China e EUA criam diálogo sobre IA; especialista avalia impactos
Acordo prevê canal bilateral para incidentes envolvendo a tecnologia; professora da Fundação Santo André analisa possíveis reflexos na governança internacional
FOTO: Freepik (Ilustrativa)

China e Estados Unidos anunciaram a criação de um diálogo bilateral sobre inteligência artificial e de um canal de comunicação para incidentes relacionados à tecnologia. O entendimento foi firmado durante a visita do presidente chinês, Xi Jinping, aos Estados Unidos, realizada entre os dias 23 e 25 de setembro. A próxima rodada de conversas está prevista para novembro.
Para Mayra Coan Lago, coordenadora do curso de bacharelado em relações internacionais da FSA (Centro Universitário Fundação Santo André), a iniciativa mostra que, apesar da disputa tecnológica entre as duas potências, existem áreas em que a cooperação pode ser necessária para reduzir riscos.
“A inteligência artificial tornou-se um tema de segurança internacional. Assim como ocorreu com as negociações sobre armamentos nucleares durante a Guerra Fria, hoje Estados Unidos e China reconhecem que determinadas tecnologias exigem canais permanentes de diálogo para reduzir riscos, aumentar a transparência e evitar crises”, afirma.
Competição e cooperação
Estados Unidos e China mantêm uma disputa por liderança em áreas como inteligência artificial e semicondutores avançados, ao mesmo tempo em que passaram a discutir mecanismos de comunicação sobre riscos associados à tecnologia.
Segundo Mayra, essa combinação de competição e cooperação faz parte da dinâmica atual entre os dois países.
“Os dois países continuarão competindo por inovação e liderança tecnológica. No entanto, manter canais diplomáticos reduz o risco de mal-entendidos e permite construir mecanismos mínimos de confiança em temas que afetam toda a comunidade internacional.”
Diálogo sobre IA
Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores da China, os dois governos concordaram em estabelecer um diálogo para troca de informações sobre riscos e benefícios da inteligência artificial, além de um canal bilateral de comunicação para incidentes envolvendo a tecnologia.
A Casa Branca também confirmou a criação do mecanismo e informou que a próxima rodada deverá ocorrer até novembro. No comunicado norte-americano, porém, o governo utilizou a expressão “superinteligência” para denominar o diálogo.
Na avaliação de Mayra, a iniciativa poderá ter reflexos além da relação bilateral.
“Quando as duas maiores potências tecnológicas decidem conversar sobre riscos e protocolos de comunicação, enviam uma mensagem importante para o restante do mundo. Isso pode estimular o desenvolvimento de padrões internacionais de segurança e de governança para a IA.”
Empresas e Universidades
Segundo a especialista, o avanço das discussões internacionais sobre inteligência artificial também deve ser acompanhado por empresas, universidades e centros de pesquisa.
Temas como ética no uso da tecnologia, proteção de dados, segurança cibernética, propriedade intelectual, desenvolvimento responsável e regulamentação internacional tendem, na avaliação de Mayra, a ganhar espaço nas agendas governamentais e corporativas.
“A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica. Hoje ela influencia economia, defesa, diplomacia, comércio internacional e competitividade dos países”, afirma.
Relações internacionais
Para a coordenadora, as mudanças provocadas pelas tecnologias emergentes também ampliam os temas que passam a fazer parte da formação e da atuação de profissionais de relações internacionais.
“Os futuros internacionalistas precisarão compreender não apenas geopolítica e comércio exterior, mas também os impactos das tecnologias emergentes sobre a economia global, a segurança internacional e a formulação de políticas públicas.”
Mayra avalia ainda que o Brasil deve acompanhar os desdobramentos das negociações entre as duas potências e as discussões multilaterais sobre governança da inteligência artificial.
“As decisões tomadas pelas grandes potências costumam influenciar cadeias globais de produção, investimentos, padrões tecnológicos e marcos regulatórios. Por isso, o Brasil deve acompanhar essas discussões e buscar uma atuação estratégica nos fóruns internacionais sobre inteligência artificial.”
Para a especialista, os mecanismos de diálogo podem contribuir para administrar riscos relacionados ao desenvolvimento da tecnologia em um cenário de competição entre os países.
“A inteligência artificial será uma das principais forças transformadoras deste século. Construir mecanismos de cooperação entre países, mesmo em um ambiente de competição, é essencial para reduzir riscos e aumentar a confiança internacional”, afirma.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.
Santo André 23° C
