Denúncia Filhos denunciam que vítima deu entrada na instituição e saiu, uma semana depois, sem falar e enxergar
FOTO: Nario Barbosa/DGABC

A aposentada Edna da Cruz Vidal, 74 anos, após um diagnóstico de alzheimer, foi morar no lar de idosos Recanto das Valsas, no bairro Jardim, em Santo André. A paciente deu entrada no dia 17 de dezembro de 2025, andando, falando e com todas as funções cognitivas preservadas, exceto a memória recente, em decorrência da demência. Entretanto, sete dias depois, foi encontrada inconsciente e veio a óbito na semana seguinte, no primeiro dia deste ano. Os filhos acusam a instituição, que chega a cobrar mensalidade de R$ 4 mil por mês, de negligência e maus-tratos.
O professor universitário Douglas Vidal, 52, relata que decidiu colocar a mãe em uma casa de repouso apenas em função do alzheimer, que era moderado, mas afirma que ela estava bem de saúde. “Ela morava comigo, mas, como dou aula de manhã e à noite, achei melhor ter quem cuidasse dela. Eles disseram para eu confiar no método e que ela passaria por uma semana de adaptação, mas, nesse período, não me deixaram visitá-la”, conta.
Vidal e sua irmã, a empresária Lucimara Kors Vidsiunas, 45, falaram que iriam levá-la a um hospital, mas o pedido foi negado. Os filhos gravaram o momento da recusa por parte de uma das funcionárias. “Ela disse que não podia liberar a saída sem a dona, que estava viajando, e foi bastante agressiva. Isso é cárcere privado, negativa de socorro e afronta ao direito do idoso. As cuidadoras insistiam que aquilo era fingimento. Foi horrível, não faz sentido. Ninguém consegue fingir, o tempo todo, um estado grave de saúde, sem fala e sem visão”, ressalta o professor.
A idosa foi então levada ao Hospital Sancta Maggiore, no bairro Rudge Ramos, em São Bernardo, e depois transferida para outra unidade da rede, no Morumbi, bairro da Capital. Foram constatadas feridas nas nádegas de Edna, além de bolhas pelo corpo. De acordo com Vidal, o médico confirmou que as assaduras se tratavam de escaras com tecido necrosado, causadas por dias sem cuidados, o que configuraria negligência e maus-tratos.
A Prevent Senior, responsável pelas unidades de saúde onde a idosa foi atendida, informou que não pode, por força legal, fornecer informações sobre pacientes, exceto a familiares ou quando requisitadas pelas autoridades que investigam o caso.
“O médico pediu para tirarmos fotos e há uma gravação dele falando. O prontuário médico, com 500 páginas, está no IML (Instituto Médico Legal) de Santo André para a realização de uma perícia à distância. Estamos esperando o laudo sair para entrar com um processo contra o Recanto das Valsas”, explica o filho.
Segundo os filhos, as bolhas foram consequência de uma alergia não identificada. O hospital, após uma série de investigações, chegou ao diagnóstico de Síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que ataca o sistema nervoso. “Fizeram uma série de exames e acharam que pudesse ser AVC (Acidente Vascular Cerebral). Minha mãe estava sem visão e muito debilitada. Foi uma semana de luta, medo e esperança. Quando descobriram o que era, indicaram o tratamento, mas não deu tempo e, infelizmente, ela veio a falecer”, lamenta Lucimara.
Antes da morte de Edna, no dia 30 de dezembro de 2025, Douglas Vidal registrou um boletim de ocorrência na Delegacia do Idoso de Santo André. De acordo com a SSP (Secretaria da Segurança Pública), o caso está sendo apurado por meio de um Termo Circunstanciado. “A equipe realiza diligências para esclarecer todas as circunstâncias dos fatos”, afirma a Pasta. A família também apresentou denúncia ao Ministério Público e ao Disque 100, Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.
DEFESA
A Instituição de Longa Permanência para Idosos Recanto das Valsas, fundada em junho de 2023 e que atualmente possui 17 pacientes, por meio de seu corpo jurídico, negou as imputações. “A Instituição Recanto das Valsas reitera seu compromisso inabalável com a integridade física e emocional de todos os idosos sob nossos cuidados, repudiando categoricamente qualquer prática que viole seus direitos ou sua dignidade”, diz a empresa em nota.
O escritório Frederico Rocha Advogados, que representa o lar de idosos, alega que Edna da Cruz Vidal era portadora de “comorbidades preexistentes e de uma doença autoimune, cujo quadro clínico apresentava complexidade e evolução própria, independente dos cuidados prestados”. A instituição também afirma que, durante o período em que permaneceu na casa, de 17 a 24 de dezembro de 2025, todos os protocolos de assistência, higiene e saúde foram rigorosamente seguidos pela equipe multidisciplinar.
LEIA MAIS:
Licenciamento no estado de São Paulo ultrapassa 4,4 milhões de veículos em 2026
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.