Trilha revela ruínas de fazenda de escravos em São Sebastião
‘Diário’ realiza visita ao Sítio Arqueológico São Francisco; local guarda construções do século 19
Vagner Aquino

O primeiro sinal de que o passeio será diferente é o silêncio. À medida que os passos avançam pela Mata Atlântica, em São Sebastião, no Litoral paulista, o movimento da rodovia fica para trás e dá lugar ao som das folhas, dos pássaros e das botas tocando o chão irregular. A trilha parece levar a mais um recanto verde da Serra do Mar, mas, escondidas entre raízes e vegetação, pedras e construções antigas guardam história que vai além da paisagem. É ali que está o Sítio Arqueológico São Francisco.
Em síntese, o local é um complexo de ruínas do século 19 associado à uma fazenda de café onde se praticava a escravização de africanos e atividades clandestinas. E a aventura começa no acesso ao parque, com o acompanhamento obrigatório de guia credenciado. O trajeto exige atenção: há trechos de subida, degraus, raízes expostas e terreno acidentado. Em determinados pontos, é preciso diminuir o ritmo para vencer o desnível e observar onde se pisa. Mas, hoje em dia está mais fácil, afinal, tem até corrimão.
A caminhada pode durar de uma hora a uma hora e meia na subida. Isso varia conforme o roteiro, as condições do grupo e, claro, o clima. O percurso informado pelas fontes oficiais varia de 1 a 2 quilômetros. O passeio completo, com ida, visita às estruturas e retorno, pode levar mais de três horas.
A interpretação histórica associa o complexo a uma antiga fazenda de café e a um possível entreposto ligado ao tráfico de africanos escravizados. A localização afastada dos núcleos urbanos e a proximidade com o mar ajudam a contextualizar a hipótese de que o local tenha sido utilizado em atividades clandestinas. É importante, contudo, distinguir os vestígios arqueológicos já identificados das interpretações sobre a função de cada construção, afinal, parte da história ainda é objeto de pesquisa.
Entre os vestígios que se vê no local estão o pátio cerimonial, a capela e a chamada Casa Grande. E têm elementos associados a construções religiosas, como pia batismal e oratório. A presença da capela em um complexo ligado à escravização evidencia as contradições de uma sociedade na qual a religiosidade coexistia com a exploração e a violência contra seres humanos.
O jornalista viajou a convite da Secretaria de Turismo de São Sebastião
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