A vesícula biliar é um pequeno órgão em formato de pera, situado e justaposto à face inferior do fígado, que tem a função de armazenar e concentrar a bile – um líquido de produção hepática que atua diretamente na digestão das gorduras dos alimentos.
A litíase biliar, ou colelitíase, é popularmente conhecida como pedra na vesícula e é uma das patologias gastrointestinais mais comuns, gerando grande impacto na saúde pública, pois, uma vez presente, o tratamento resolutivo é exclusivamente cirúrgico.
Esta patologia é quatro vezes mais prevalente em mulheres na idade fértil do que em homens, estatística atribuída à ação dos hormônios femininos. De um lado, o estradiol aumenta a concentração de colesterol na bile, tornando-a supersaturada e propensa à cristalização; de outro, a progesterona reduz a contratilidade da vesícula, gerando estagnação do líquido biliar, favorecendo o crescimento dos cristais em formação.
Períodos de mudanças intensas no perfil hormonal, como os da gestação, do uso prolongado de anticoncepcionais orais e da terapia de reposição hormonal na menopausa, ampliam consideravelmente esse risco, embora a formação litiásica também seja causada por outros fatores.
Após a sexta década de vida, com o declínio hormonal feminino natural, a diferença na prevalência de litíase biliar entre homens e mulheres tende a se igualar progressivamente.
Embora boa parte dos pacientes portadores desta doença permaneça assintomática por anos, a presença de cálculos biliares representa uma ameaça silenciosa, pois a migração de um ou mais cálculos pelos canais que ligam a vesícula biliar ao intestino pode causar problemas graves.
A complicação mais comum é a colecistite aguda, uma inflamação intensa provocada pela obstrução mecânica persistente da saída da vesícula por um cálculo, expondo o órgão à possibilidade de infecção bacteriana secundária, sofrimento vascular e perfuração de sua parede, podendo levar à infecção generalizada da cavidade abdominal.
Outro distúrbio preocupante é a coledocolitíase, que ocorre quando a pedra migra para o ducto colédoco, canal que recebe os ductos da vesícula biliar e do fígado, interrompendo também o fluxo da bile do fígado. Isso resulta em icterícia (amarelamento da pele e dos olhos) e pode desencadear a colangite, uma emergência médica caracterizada por infecção bacteriana aguda das vias biliares, com alta mortalidade se não for drenada com urgência.
Por fim, a temida pancreatite biliar pode ocorrer com a impactação temporária ou permanente de um cálculo na ampola de Vater (onde os ductos biliares e pancreáticos se unem), bloqueando a saída das enzimas digestivas do pâncreas e provocando sua autodigestão, condição de extrema gravidade.
Há poucos dias, o cantor Roberto Carlos foi submetido a uma cirurgia de retirada da vesícula biliar, em razão da presença de cálculos, o que fará muito bem ao eterno rei da música popular brasileira, agora protegido das inúmeras e gravíssimas consequências potenciais supracitadas.
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