Crianças preparam-se para viver em um mundo que não foi feito para elas
Viver na diversidade ainda é um desafio para uma sociedade que aprende um pouco a cada dia como inclui-las
FOTO: André Henriques/DGABC

Viver na diversidade ainda é um desafio para uma sociedade que aprende um pouco a cada dia como incluir crianças atípicas. “Por que sou diferente e não posso fazer tudo que meus amigos fazem?”, perguntou Tomaz Henri Vicente Lopes, 8 anos, que é autista e apresenta ataxia (condição que afeta movimentos e coordenação motora) e TOD (Transtorno Opositor Desafiador), a sua mãe, Cristiane Vicente Pereira Lopes, 46.
Moradora de Mauá, Cristiane abandonou o trabalho como atendente para se dedicar ao filho, que faz horas de terapias diárias. “O Tomaz tem várias comorbidades associadas e é muito agitado, chega a acordar 15 vezes em uma noite. A vida social com ele também é difícil. Não posso levá-lo em parquinhos e shopping porque lugares cheios e barulhentos o desregulam”.
Os problemas motores o impedem de participar das aulas de educação física. “Ele fica chateado de não poder jogar bola com os amiguinhos, diz: ‘não consigo chutar’. Também tem dificuldade para escrever e me questiona porque seus colegas conseguem e ele não”, conta a mãe de Tomaz.
Davi Camilo dos Santos, 7, de São Bernardo, também é uma criança autista e com TOD, o que ocasiona comportamentos agressivos e dificuldade de socializar. “Ele já quebrou seis televisores e cinco celulares. Vivo com marcas roxas porque ele me agride. Não posso ir na casa de ninguém. Se não é fácil para mim que o amo tanto, imagine para qualquer outra pessoa?”, questiona a mãe, a cabeleireira Débora Sousa dos Santos, 40.
“As pessoas não entendem porque dizem que a mãe não põe limite, já ouvi isso até na escola. A sociedade não está preparada para lidar com crianças atípicas. Não há igualdade para meu filho na escola se ele acaba sendo chacota e não consegue aprender. O que ajuda muito são as terapias que ele faz”, reflete.
Atividades como psicoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e musicoterapia estão ajudando o autista não-verbal de Diadema José Matias Ribeiro de Silva, 4, a desenvolver habilidades que podem lhe proporcionar um futuro com autonomia. “Com os exercícios ele aprendeu a falar algumas palavras, como ‘comer’, ‘xixi’ e ‘mamãe’. Foi muito emocionante ouvi-lo me chamar pela primeira vez”, compartilha Renata Vieira Ribeiro, 43, que é técnica de enfermagem, mas abandonou a carreira para acompanhar o filho nas terapias.
“Apesar de tudo ele é muito feliz. O autismo é um detalhe na vida dele, pelo qual estamos lutando. Ele não tem consciência ainda de que é diferente, criança é criança, com ou sem TEA. Meu medo é em relação ao futuro, se ele vai ter como sobreviver quando eu não puder mais estar aqui, por isso, faço de tudo para ele se desenvolver”, acrescenta Renata.
De Santo André, Elizabeth Bisconti Cabrino, 5, tem Síndrome de Down e é uma criança feliz, alegre e festeira, conforme define a avó paterna Catarina Marias Cabrino, 73, que leva a neta para as terapias juntamente com o marido Amauri Cabrino, 72. “A Lili é o amor das nossas vidas. Ela é muito amorosa e carinhosa. Gosta de brincar de casinha, massinha, pintar, de ir à piscina ou praia, circo e a festas fantasiada”, afirma. “Ela não gosta de barulho alto, na escola tem um ritmo diferente de aprendizagem, mas as terapias ajudam demais”, diz Catarina.
Débora destaca que, apesar das limitações e desafios, a jornada é compensadora. “Sempre falamos do problema do autismo, mas nunca do quanto aprendemos com eles, que amam de um jeito diferente, muito puro, um abraço e beijo tão sinceros. O Davi, sem falar, ele diz tanta coisa no olhar. Eu jamais escolheria viver sem ele. Minha luta é apenas torná-lo independente”, enfatiza.
Tomaz, Davi, José Matias e Elizabeth são pacientes da Clínica Reabilite Vida, em Santo André, que organizou na semana da criança atividades festivas. As sócias-diretoras Verônica Diana e Aline Simão explicam o intuito. “Aqui conseguimos, em um ambiente seguro, oferecer acesso a festas onde eles podem interagir, para que possam treinar e serem funcionais fora daqui”, esclarece Verônica. “É uma preparação porque não queremos que a mãe deixe de ir nos lugares com eles”, acrescenta Aline.
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