Setecidades Titulo Situação revertida

Após denúncias do ‘Diário’, São Bernardo zera mortes maternas

Em 2024, negligências levaram mães à óbito no Hospital da Mulher; mudança na gestão do equipamento reverteu quadro no ano passado

26/02/2026 | 08:55
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FOTO: Nario Barbosa/DGABC
FOTO: Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O Hospital da Mulher de São Bernardo zerou em 2025 o número de mortes maternas, segundo o DVE (Departamento de Vigilância Epidemiológica) do Estado. Em abril de 2024, o Diário iniciou série de denúncias de situações de negligência e violência obstétrica na unidade hospitalar, única maternidade pública do município. Naquele ano, a cidade registrou três óbitos de gestantes. Após mudança de gestão, a situação foi revertida e alcançou a marca histórica no ano passado. 

O índice de mortalidade materna, que considera óbitos durante a gravidez ou até 45 dias após o parto, chegou a cinco mulheres em um ano, decorrentes de infecções, sangramentos ou descompensações clínicas. Foram duas mortes em 2023, três em 2022, cinco em 2021, quatro em 2020 e três em 2019.

No total, o jornal divulgou nove denúncias contra a unidade hospitalar, entre elas dois óbitos maternos. Uma das mortes por suspeita de negligência foi a de Deisy Coimbra, 29 anos, ocorrida em março de 2024 e denunciada pelo viúvo Arthur Henry. A segunda foi a de Giovanna Bianchi Dinalli e de seu bebê Antony, em abril do mesmo ano, conforme relato do marido Adriano Batista de Lima, 31. 

As ocorrências foram investigadas e, em agosto de 2024, o comitê técnico concluiu que havia falhas relacionadas ao exercício profissional. O diretor técnico do Hospital da Mulher, à época, Rodolfo Strufaldi, foi afastado das funções. 

Para reverter o quadro, a principal ação da gestão atual do Paço foi a troca da diretoria técnica e médica. Quando assumiu a Secretaria de Saúde, Jean Gorinchteyn recebeu a incumbência de modificar as práticas assistenciais no Hospital da Mulher. A administração da unidade ficou a cargo da nova diretora Adlin de Nazaré Santana Savino Veduato. 

O prefeito Marcelo Lima (Podemos) celebrou o resultado obtido após um ano. “Reformamos o telhado, entregamos mais 22 leitos e um mamógrafo, que, até então, esse hospital não tinha, e inauguramos a Casa da Gestante, mas as estruturas físicas são apenas uma parte. O trabalho da equipe, que é extremamente dedicada e capacitada, com atendimento mais humanizado, é a outra parcela significativa dessa equação de sucesso”, destacou.

Gorinchteyn ressaltou que o índice de morte materna é um dos mais importantes indicadores de qualidade da saúde pública de um município. “Está diretamente relacionado aos atendimentos pré-natais, ao acompanhamento da gestante, seja em casos de gravidez de alto risco ou de risco habitual. Então é um resultado que nos enche de orgulho e que vira uma meta a ser alcançada nos próximos anos.”

PREVENÇÃO

Além das mudanças na gestão, também foram alterados protocolos assistenciais com o objetivo de identificar precocemente pacientes de risco, já que 48% das gestantes apresentavam condição de risco, como hipertensão arterial, diabetes ou alguma descompensação clínica. A Prefeitura informou que houve reforço na prática do pré-natal nas unidades básicas de saúde, com exames clínicos frequentes, consultas, exames laboratoriais, ultrassonografias, sorologias para doenças infecciosas e vacinações, que garantiram a proteção mais ampla da mamãe e do bebê.

“Protocolos rígidos foram instituídos para prevenção de infecções, sangramentos e traumas obstétricos (durante a realização do parto), que repercutiram na redução do tempo de internação, tanto da mamãe como do bebê. A ampliação de leitos também permitiu maior agilidade nas internações e intervenções, o que impactou a redução dos riscos e a melhora nos índices”, justificou Jean Gorinchteyn. 

HUMANIZAÇÃO

A criação da Casa da Gestante e do Bebê, localizada ao lado da unidade hospitalar, também representou um grande passo na linha de cuidado dessas mães. O equipamento trouxe maior proximidade assistencial para mulheres gestantes em condições de risco, especialmente aquelas com problemas sociais que representem dificuldade para a reavaliação clínica frequente. 

