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Trilha revela ruínas de fazenda de escravos em São Sebastião

‘Diário’ realiza visita ao Sítio Arqueológico São Francisco; local guarda construções do século 19

Vagner Aquino
06/11/2026 | 08:29
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Vagner Aquino  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O primeiro sinal de que o passeio será diferente é o silêncio. À medida que os passos avançam pela Mata Atlântica, em São Sebastião, no Litoral paulista, o movimento da rodovia fica para trás e dá lugar ao som das folhas, dos pássaros e das botas tocando o chão irregular. A trilha parece levar a mais um recanto verde da Serra do Mar, mas, escondidas entre raízes e vegetação, pedras e construções antigas guardam história que vai além da paisagem. É ali que está o Sítio Arqueológico São Francisco.

Em síntese, o local é um complexo de ruínas do século 19 associado à uma fazenda de café onde se praticava a escravização de africanos e atividades clandestinas. E a aventura começa no acesso ao parque, com o acompanhamento obrigatório de guia credenciado. O trajeto exige atenção: há trechos de subida, degraus, raízes expostas e terreno acidentado. Em determinados pontos, é preciso diminuir o ritmo para vencer o desnível e observar onde se pisa. Mas, hoje em dia está mais fácil, afinal, tem até corrimão.

A caminhada pode durar de uma hora a uma hora e meia na subida. Isso varia conforme o roteiro, as condições do grupo e, claro, o clima. O percurso informado pelas fontes oficiais varia de 1 a 2 quilômetros. O passeio completo, com ida, visita às estruturas e retorno, pode levar mais de três horas.

Não se trata, porém, de uma trilha em que o objetivo é apenas alcançar um mirante. No percurso, o guia ajuda a interpretar o que a vegetação esconde e a compreender como aquela área, hoje protegida, foi ocupada há aproximadamente dois séculos. O visitante precisa olhar para o chão, para os desníveis e para as pedras que despontam entre o verde. “Arqueologia é isso. Não tem uma certeza única, porque, caso a gente encontre algo, tudo muda”, explica o guia de turismo Vagner Gonçalves, que acompanha visitantes em roteiros históricos pela região.
 
Embora a descoberta do sítio arqueológico tenha ocorrido no comecinho da década de 1990, a abertura oficial à visitação pública ocorreu em 1º de julho de 2024, após melhorias promovidas pela Prefeitura de São Sebastião. As intervenções incluíram adequações na trilha, como placas informativas, áreas de descanso e até um deck de contemplação. 
 
O acompanhamento de guia credenciado é obrigatório. Eles têm o papel de orientar o percurso e contextualizar a história, o que contribui para a preservação do patrimônio. E o passeio deve ser agendado. O custo precisa ser consultado com o guia ou a agência responsável, mas gira em torno de R$ 80 por pessoa – ou o dobro, no caso de visitante individual. Escola pode ter gratuidade. Faixa etária: a partir de 10 anos. A recomendação é usar calçado apropriado para caminhada e levar protetor solar, repelente e água.
 
HISTÓRIA
O sítio foi descoberto em 1991 pelo arqueólogo Wagner Bornal. Mas a história começou antes, em 1989, quando o pesquisador ouviu relatos sobre a existência de construções antigas na região. A partir disso, voltou sua atenção para a área e iniciou investigações que ajudariam a revelar a dimensão do complexo. 
 
A descoberta não significou, entretanto, que tudo estivesse identificado. Pois só em 2007, novas pesquisas encontraram uma extensa área, de mais de um milhão de metros quadrados, com vestígios de outras edificações e caminhos.
 
A história também ajuda a entender a posição escolhida para a construção. O conjunto fica em encosta da Serra do Mar, a cerca de 260 m de altitude, com vista para o Canal de São Sebastião e para Ilhabela. 
 

A interpretação histórica associa o complexo a uma antiga fazenda de café e a um possível entreposto ligado ao tráfico de africanos escravizados. A localização afastada dos núcleos urbanos e a proximidade com o mar ajudam a contextualizar a hipótese de que o local tenha sido utilizado em atividades clandestinas. É importante, contudo, distinguir os vestígios arqueológicos já identificados das interpretações sobre a função de cada construção, afinal, parte da história ainda é objeto de pesquisa.

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RUÍNAS
 

Entre os vestígios que se vê no local estão o pátio cerimonial, a capela e a chamada Casa Grande. E têm elementos associados a construções religiosas, como pia batismal e oratório. A presença da capela em um complexo ligado à escravização evidencia as contradições de uma sociedade na qual a religiosidade coexistia com a exploração e a violência contra seres humanos.

O jornalista viajou a convite da Secretaria de Turismo de São Sebastião




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