Nem todo caso de TEA (Transtorno do Espectro Autista) é identificado na infância. Algumas pessoas chegam à adolescência ou à vida adulta sem diagnóstico porque apresentam boa linguagem, desempenho escolar e desenvolvem estratégias para lidar com situações sociais. Com o aumento das exigências nessa fase da vida, dificuldades que antes pareciam discretas podem ficar mais evidentes. “Alguns observam e imitam o comportamento dos outros, ensaiam previamente o que dizer, reproduzem expressões e gestos socialmente esperados e até controlam comportamentos repetitivos, fenômeno conhecido como camuflagem ou masking.”, explica o Acadêmico Antonio Egidio Nardi, Presidente da Academia Nacional de Medicina.

Na adolescência, as relações sociais se tornam mais complexas e passam a exigir maior autonomia, flexibilidade e capacidade de interpretar mensagens que nem sempre são ditas de forma direta. Entre os sinais que podem chamar atenção estão dificuldades persistentes para compreender ironias e regras sociais implícitas, estabelecer amizades, lidar com mudanças, além de interesses muito intensos, comportamentos repetitivos e particularidades sensoriais. Mas um sinal isolado não significa autismo. O diagnóstico depende da avaliação de um conjunto de características e da história do desenvolvimento. “Em adolescentes e adultos, alguns sinais podem chamar a atenção para um possível autismo, especialmente quando estão presentes desde fases precoces da vida e repercutem no funcionamento social, acadêmico, profissional ou afetivo”. O psiquiatra ressalta ainda que dificuldades como ansiedade, depressão ou TDAH podem aparecer junto ao TEA e, em alguns casos, serem percebidas antes do transtorno do neurodesenvolvimento.
Quando o diagnóstico acontece mais tarde, ele também pode ajudar a pessoa a reinterpretar experiências vividas ao longo dos anos. Situações antes entendidas como timidez, inadequação ou dificuldade de adaptação podem ganhar outra compreensão, abrindo espaço para estratégias mais adequadas no estudo, no trabalho e nas relações sociais. “O objetivo do diagnóstico não deve ser colocar um rótulo nem tentar transformar a personalidade da pessoa, mas compreender seu modo particular de funcionamento e, quando houver sofrimento ou prejuízo, oferecer recursos que aumentem a autonomia, participação social e qualidade de vida.”, afirma Professor Antonio Nardi.
A Academia Nacional de Medicina promove sessão pública dedicada ao Transtorno do Espectro Autista no dia 8 de outubro às 15h, presencial ou online, coordenada pelos Acadêmicos Antonio Egidio Nardi e Flávio Kapczinski. A programação aborda o TEA em diferentes fases da vida, com temas como psicopatologia e história, diagnóstico e tratamento na infância, adolescência e vida adulta, neurobiologia, comorbidades, terapias no adulto e avaliação neuropsicológica. O encontro terá ainda uma sessão de autógrafos do livro Tratado Sobre o Transtorno do Espectro Autista. Participam especialistas como Rudimar Riesgo, Laiana Quagliato, Cíntia Heidemann, Luisa Lage, Carmem Gottfried, Mirela Vasconcelos Moreno e Renata de Sanson Lemann.