Em 2025, foi implantada ainda a iniciativa Doula Voluntária, que representa um avanço significativo na humanização da assistência ao parto e nascimento. Outra medida foi a ampliação da agenda do Programa Bebê a Bordo, curso para gestantes de preparação para a chegada do bebê. Como proposta para 2026, o programa será disponibilizado para todas as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) do município em formato on-line para ampliar o alcance e a participação das mulheres.

MONITORAMENTO E AÇÃO RÁPIDA SÃO DETERMINANTES

Durante todo o ciclo, da gestação ao pós-parto, podem ocorrer complicações. Por isso, a principal estratégia é a prevenção por meio de acompanhamento regular e intervenções rápidas assim que são identificadas intercorrências, conforme explica a diretora técnica do Hospital da Mulher, Adlin Veduato. 

"O sucesso depende de reconhecimento rápido e intervenção oportuna. As medidas incluem monitorização materna e fetal contínua, uso de medicamentos específicos, intervenções obstétricas (indução do parto, cesariana de urgência), suporte intensivo quando necessário (UTI materna e neonatal) e trabalho em equipe multiprofissional”, afirmou Adlin.

Entre as principais in-tercorrências para a mãe estão hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia, hemorragias na gestação, parto ou pós-parto, infecções, diabetes gestacional, trombose e embolia, complicações anestésicas ou cirúrgicas. 

A dona de casa Maria Júlia Busato Ramalho de Campos Zemetek teve os gêmeos idênticos, Francesco e Tomé Campos Zemetek no dia 20 de dezembro do ano passado. Apesar de apresentar algumas intercorrências na gestação, como uma pré-eclâmpsia, caracterizada pela pressão alta na gestação, parto e pós-parto, que representa alto risco de morte. Entretanto, três dias depois, a andreense, que mora em São Bernardo, voltou saudável para casa com os filhos. 

“Desde o momento em que soube que a gestação era gemelar, apesar de feliz e me sentir em um momento mágico, fiquei com medo do que poderia acontecer. Sabia que poderia ser uma gravidez de risco porque tenho talassemia, um tipo de anemia. E por serem gêmeos”, contou. 

Com 28 semanas, Maria Júlia começou a ter complicações, como sangramentos, e chegou a ter uma infecção urinária, além de contrações e dilatações. Foi medicada para controlar a situação precocemente. Neste período que antecedeu o parto, de aproximadamente um mês, precisou ser internada por diversas vezes.

“O atendimento foi muito rápido e os profissionais me deram todo suporte, explicavam a todo momento tudo que estava acontecendo. Estava tensa na hora do parto, e ele foi muito difícil, mas a equipe me acalmou. Desmaiei várias vezes no pós-parto. Depois descobri que meu quadro foi complicado, tive hemorragia e a pressão subiu durante o nascimento dos bebês. Fizeram uma infusão de ferro e transfusão de sangue e melhorei”, descreveu Maria Júlia.

NEGLIGÊNCIA DA GESTÃO ANTERIOR GERA TRAUMAS

Há dois anos, o Diário trouxe à tona situações traumáticas vividas no Hospital da Mulher de São Bernardo. A primeira denúncia da série, que teve repercussão nacional, foi publicada em 14 de abril de 2024. Raissa Falosi Santos, com 21 anos à época, realizou um parto na unidade. Durante o procedimento, uma compressa foi esquecida em seu corpo e foi descoberta 19 dias depois, devido a sintomas como febre alta, sangramento, forte odor e cólicas.

A denúncia de Raissa motivou outras, que surgiram na sequência. Além da morte de Deisy Coimbra, 29 anos, e de Giovanna Bianchi Dinalli e de seu bebê Antony, todas em 2024, mais cinco bebês vieram a óbito. Havia ainda relatos de violência obstétrica.

Duas gestantes relataram lesões ocasionadas durante partos na unidade. Durante a cesária, a auxiliar de saúde bucal Stella Santos de Carvalho, 28, o fêmur esquerdo de seu filho Pyetro Santos de Carvalho Lirado foi fraturado.

Já a manicure Thayna dos Santos Souza, 25, saiu do hospital com lesões e o médico teria sido grosseiro no parto. 

<EM>Por causa das denúncias, o secretário de Saúde da época, Geraldo Reple, depôs na Câmara. Ele evitou apontar culpados ou reconhecer falhas na gestão ou no atendimento do hospital. <TL>TP




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