Depois Delas Após caso, Luciene de Jesus criou instituto em Rio Grande da Serra para ajudar mulheres
Luciene de Jesus observa foto de filha FOTO: Denis Maciel/DGABC

O que acontece Depois Delas? A pergunta que nenhuma família gostaria de enfrentar se torna ainda mais dolorosa em datas comemorativas, especialmente em um dia como hoje, marcado por encontros, memórias afetivas e demonstrações de carinho. Porém, há dez anos, a técnica de enfermagem Luciene Gonçalves de Jesus, 52 anos, moradora de Rio Grande da Serra, passou a viver a data de outra forma. Há dez anos, a filha dela, Danielle Gonçalves de Jesus, então com 22 anos, foi vítima de feminicídio.
“Minha filha foi enterrada no Dia das Mães. Quando uma tragédia dessas acontece não acaba somente essa data, acaba tudo”, diz. Danielle trabalhava como recepcionista, cursava o quarto ano de Psicologia com bolsa de estudos e, segundo a mãe, era uma jovem “engraçada, esforçada e cheia de sonhos”. Ela foi assassinada pelo ex-namorado, Ricardo Coelho de Oliveira, hoje com 42 anos, em 7 de maio de 2016, em Mauá.
A jovem foi estrangulada dentro da própria casa, após o ex-companheiro pular o muro e invadir o local. Horas antes do crime, Luciene estava no hospital acompanhando o marido, pai de Danielle, internado após sofrer queimaduras graves. Danielle havia passado a noite anterior ao lado dele e, depois, voltou para casa. Logo após, a mãe começou a ligar para a filha sem obter resposta.
“Meu coração falou: acabou.” Quando chegou em casa, encontrou Danielle já sem vida. “Minha filha estava toda roxa. Eu a peguei no colo. Depois fui correndo atrás do assassino.”
A morte de Danielle mudou a vida de toda a família. O marido dela, Emilson de Jesus, 49, guarda civil municipal em São Bernardo, sofreu profundamente após a morte da filha. As irmãs da vítima, Bianca Gonçalves dos Santos Freire, 32, e Bruna Gonçalves de Jesus Miranda, 30, também enfrentaram o luto em silêncio dentro de uma casa que, segundo Luciene, nunca mais teve a mesa completa.
O feminicida foi preso e condenado a 18 anos e oito meses de prisão. De acordo com a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), atualmente ele cumpre pena na Penitenciária de Mairinque, no Interior de São Paulo. VIOLÊNCIA ESTRUTURAL Luciene relembra que tentou alertar a filha e aconselhou o fim do relacionamento abusivo por diversas vezes. Ainda assim, diz que muitas violências aconteciam longe dos olhos da família.
A mãe afirma que, além da própria dor, convive diariamente com a sensação de que outras famílias continuam sendo destruídas pelo mesmo motivo. Para ela, os casos de feminicídio nunca foram episódios isolados e passaram a fazer parte, cada dia mais, de uma rotina cruel.
“E o pior é que está acontecendo toda hora”, diz. “Se a gente ligar a televisão agora, tem um caso. Isso me dói porque não sou só eu. São outras mães, outras filhas, outras famílias passando pela mesma destruição.”
Segundo a mãe, o feminicídio não começa apenas no momento da violência extrema, mas em comportamentos abusivos que muitas mulheres acabam naturalizando dentro de casa.
“Controle excessivo, humilhações, ameaças, gritos e dependência financeira ainda fazem parte da realidade de muitas pessoas. Tem mulher que acha normal o marido controlar horário, quebrar coisas ou gritar porque cresceu vendo essa situação no ambiente familiar”, destaca a mãe.
“A violência começa muito antes. Quando a menina aprende desde pequena que precisa aceitar tudo para manter um relacionamento, ela cresce sem perceber o perigo.” FIM A reportagem encerra a série Depois Delas, criada em homenagem a todas as vítimas, mães e órfãos do feminicídio.
Após perder a filha Danielle Gonçalves de Jesus, 22 anos, a técnica de enfermagem Luciene Gonçalves de Jesus, 52, encontrou no acolhimento de outras mulheres e crianças uma forma de seguir vivendo. Foi assim que nasceu o Instituto Danielle Morais, projeto social criado em homenagem à jovem assassinada e que hoje atende pessoas em situação de vulnerabilidade social em Rio Grande da Serra. O nome Morais, segundo Luciene, foi escolhido porque Danielle gostava do sobrenome e costumava utilizá-lo nas redes sociais, apesar de não fazer parte do nome registrado oficialmente. O instituto começou de forma simples, ainda durante o período mais intenso do luto. Luciene passou a organizar cafés da manhã, fazer bolos e distribuir roupas e alimentos para famílias. “Queria dar para aquelas crianças o que eu oferecia para minhas filhas”, relembra. Segundo ela, o projeto também foi o que a ajudou a sair do período mais crítico após o caso de feminicídio. Com o tempo, a iniciativa cresceu. Atualmente, o espaço localizado no Rio dos Meninos atende cerca de 60 pessoas e oferece oficinas de costura, aulas de reforço escolar, rodas de conversa e apoio para crianças e mulheres, além da distribuição de alimentos. Luciene afirma que o trabalho vai além da assistência social. Segundo ela, o objetivo é criar vínculos com as famílias e usar o acolhimento como ferramenta de prevenção contra a violência doméstica. “Tem mulher que aparece porque não tem arroz nem pão dentro de casa. A partir disso, ela começa a conversar, passa a confiar”, relata. A educação aparece como um dos principais pilares da iniciativa. Luciene acredita que o combate ao feminicídio passa pela forma como as crianças são educadas em casa. A mãe relata que hoje o trabalho realizado no instituto é a forma encontrada para manter viva a memória da filha e tentar impedir que outras mulheres enfrentem a mesma dor. LEIA MAIS:
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