai nunca foi apegado a coisas materiais, a nada”, conta Munise. Por isso, ela acreditava que ele não gostaria de ver as peças paradas em um guarda-roupa enquanto outras pessoas poderiam ter necessidade de uma roupa.
Munise, no entanto, fez questão de preservar duas peças, um conjunto do Palmeiras, time de futebol pelo qual o pai torcia, e uma camiseta que ela e o marido haviam dado de presente a ele.
As peças de roupa carregam a lembrança de uma das últimas ocasiões em que pai e filha foram juntos ao Nubank Parque, estádio do Palmeiras, na Capital, em 2023, para assistir a um jogo da equipe do coração.
Nem todos os objetos que remetem ao pai estão com Munise. O saxofone que ele estava aprendendo a tocar ficou com Solange Gomes da Silva Dalla Pria, 57, mulher dele e mãe de Munise. A família fez questão de não doar nem vender o instrumento.
O saxofone guarda uma lembrança diferente daquela associada às roupas. Não representa apenas algo que ele fez ou tinha, mas também uma atividade que desejava desenvolver e para a qual não teve tempo.
A lembrança também aparece em situações que não dependem de um objeto preservado. Paulo Pria chegou a ter um fusca amarelo, vendido pouco antes de adoecer. Mesmo sem o veículo, a associação permaneceu. Quando encontra um Fusca amarelo na rua, Munise se lembra do pai.
E se o carro ficou na memória, o trabalho também se tornou uma forma de manter sua história viva. Paulo Roberto Dalla Pria dedicou 40 anos ao comércio de rodas e pneus. Após sua morte, o filho deu continuidade ao negócio, que também já contava com a participação da mãe. Mais tarde, Munise também passou a trabalhar com os dois, ajudando a preservar o ramo ao qual o pai dedicou grande parte da vida.
“Quando estava internado ele foi dando todas as coordenadas para o meu irmão e para minha mãe, pediu para o meu marido cuidar da gente. Sempre uma pessoa muito forte cuidando e nos protegendo”, conclui Munise.
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